FIAPO DE JACA

September 1, 2008

ALÔ, MARCELO?

Meu nome é Marcelo. Grande coisa, ué, você deve estar resmungando agora. Enfim, dias desses, por conta do meu emprego, tive que ligar pra um tal de Marcelo também:

- Alô, Marcelo? - voz de um homem. Como esse cara poderia saber o meu nome? Será que já aguardavam pela minha ligação naquele horário? Estranho isso.
- Sim, quem fala? - respondi, feliz por ter que dispensar apresentações.
- Marcelo? - pô, eu já falei que sou eu! Tá gagá, meu filho?
- Sim.
- Quem fala?
- …
- …
- Então, eu gostaria de falar com o Marcelo.
- Então, Marcelo? - tive vontade de responder algo como “Não, é o Bozo. Papai Papudo está?”
- …
- Você quer falar com quem?
- Com o Marcelo, diga pra ele que é o Marcelo, também.
- Ah, você é Marcelo, também.
- Marcelo? É você?
- Sim? Marcelo?
- Ok, entendi, você é o Marcelo.
- Sim? Marcelo? Exatamente. O que deseja, Marcelo?

Pessoas que respondem ao chamado do nome como se tivessem perguntando pelo mesmo. Mania besta. Definitivamente, sou contra. Quem? Eu, Marcelo? Sim.

August 3, 2008

EU, O LIXEIRO

“O que você quer ser quando crescer?” Eu, na maturidade de meus cinco anos, respondia, na lata: “Lixeiro!” Todos achavam graça naquele loirinho de cabelos encaracolados - sim, já fui bonitinho, acreditem -, convicto na sua escolha. Astronauta? Jogador de Futebol? Ator de Hollywood? Que nada, pra mim, o barato mesmo era ser lixeiro. Eu lembro de ficar pendurado na grade da janela da sala, dessas que dão vista para a rua, observando aqueles caras de uniforme laranja, pendurados no caminhão de coleta. Sentia uma pontinha de inveja ao vê-los subindo e descendo de seus postos, correndo para recolherem os sacos de lixo depositados na calçada. Era algo divertido, que certamente meus pais não deixariam que eu fizesse. Para tanto, eu deveria aguardar uma eternidade, até completar 18 anos.

Claro que, após assoprar as 18 velinhas de meu aniversário, anos atrás, o meu projeto de me tornar lixeiro já era algo um tanto quanto arquivado. E sem ressentimentos. Mas até hoje eu imagino o que aconteceria se eu tivesse me mantido fiel à essa convicção. Afinal, conheço várias pessoas que realmente se tornaram aquilo que projetaram na infância - se bobear, até o Sérgio Naya, toda vez que construía seus frágeis predinhos de areia na praia. Incompreendido pela maioria, realizado na minha profissão, seria bem capaz que muitos viessem me perguntar a razão de minha escolha, bem como a teimosia em seguir adiante nela:

- Mas, veja bem, rapaz. Você veio de uma família com condições de pagar seus estudos. Poderia ter se formado numa coisa bacana, como medicina veterinária, por exemplo. Ou então, poderia estar trabalhando com algo relacionado à internet. E ganhando bem mais do que agora. Mas não, taí, trabalhando como… lixeiro?
- E daí? Eu gosto, é divertido, sempre quis isso. Você não entende que, desde quando eu era criança…
- Tá, já sei toda a estória. Que você ficava na janela, observando fascinado os lixeiros trabalharem etc e tal. Mas você era criança, rapaz. Não aconteceu nada mais nessa vida que chamasse a sua atenção?
- Bem, até que teve algo. Mas eu jamais teria condições de me dedicar a isso.
- Por quê?
- Ah, eu cresci demais. Ninguém me aceitaria como anão de comercial.

De qualquer forma, admiro aqueles que insistem naquilo que acreditam, independente do quanto isso poderá remunerar no fim do mês. Não importando se a opção é ou não controversa para os olhos de quem optou pelo convencional. Vale o clichê: o que importa mesmo nessa vida é ser feliz, fiel consigo mesmo. Pelo meu lado, cá entre nós, eu continuo considerando a possibilidade de trabalhar como lixeiro. Mas desde que seja em Mônaco, é claro.

June 25, 2008

SÉRIES? HOJE NÃO, OBRIGADO

Em termos de cultura pop, dizem por aí o melhor da vida está nos seriados. Do roteiro ao tratamento da imagem, muitas séries alcançaram um nível de excelência que em nada fica devendo aos filmes mais decentes lá de Hollywood. Bem, pode ser, quem sabe. Confesso que não tenho acompanhado série alguma, mesmo sabendo que estou perdendo momentos preciosos da minha vida ao ignorar aquela história genial que - cá entre nós- em nada vai mudar a minha existência. A todo momento, os antenados de plantão dizem coisas como:

- CARACA! Eu hoje vi o quinto episódio da sétima temporada de “Desperate Lost Houses”!!! Teve uma reviravolta, onde o pai da amante do John, após ser torturado pelo presidente dos EUA, revelou ser uma entidade asteca disfarçada de humano, só pra roubar os códigos que vão abrir pra um outro portal que…
- … que o quê?
- Putz, então… só no próximo episódio é que vão revelar o mistério.

Muitos amigos com os quais me identifico pelas idéias adoram esse mundo. Mesmo assim, eu prefiro continuar de fora, por uma razão muito simples: receio de viciar. Mesmo sabendo que isso me custará falta de assunto em algumas rodas de conversa, melhor assim. Afinal, quero continuar reservando meu limitado tempo livre pra coisas mais interessantes, a meu ver. Como sexo, por exemplo.

Ps: ok, a exceção, como sempre, fica pro meu São Seinfeld de Todas as Noites. Todas as temporadas, em DVDs originaizinhos da silva, aqui em casa. Yeah!

Tuca Hernandes | Meu Umbigo, Cultura Pop | 11:54 pm | Comente que eu te comento (2)

June 18, 2008

ESTÉTICA NEO-BUSÓFILA

Quando percebi que começaria a andar de ônibus todos os dias, procurei encarar a situação de forma positiva, sob vários pontos de vista. O principal deles era que finalmente eu voltaria a entrar em contato com o povão, tirando de minhas observações inspirações para textos e mais textos. Seria o meu início tardio numa espécie de realismo? Naturalismo? Bem, nada disso aconteceu, pois vejo que continuo no tô-nem-aísmo, percebendo que minha antena fica desligada nessas viagens. Ao invés de colecionar eurekas que me inspirem parágrafos de observações sociológicas, prefiro brincar de diretor de videoclipes meio bizarros.

Como assim?

Descobri que pode ser interessantíssimo ouvir as músicas de meu MP3 player observando o pessoal no ônibus. Ao temperar imagens banais com uma música de meu gosto, fica a impressão de que aquelas pessoas fazem parte de algo maior. “Isso! Continuem assim, com esse ar cansado, bocejando. Perfeito pra esse solo do Miles Davis que estou ouvindo agora! Com as luzes do congestionamento da Marginal Pinheiros ao fundo então, melhor ainda! Oh, yeah!” E assim, tudo fica mais bonito, palatável. Do rock ao jazz nos ouvidos. Do velho à criança nos olhos.

E dessa maneira, desço do ônibus balançando a cabeça no ritmo do momento, certo de que assisti a um videoclipe bacana. E que ninguém nunca viu ou verá.

June 10, 2008

CINCO RAZÕES QUE LEVAM AO ABANDONO DO BLOG

Teste de Popularidade

Já conheci pessoas que somem apenas para provocar saudade nos outros. Quanto mais gente cobra a volta, a auto-estima esquisitona agradece. “Ufa, eu continuo fazendo falta, ainda bem.” Como blogs ainda são escritos por seres humanos - sei lá, eu acho, né? -, esse fenômeno vez ou outra pode acontecer na bobosfera. Nesses casos, a manobra pode ser arriscada: o coitado do autor, depois de meses sem atualizações de conteúdo, pode perceber que a presença dele nesse meio é tão imprescindível quanto nevascas numa plantação de cactos. Ou seja, ninguém se interessou em participar de um suicídio em massa para que os posts voltassem ali. Ninguém percebeu que ele deixou de escrever. Aliás, ele quem? Hein?

O Fantasma do Emprego

Definitivamente, esse é o maior responsável pela morte súbita de muitos blogs. Pouco antes de aceitar aquela proposta de trabalho, o cara tava lá, sossegadinho o dia inteiro, pensando nas melhores idéias que tomariam a forma de um post. Era possível fazer uma lista de espera de temas e assuntos a serem abordados no blog. Ou então, dos dois, três ou quatro blogs, cada qual com atualizações diárias, sem perda alguma de qualidade. Mas, a partir do momento em que é preciso acordar cedinho pra não perder o horário do trabalho,voltando tarde da noite pra casa, com um ânimo digno de quem acabou de freqüentar um velório, o tempo livre passa a ser gasto única exclusivamente com as necessidades primitivas do ser humano, como comer, beber e dormir. O blog, enfim, passa a configurar como prioridade cada vez menos fundamental. Bem, quem sabe nas próximas férias. Ou então, depois daquela temida reestruturação da empresa…

Desilusão com a Blogosfera

Pois é, havia um tempo em que as pessoas escreviam em seus blogs única e exclusivamente pelo prazer de compartilhar idéias, sem o mínimo interesse de capitalizar uma vírgula sequer. No entanto, alguns seres impuros passaram a considerar que, sim, poderiam ganhar alguns trocadinhos através de posts pagos e publicidade entre um texto e outro. Mercenários! Assim, os mais sensíveis ficaram tão enojados com essa postura, mas tão enojados que, como protesto, desistiram de seus blogs. Pronto, não se misturariam mais com essa gentalha. Mas, cá entre nós, o que os leitores fiéis do blog teriam a ver com tudo aquilo? Bem, pessoas sensíveis, pessoas sensíveis, vai entender…

Falta de Inspiração

Tudo parecia ir tão bem. Os assuntos, eram abundantes. O estilo, cada vez mais afiado. De criatividade então, nem se fala. Parecia que o cara tinha nascido para escrever, de tão natural que era esse dom nele. No entanto, quase sem perceber, tudo vai ficando um pouco mais difícil, sem um porquê definitivo. Aquela frase que sintetiza a sacada genial passa a demorar horas para ser finalizada, até chegar num ponto em que bem, não tem ponto… final… Apenas reticências… um monte de rascunhos e idéia nenhuma na cabeça… E… assim… Bem… É… olha, amanhã eu termino isso aqui… poder ser? Ou não…

“Eu só consigo escrever no meu PC”

Assim como existem aqueles que só conseguem usar o banheiro de casa, algumas pessoas só ficam à vontade pra escrever quando diante do seu próprio PC. Questão de hábito, sabe? Veja o meu caso. Eu, desde que arranjei um emprego há um mês atrás, quase não sento diante do meu PC. Durante o dia, fico usando o computador do trabalho. À noite, vou pra casa de minha namorada, onde, mesmo com outro computador ao meu dispor, não consigo escrever coisa alguma para o blog. É isso, quase todos os dias sem o meu pc - nada tendo a ver com falta de inspiração, teste de popularidade ou desilusão com a blogosfera -, caí no lugar comum do blogueiro que perdeu o fôlego e o ritmo pra atualizar uma linha sequer. Mas, como sou teimoso, olha eu aqui, finalmente, direto do teclado estranho, chegando à conclusão de mais um post. Interessante, não?

Tuca Hernandes | Blogs, Meu Umbigo | 11:56 pm | Comente que eu te comento (8)

May 19, 2008

Eu mal senti o intervalo de 3 semanas que separou essa frase do meu último post. O tempo passou rápido por aqui. Bem, de qualquer forma, nesses próximos dias, eu espero colocar coisa nova por aqui. Nesses próximos dias? Ou, da forma como venho sentindo o tempo, seria nas próximas semanas, que, para mim, serão apenas alguns dias? Espero que não.

Enfim, eu volto.

Tuca Hernandes | Meu Umbigo | 11:51 pm | Pode comentar, eu deixo (0)

March 20, 2008

FANTÁSTICO FALAR COMIGO!!!!

Um spam que recebi hoje (removi as informações do contato, mas mantive os charmosos erros de português):

“Fantástico falar com você! Meu nome é XXXX e sou consultor de motivação em São Paulo. Em Abril estarei dando uma palestra gratuíta em todas capitais para apresentação de um curso de COMUNICAÇÃO - Aprenda a se comunicar e perca o medo de falar em público. Assista o vídeo de demostração clicando na imagem abaixo e me passe a Capital que vc mora para te mandar local , data e horário desta aprensentação gratuíta. Para ter mais motivação ainda em sua vida, entre em www.xxxxxxx.com.br ou assista minhas palestras motivacionais em www.youtube.com/xxxxxx”

Interessante. Mas, como sou o típico cara FODÃO, ou seja, bem sucedido financeiramente e emocionalmente, sabendo falar em público melhor que o Fidel Castro nos momentos mais inspirados, deixei pra lá a oferta.

Agora falando sério. Pra mim, palestra motivacional, mesmo, é algo nesse estilo aqui, tanto na forma quanto no conteúdo:


O resto, bobagens pra serem ridicularizadas num post de um blog qualquer.

Tuca Hernandes | Comunicação, Meu Umbigo | 7:41 pm | Um comentário (1)

February 27, 2008

EM BUSCA DO COMC

Sou desses caras que não conseguem ficar mais de cinco minutos diante do espelho. Não que a imagem refletida me cause enjôos, desses remediáveis apenas por cirurgias plásticas. Tenho idade suficiente pra perceber que sou o típico meia-boca, que não recebe olhares de encanto, tampouco de nojo. Quase imperceptível. Mesmo ciente de tudo isso, tenho lá a minha vaidade, confrontada sempre quando preciso dar um jeito no meu cabelo. Nesses momentos, por causa de minha impaciência pra ajeitar fios aqui e acolá, mas ao mesmo tempo não querendo ficar com um estilo neo-hippie (ou neo-mendigo), vivo considerando a possibilidade de deixá-lo raspado. Não zero, como bunda de bebê, mas naquele estilo capacho, obtido através de máquina três ou quatro.

No entanto, dada a minha magreza habitual, se assim fosse, eu seria confundido nas ruas como um desses doentes terminais que resolveram passar os últimos dias de vida fora do hospital. A meu ver, esse tipo de corte é como tatuagem: fica bem apenas nos que tem um corpo perto do ok, nem muito magro, nem muito gordo. Dessa forma, impossibilitado - segundo meus conceitos, é claro - de ter o meu penteado preferencial, só me resta encontrar um meio-termo, que não me faça caminhar desmotivado para o espelho de manhã, sem irritar muito o meu lado anti-metrossexual. E nesse processo, ter um cabeleireiro (ou barbeiro mesmo, vá lá) que me entenda é fundamental.

Até meados do ano passado eu cortava meu cabelo com um cara que já estava habituado ao que eu queria. Preço bom, perto do ridículo, com qualidade satisfatória. Antes que desse a primeira tesourada, ele perguntava, só pra se certificar:

- E aí, meu chapa? O mesmo de sempre? - sim, é claro, como não?

E lá ia ele, picotando aqui e acolá, como um jardineiro responsável pela mesma paisagem há décadas. Nada de ficar perguntando se do lado eu preferiria assim, em cima assado, essas chatices. Em questão de minutos, eu tinha o corte perfeito, ou pelo menos bem perto daquele que eu queria. Algo que, pelo menos durante um ou dois meses, me poupasse daqueles longos e torturantes minutos diante do espelho. E assim foi, durante uns três anos, até eu descobrir que o cara não trabalhava mais no salão que eu freqüentava. Sumiu. Pô…

Desde então, já passei por três profissionais diferentes, todos sumariamente desclassificados do posto de COMC (Cortador Oficial dos Meus Cabelos). Um desses era tão ruim que parecia ter aprendido o ofício numa penitenciária, tamanha bagunça que ficaram meus cabelos, mais tarde devidamente ajeitados com uma tesoura na minha casa. Cheguei a desconfiar ter sido alvo de alguma pegadinha, sei lá. Mas como ninguém me reconheceu na rua até agora, me apontando entre gargalhadas, acho que não foi o caso. De qualquer forma, a busca continua, com mais um capítulo prestes a começar, já que meu penteado tá chegando num ponto em que só o laquê salva. E laquê, definitivamente, não dá. Tenho princípios a zelar.

É, se a coisa continuar complicada, não tem jeito, terei que parar com essa mania de cortar meus cabelos por menos de R$ 10,00.

February 12, 2008

A RAVE DOS QUE NÃO FORAM


Passei da fase de ficar criticando o gosto musical alheio. Bem, pelo menos publicamente. Por mim, se a pessoa quiser curtir uma maratona de bandas que misturem funk batidão, pagode melacueca, breganejo cornualho e axé pornográfico, tudo bem. Cada um sabe o ouvido que tem. A minha bronca é quando resolvem empurrar pra dentro de meus tímpanos esses estilos, sem o meu consentimento. Sabe aquela clássica cena de um grupinho que encosta na porta do boteco, abre o capô do carro e manda ver nos decibéis daquele hit parade dos infernos? Pois é. Se por um dia eu fosse um ditador com poderes ilimitados, além de aproveitar pra acabar com todos os saquinhos de queijo ralado do mundo, eu jogaria esse tipo de gente em uma sala onde só tocasse música clássica, no último volume. Vinte e quatro horas de tortura, sem intervalos.

(Antes que você conclua qualquer coisa, eu também não curto música clássica. Mas dei esse exemplo apenas pra criar uma espécie de contraste, entendeu? Não? Deixa pra lá, tudo bem, voltemos ao texto.)

Uma bela amostra desse povo estava alguns sábados atrás na vizinhança de minha namorada. O motivo pra reunião era a comemoração de um aniversário. Até aí, tudo bem. O problema é que vieram com uma aparelhagem de som digna de, presumo eu, animar um megashow no estádio do Maracanã. As caixas de som, todas voltadas para a rua. Dessa forma, era possível sentir os vidros da casa vibrando, às três da madrugada, ora por causa do batidão da Lacraia e Cia, ora devido a um putz-putz digno de agitar o vira-vira de sucos de um dos episódios da Malhação. Vale ressaltar, mais uma vez: às três da madrugada. Aquela barulheira numa danceteria, tudo bem. Agora, na vizinhança, sem o consentimento de quem não estava na festa, não. Incomodado com a cara-de-pau alheia, recorri a um procedimento básico: liguei pra polícia. Hehe

Pra minha perplexidade, recebi como resposta uma mensagem gravada: “No momento, o sistema da polícia está sobrecarregado. Favor…”. Como assim? Se algum assaltante estiver tentando entrar na minha casa, paciência, que o sistema está sobrecarregado? No espaço de uma hora ou mais, tentei várias vezes, e sempre a mesma mensagem: “No momento, o sistema da polícia está sobrecarregado. Favor…”. Favor, favor… favor o quê, cacete? Nem quis ouvir o resto. Parecia piada exigir paciência naquela situação. Vendo os vidros das janelas vibrarem ao som do batidão, concluí que eu queria mais do que nunca ir pra um lugar onde a polícia não estivesse falida. Suíça? A Patrícia, minha namorada, concordava comigo, mal humorada também.

Umas quatro e pouco da madrugada, resolvi ligar novamente pro 190, inconformado. A mesma mensagem, novamente. Dessa vez, decidi ouvir o resto: “No momento, o sistema da polícia está sobrecarregado. Favor cooperar com o atendente com informações precisas sobre o local em que você está, de forma que possamos ajudá-lo da melhor maneira possível.” Logo em seguida, uns dois segundos após o fim da mensagem, veio o atendente em si, eficiente e solícito, exatamente da forma que eu imaginava que funcionasse na Suíça. Dez minutos depois, a rua silenciava, enfim. Não fosse a minha notória impaciência com mensagens de telefone, os hômi teriam acabado com aquela rave da Tati Quebra Barraco bem mais cedo. Toma!

Já quase amanhecendo, quando enfim eu começava a sonhar, toca o telefone. Assustado, vou atender. Era apenas uma moça da polícia querendo saber se o barulho da rua tinha parado e que, qualquer coisa, era só acioná-los novamente. Putz. Fim do sono, mais uma vez.

Na hora do almoço do dia seguinte, revoltados com os vizinhos folgados, que certamente deviam estar dormindo, eu e a Patrícia resolvemos dar o troco. Numa casa de fogos ali perto, cada um comprou a maior bomba que tinha. Calmamente, numa frieza de um agente da Al Qaeda, chegamos na frente do portão, acendemos os pavios e jogamos os morteiros naquela garagem que funcionara como danceteria improvisada na madrugada anterior. Enquanto os pavios iam diminuindo, corremos pra casa dela. O estrondo ensurdecedor arrancou aquela gargalhada gostosa de vingança da gente. Nos abraçamos, nos beijamos e concluímos que, sim, a vida pode ser bela.

Ps: Esse último parágrafo é de mentirinha, é claro. Não resisti, ora essa. O resto, é tudo verdade…

October 25, 2007

EU, O NÁUFRAGO

Eu tinha vinte e poucos anos e morava sozinho em Jaguariúna, uma cidadezinha do interior de São Paulo. Recém-saído da faculdade, sem namorada, longe dos amigos do peito, da família, pouca grana, vida social zero. Uma angústia só. Nada ali me lembrava o ar universitário com o qual eu me acostumara nos cinco anos anteriores. Depois de meses sem conversas interessantes, cheguei a cogitar a criação de um amigo imaginário, da mesma forma que o Tom Hanks fez naquele filme, “O Náufrago“. O meu Wilson seria um ovo de avestruz vazio, pintado com canetinha mesmo. A coisa estava feia. SOS.

Antes que eu pirasse de vez em minha ilha particular, consegui fazer amizade com um casal de namorados, vizinhos meus no horário comercial. Os dois, bem novinhos, davam aulas numa escola de informática que ficava ao lado de minha casa. Após dias de belas conversas, de tanto ouvir meus lamentos sobre o tédio daquela cidade, o rapaz decidiu me convidar pra festa de aniversário da irmã dele. Aceitei no ato, já imaginando a libertação que seria aquele evento. De antemão, eu decidi que iria beber feito uma esponja, chegando junto de tudo quanto era mulher desacompanhada e minimamente mais ou menos que estivesse por ali. Se bobear, nem a aniversariante eu perdoaria. Eu tinha muito tempo perdido pra recuperar. A coisa prometia.

No dia aguardado, acordei com aquela expectativa que ronda o centroavante nas horas que antecedem a final da Copa do Mundo. Fazia um belo domingo de primavera, desses sem nuvens. Ideal pra um churrasco. Bem, só poderia ser um churrasco, vide o horário marcado pro início daquela festa, duas da tarde. Pontualmente, munido de meu melhor perfume, apertei a campainha da casa do meu novo amigo. Quando ele abriu a porta, estranhei a ausência do cheiro de churrasco. Estranhei mais ainda a ausência dos amigos e, principalmente, das amigas dele. Ninguém. Tudo que vi foram os pais e umas tias ao redor da enorme TV da sala, sintonizada no Domingão do Faustão.

Em estado de choque, fui apresentado à aniversariante, que completava 5 anos naquele dia.

Me cederam um espaço no sofá, o que talvez fosse uma honra, por eu ser a única pessoa de fora ali. O clima era amistoso, em grande parte por causa das gargalhadas arrancadas pelas pegadinhas e videocassetadas - Ô loco, meu! Pelo jeito, só eu ali não dava risada de verdade. No máximo, um sorriso amarelo, pra não ficar chato. De conversas mesmo, nada. Tudo bem, ninguém ali teria nada de interessante pra falar mesmo, considerei. Ah, nada como umas cervejas pra suportar tudo aquilo. Infelizmente, estavam em falta, também. Sem churrasco, cerveja, e mulher. Considerando-se a fase que eu vivia, uma tragédia, sem dúvida alguma.

Enquanto eu comia meu sanduíche de carne louca, bebericando meu guaraná, o programa do Faustão deu uma pausa pra uma partida de futebol. Resolveram colocar no Domingo Legal, do Gugu. Ôpa, maravilha, era a hora da banheira. Até que enfim alguma emoção ali, ora essa. Que nada, aquela era uma família que preservava a moral e os bons costumes, nada daquela baixaria ali. Com a TV desligada, não restava nada a não ser cantar os parabéns. Antes, uma das tias pediu a palavra:

- Gente, toda vez que uma criança faz aniversário, é o Menino Jesus que aniversaria também! Então, vamos aplaudir os aniversarianteeeees!!!! - eu aplaudi também, é claro, como não?

Enquanto eu comia o bolo, sugeri pro meu casal de amigos que a gente fosse dar uma saída, pra aproveitar o resto daquele domingo bonito. Tomar umas cervejas, encontrar um pessoal jovem e maior de idade, essas coisas. Eu ainda tinha minhas esperanças. Eles concordaram, não sem antes voltarem novamente para o sofá, de forma a acompanharem, com o resto da família, mais uma rodada de pegadinhas e videocassetadas, agora no programa do Gugu. Fiz menção de ir embora, já visivelmente impaciente. Os dois pediram que eu esperasse um pouquinho mais, enquanto enxugavam as lágrimas das gargalhadas que todos ali compartilhavam.

Uma hora depois, estávamos no carro do rapaz, rumo ao “centro jovem da cidade”, uma avenida que ficava lotada aos domingos, perto de minha casa. Encostaram o carro em um posto, desses com loja de conveniência. Imediatamente, fui comprar umas cervejas - finalmente! Dos amigos do casal que estavam lá - todos casais também - ninguém quis uma latinha sequer. Assim, no fim da tarde, lá estava eu, bebericando minha cerveja, no meio daquele pessoal de papo tão empolgante quanto discurso de telemarketing as sete da manhã. Sobravam frases econômicas, entremeadas por “é…”, “só…”, “pois é…”. Nem deu meia hora ali, o meu amigo disse que precisaria ir embora, com a namorada a tiracolo.

- Ué, já??? - perguntei, surpreso
- É que a gente precisa se preparar pra ir na missa, mais tarde… - o rapaz respondeu.

Me despedi deles como um náufrago que volta pra ilha, desses derrotados por terem confundindo a nuvem do horizonte com um navio de resgate. De volta à estaca zero, definitivamente. Entrei na loja de conveniência, comprei mais umas dez cervejas, e fui pra casa. Umas horas depois, eu bebia a última gota, da última latinha, ao som de Rolling Stones, no último volume. Dançando e cantando feito um alucinado, por toda a casa, como que exorcizando todo o silêncio careta daqueles novos tempos. É, vinte e poucos anos. Oh, yeah!

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E que tal:

  • Ver (ou rever) dois vídeos? O primeiro é o ultra-mega-tosco “Thriller da Índia“. O outro, o primeiro episódio da saga de “Chad Vader“, o irmão do Darth Vader.

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