Sem dúvida alguma, a noite anterior fora inesquecível pra ele, dessas pra serem lembradas eternamente com um sorrisinho meio besta. Chegou a se imaginar bem velhinho, centenário, rodeado por netos, bisnetos e tataranetos, com aquela cara de satisfação avisando que a vida, sim, teve lá os seus momentos incríveis, como o que estava vivendo agora. E assim, debaixo da ducha quente, naquela manhã, ele ia relembrando tudo que vivera ao lado dela, horas antes. “Ah, Wanda…”- era o que ele não parava de balbuciar alegremente, enquanto a água do banho passeava pelo corpo mais do que satisfeito. Que noite! A primeira deles. Teve vontade de cantar, mas preferiu continuar com seu mantra bem baixinho – “Ah, Wanda…” –, uma vez que não queria acordá-la, no quarto ao lado. Devia estar exausta, como ele. Mesmo assim, deixou a porta do banheiro encostada, na esperança dela vir a compartilhar a ducha com ele, naquele tempo extra das manhãs que só os grandes amantes sabem aproveitar.
Quando ele já estava prestes a desligar a ducha, ela entrou no banheiro. Ótimo. “Ah, Wanda…”
Com a ponta do dedo indicador, ele deu uma leve esfregada na superfície embaçada do box, de forma que pudesse vislumbrar aquele corpo nu que, definitivamente… “Ah, Wanda…”. Considerou que estava vivendo uma sensação quem sabe parecida com aquela que muitas astronautas vivenciaram ao olharem pra Terra, direto do espaço. Maravilhado. Isso explica a ansiedade que tomou conta dele naqueles segundos compreendidos no caminhar dela, da porta ao box. Definitivamente, estava pronto pra mais uma, duas, três, o que fosse. Mas ela parou no meio, sentando no vaso sanitário. Preguiçosamente.
Bem, não era exatamente o que ele tinha em mente. Das imagens futuras que reservou pra si, aquela não constava no acervo particular do encanto arquivado. Mas tudo bem, coisas de mulher. Coisas de bexiga feminina. Se quisesse perfeição, feito nos roteiros dos filmes mais adocicados, teria que abdicar de todo e qualquer relacionamento, ponderou. Ok. Mesmo assim, não conseguiu encarar com naturalidade aquele certo tipo de intimidade, logo na primeira manhã dos dois. Autêntica, ela era dessas mulheres que falavam tudo que vinha na cabeça, agindo sem se importar com a opinião alheia. Gostou, maravilha. Se não, passar bem. Mas aí, convenhamos, era autenticidade demais. Um soco no estômago da sutileza que havia entre os dois, sem dúvida alguma. Mas tudo bem. Dos males, o menor. Que a manhã, continuasse no seu rumo, mais do que promissor. Que a bexiga fosse esvaziada então. Carpe diem.
- Bom dia, Di… – ela quebrou o silêncio, o chamando daquele modo carinhoso pela primeira vez, no meio de um bocejo. “Diogo” já era coisa do passado, quando ainda não eram íntimos.
- Bom dia… Vem pra cá, vem… – ele sugeriu, já perdoando o suposto deslize dela. A vida era curta demais para se preocupar com bobagens, ora essa.
- Agora?
- É, nesse momento. Vem… – ele abriu o box, bem animado. Ela continuava sentada ali, sem menção de sair.
- Ah, agora não vai dar, Di…
- Por que?
- Porque eu estou fazendo o… número dois…
- É? – de súbito, sentiu um certo pânico.
- É. Não tem problema, né? – ela perguntou calmamente, como um alguém que interroga o anfitrião sobre uma banalidade qualquer.
- Ah, não. Imagina. Fique à vontade. – fechou o box, tentando se convencer, de uma vez por todas, que estava com uma mulher autêntica. Autêntica!
- Ai Di… você é um fofo, sabia?
E agora? Em questão de instantes, aquele paraíso tornara-se uma câmara de torturas. Queria sair correndo dali, mas não conseguia. A perplexidade o havia deixado paralisado. Pôxa, esvaziamento de bexiga, tudo bem… mas, aquilo??? Aquilo??? Uma voz, vinda lá da consciência, disse pra ele que mulheres, a Wanda inclusive, fazem essas coisas também, ora essa. Qual o problema? O problema, disse uma outra voz, era que havia um certo código de conduta que regulava os relacionamentos. Nesse, enquanto um estivesse tomando banho, nada do outro usar o banheiro. Sobretudo quando se tratasse do controverso número dois. Jamais, nem na primeira manhã, nem nas Bodas de Ouro. As exceções deviam ser raríssimas, por motivos muito bem justificados, o que não era o caso daquela manhã. “Bobagem, deixe de frescura”, retrucou a outra voz. No fim, concluiu que aquela seria a última manhã ao lado dela. Não dava mais, algo ali fora violentado, lamentou. Voltaria pra ex-namorada, ponto final. “Ah, Wanda!!!”
- Prontinho! – disse ela, logo depois de dar a descarga, dirigindo-se ao box. Enfim, uma ducha!
Meia hora depois, já no quarto, enquanto colocava a roupa, ela especulava sobre o quê acontecera pra surpreendê-lo tão desanimado daquele jeito, no banho entre os dois. Tentara de tudo e nada de reencontrar aquela potência da noite anterior. Ele parecia frio, distante, sei lá. Calado na maior parte do tempo. Tinha uma forte suspeita do porquê disso, quase uma certeza. Talvez estivesse forçando demais a intimidade entre os dois. Isso poderia estar assustando o coitado, que tinha acabado de sair de um relacionamento de anos. É isso. Se quisesse ter um futuro nesse relacionamento, pelo menos nesse início, teria que parar imediatamente com esse negócio de chamá-lo de “Di”.
“Ah, Diogo…”
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E que tal: