FIAPO DE JACA

April 16, 2008

DESCONFIADO

Olha só que mulherão, olhando pra mim. Será? Não, imagina. Até parece. Minha nossa, muito linda! Ah, esquece isso, rapaz, tome aí o seu chopp sossegadinho, vai. Mas, que coisa, tenho a impressão de que ela está olhando pra cá sim. Ah, mas tem mais homens aqui na mesa, bem mais bonitos e atraentes, sem dúvida alguma. Ok, deixe eu dar uma encarada, de verdade. Putz, é pra mim mesmo. Bem, talvez ela seja míope e eu não passo de um borrão pra ela. Ou será que ela está vendo algo estranho em mim? Uma mancha no rosto, uma camisa rasgada, sei lá. Não, não. Tudo normal.

Mas que raios essa mulherzinha insiste em olhar pra mim? Ah, eu vou lá. Alguém acha que perderei uma oportunidade dessas? Nunca! Não, não, calma. Pode ser uma dessas pegadinhas. Hum… onde será então que esconderam a câmera? Eu, fazer papel de bobo na frente dos outros? Jamais. Pensando bem, pode ser uma aposta no estilo “duvido que você consiga atrair pra cá aquele rapaz ali, isso, aquele mesmo.” No fim, ela diria pra mim: “Ai, moço, me desculpe, é tudo brincadeirinha, viu?”

Mas pára de olhar pra mim, pô! Me deixe em paz, vai. Vá viver a sua vida, mocinha. Cai fora! Pô, justo eu? Vire esse pescoço - aiai, e que pescocinho… - pra lá! Aí, tá vendo? Agora os meus amigos já perceberam: “Vai lá! Vai lá!!!”. Tudo bem. Tá, eu vou, mas não por vontade própria. Que fique bem claro. Ok, lá vou eu. Aposto que esse papo não vai durar mais do que duas ou três frases. No fim, restará aquele constrangimento no ar: “Que mal-entendido, hein?” “Pois é…”. Também pudera, bonita desse jeito, deve ser uma porta pra falar.

Olha só, ela não é tão burra assim… Bem, nem um pouco burra… Até que ela diz umas coisas interessantes… Nossa! Mas de onde essa mulher foi tirar essas idéias? Que mente privilegiada! Merece um prêmio Nobel. Acho que estou gostando dela… Estou ficando apaixonado! Seria um milagre se ela retribuísse da maneira que eu gostaria. Impossível. Ei, o que é isso? Puxa, como beija bem. Uma pena que será apenas por hoje, pois o número de telefone que ela me deu deve estar errado. Imagina. O papelzinho que dei pra ela, com o meu número de telefone? Até parece que ela se lembrará dele. Numa hora dessas, já deve estar no lixo. Alô? Sim, sim, dormi bem. E você? Melhor do que nunca? Que bom…

Parece que estamos namorando firme. Mas, pelo jeito, até o momento em que ela se tocar quem eu sou, não lá essas coisas. Assim, num piscar de olhos, cairá fora, suspirando aliviada. Maluquinha, ela me acompanha em tudo, na maior alegria. Que coisa, esse namoro está durando um bocado. Estranho… Não acredito: aceitou o meu pedido de casamento! Milagre se ela aparecer na igreja. Uau, que noiva linda ela ficou! Seu padre, deixa eu ouvir direito, ela disse… sim??? Ufa. Mas os anos passarão, sei como são as coisas. Sob o mesmo teto comigo, todos os dias, ela não vai agüentar. Cedo ou tarde, ela vai me trair. Certeza. Ah, um mulherão desses não resiste a uma bela cantada. Espere aí, seu detetive, você veio me dizer, novamente, que ela é completamente fiel a mim? Pôxa, então, provavelmente, os dois filhos meus são realmente… meus. Olha aí, tudo confirmado com teste de DNA. E ela ainda não se cansou de mim, a mesma alegria de sempre, o mesmo mulherão, apesar de nossas quatro crianças.

Somos uma família feliz. Ah, não quero nem ver quando chegarem na adolescência. Vão dar um trabalho danado. Que coisa, eles prestam atenção em tudo que falo. Jamais tive que levantar a voz com qualquer um deles. Olha aí, todos formados nas melhores universidades. Todos já com bons empregos! Pena que, quando se casarem, vão se esquecer dos pais. Normal. Pôxa vida, como é bacana ver os netinhos todos os dias. Olha, confesso que eu não esperava por essa festa de comemoração de Bodas de Ouro do meu casamento. Idéia dos meus netos, só podia ser. Mas os avós já estão esperando pela hora da morte, asilo na certa pra gente, aiai. Na idade que estamos, resta esperar por um enfarte fulminante. Ou um câncer bem lento e doloroso. O meu bisneto riu hoje de mim, quando falei que o câncer e o enfarte se esqueceram da gente, velhinhos e lúcidos.

E cada conversa que ainda tenho com ela… E sinto um silêncio tão grande aqui… como a voz dela me faz falta… Ei, o que estão esperando pra me colocarem num asilo? Calma, calma. Façamos o seguinte, por sorteio, a gente decide com quem eu vou morar. Eu sei, eu sei, mas eu não posso estar na casa de todos ao mesmo tempo, né? Pelo jeito, a morte se esqueceu de mim. Olha ela aí, de mansinho, engraçado eu não sentir dor alguma… Inferno, lá vou eu. E não é que é bonito o outro lado? Será que estou no paraíso mesmo? Mas não é possível, eu ainda encontro o diacho daquela câmera escondida!

November 26, 2007

RETICÊNCIAS

- Bem, eu…
- É, eu sei…
- Então, por causa disso, acredito que…
- Ah, me desculpe, mas não seria melhor você…?
- Pois é, acontece que, de alguma forma, eu fui…
- Ok, ok…
- Bem, você entende, né? É tudo questão de…
- Sim, perfeitamente. Ainda mais quando…
- Ih, lá vem você querendo desenterrar isso, mais uma vez…
- Ih, lá vem você querendo fugir disso, mais uma vez…
- Não é isso, eu apenas acho que, de alguma maneira, a gente poderia…
- Tá, tá… não precisa ficar me lembrando do óbvio, como se viver fosse apenas uma questão de…
- Não é isso, entenda, de uma vez por todas, que, se você…
- Sim, eu sei… Eu admito… Mas, saiba que, muitas vezes, a gente precisa de…
- Então, e é justamente isso que não entendo, pois…
- Tá vendo? Mais uma vez, você está fugindo do tema de nossa conversa, que é…
- Discordo… Era justamente sobre isso que eu queria falar, eu ia chegar nesse ponto, ainda mais agora, que…
- Ah, não precisa ficar dando voltas, né? Basta ir direto ao ponto, pois tudo isso, de alguma maneira…
- Concordo em parte… Afinal, eu e você…
- Bem, nem sempre… nem sempre… Todos nós sabemos que, cedo ou tarde, o mundo, do jeito que está, iria…
- Isso é óbvio, né? Mas, por um outro lado…
- Sim, sim… não nego isso… Eu sempre… sempre…
- Ah, é? Não parece, mesmo… Estou surpreso, pois, até hoje, eu achava que…
- Engano seu. Lembra… daquela vez, quando a gente…
- Nossa, eu achava que tinha ficado claro aquele nosso acordo de nunca mais voltarmos a discutir isso…
- Então, eu ainda…
- Ainda? Como assim? Minha nossa, agora, não me resta mais nada a não ser…
- Ah, não exagere, vai! Nunca foi novidade pra ninguém o fato de que eu…
- Tudo bem, eu preciso aprender mesmo a…
- Aiai… como sempre, a mesma maneira de…
- Ué, eu tenho outra alternativa, a não ser ficar aqui e…?
- Tem, ué… Basta você…
- Ah, é fácil falar… Ainda mais se considerarmos o contexto do… do… ah, você sabe!
- Nem precisa me dizer…
- Pois é, essa história a gente já sabe de cor…
- O que, por sua vez, me faz lembrar de quando a gente, um dia…
- Sério? Engraçado, eu pensei a mesma coisa… Que coincidência, não? Essa sintonia entre a gente que…
- Concordo plenamente… saiba que, apesar dos pesares, eu…
- Ah, eu também… Demais…
- Por todo o sempre, né? Mesmo se…
- Sim, principalmente isso… Mesmo se…
- Etc e tal…?
- Sim, etc e tal…

October 30, 2007

PSICOLOGIA INFANTIL

Coisas da vida. Aquela pergunta seria inevitável, eles já sabiam. Com seis anos de idade recém-completados, diante de tanta informação pela TV, o filho deles iria querer entender o significado daquilo. Aliás, naqueles novos tempos, parecia o assunto dominante. Uma baixaria só, em tudo quanto era mídia. Na hora que o menino perguntou, o pai fez menção de mudar de assunto, sair pela tangente. Considerou que o coitadinho era muito novo ainda pra assimilar certas realidades. Ela, a mãe, achou melhor explicar, mas de maneira bem didática, fantasiando um pouco. Cedo ou tarde, o menino saberia de tudo aquilo, concluiu. Sendo assim, era preferível que fosse através deles, ao invés de deixar que a rua o educasse naquelas questões:

- Então, papai, mamãe… o que é propina???
- Veja bem, amor… - a mãe começou, grave, limpando a garganta - propina é… é… Ai, ai… como é que vou explicar?
- Fala a estorinha da cegonha… - interveio o pai.
- Ah, sim. Isso. Seguinte, propina é algo que a cegonha faz, todos os dias, em tudo quanto é local onde existe gente grande.
- Como assim?
- Toda vez que um adulto precisa resolver algo muuuito difícil e que precisa de um moooonte de coisa chata pra isso, a gente chama a cegonhinha láááá da Terra da Fantasia para que ela possa ajudar a resolver isso mais rápido.
- Que legal!
- Legal, né? Então, essa cegonhinha linda traz no bico uma sacola com um monte de dinheiro encantado, que ninguém pode saber de onde veio. Esse dinheiro vai parar no bolso do adulto responsável pela coisa chata que não se resolve. Dessa forma, o encanto é quebrado, fazendo com que as coisas passem a funcionar mais rápido.
- Mas, mamãe… Por que ninguém pode saber de onde veio o dinheiro encantado?
- Ah, amor… se isso acontecer, vão acabar descobrindo onde fica a casa da cegonha, lá na Suíça, digo, Terra da Fantasia. E ela não gosta disso, sabe? Ela tem vergonha que alguém venha a conhecer a casa dela, que anda sempre bagunçada. Se isso acontecer, ela deixa de voar, entende?
- Que coisa… Eu pensei aqui que fosse por causa do perigo dela ser convocada pra uma CPI.

Pai e mãe se entreolham, espantados. A rua chegara primeiro ali. E agora? O clima estava ficando pesado, constrangedor.

- Filho… - o pai veio perguntar, preocupadíssimo - você sabe o que é uma CPI?
- Não…
- Olha aí - ele se virou pra mulher, indignado - essa criançada aprende na rua a falar certas baixarias e nem sabe o significado disso tudo! Em que mundo estamos, meu Deus. Uma criança! Uma criança!
- Amor - ela interrompeu - não seria melhor a gente explicar pra ele o que é uma CPI?
- Pois é, né? É o jeito… E agora, como vou fazer isso? Olha aí o olhar de curioso dele! Aiai…
- Conta a estória da abelhinha, amor.
- Ah, sim. Isso. Seguinte, filhão… era uma vez, lááá em Brasília, uma abelhinha…

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E que tal:

Tuca Hernandes | Política, Família | 8:27 pm | Comente que eu te comento (17)

October 25, 2007

EU, O NÁUFRAGO

Eu tinha vinte e poucos anos e morava sozinho em Jaguariúna, uma cidadezinha do interior de São Paulo. Recém-saído da faculdade, sem namorada, longe dos amigos do peito, da família, pouca grana, vida social zero. Uma angústia só. Nada ali me lembrava o ar universitário com o qual eu me acostumara nos cinco anos anteriores. Depois de meses sem conversas interessantes, cheguei a cogitar a criação de um amigo imaginário, da mesma forma que o Tom Hanks fez naquele filme, “O Náufrago“. O meu Wilson seria um ovo de avestruz vazio, pintado com canetinha mesmo. A coisa estava feia. SOS.

Antes que eu pirasse de vez em minha ilha particular, consegui fazer amizade com um casal de namorados, vizinhos meus no horário comercial. Os dois, bem novinhos, davam aulas numa escola de informática que ficava ao lado de minha casa. Após dias de belas conversas, de tanto ouvir meus lamentos sobre o tédio daquela cidade, o rapaz decidiu me convidar pra festa de aniversário da irmã dele. Aceitei no ato, já imaginando a libertação que seria aquele evento. De antemão, eu decidi que iria beber feito uma esponja, chegando junto de tudo quanto era mulher desacompanhada e minimamente mais ou menos que estivesse por ali. Se bobear, nem a aniversariante eu perdoaria. Eu tinha muito tempo perdido pra recuperar. A coisa prometia.

No dia aguardado, acordei com aquela expectativa que ronda o centroavante nas horas que antecedem a final da Copa do Mundo. Fazia um belo domingo de primavera, desses sem nuvens. Ideal pra um churrasco. Bem, só poderia ser um churrasco, vide o horário marcado pro início daquela festa, duas da tarde. Pontualmente, munido de meu melhor perfume, apertei a campainha da casa do meu novo amigo. Quando ele abriu a porta, estranhei a ausência do cheiro de churrasco. Estranhei mais ainda a ausência dos amigos e, principalmente, das amigas dele. Ninguém. Tudo que vi foram os pais e umas tias ao redor da enorme TV da sala, sintonizada no Domingão do Faustão.

Em estado de choque, fui apresentado à aniversariante, que completava 5 anos naquele dia.

Me cederam um espaço no sofá, o que talvez fosse uma honra, por eu ser a única pessoa de fora ali. O clima era amistoso, em grande parte por causa das gargalhadas arrancadas pelas pegadinhas e videocassetadas - Ô loco, meu! Pelo jeito, só eu ali não dava risada de verdade. No máximo, um sorriso amarelo, pra não ficar chato. De conversas mesmo, nada. Tudo bem, ninguém ali teria nada de interessante pra falar mesmo, considerei. Ah, nada como umas cervejas pra suportar tudo aquilo. Infelizmente, estavam em falta, também. Sem churrasco, cerveja, e mulher. Considerando-se a fase que eu vivia, uma tragédia, sem dúvida alguma.

Enquanto eu comia meu sanduíche de carne louca, bebericando meu guaraná, o programa do Faustão deu uma pausa pra uma partida de futebol. Resolveram colocar no Domingo Legal, do Gugu. Ôpa, maravilha, era a hora da banheira. Até que enfim alguma emoção ali, ora essa. Que nada, aquela era uma família que preservava a moral e os bons costumes, nada daquela baixaria ali. Com a TV desligada, não restava nada a não ser cantar os parabéns. Antes, uma das tias pediu a palavra:

- Gente, toda vez que uma criança faz aniversário, é o Menino Jesus que aniversaria também! Então, vamos aplaudir os aniversarianteeeees!!!! - eu aplaudi também, é claro, como não?

Enquanto eu comia o bolo, sugeri pro meu casal de amigos que a gente fosse dar uma saída, pra aproveitar o resto daquele domingo bonito. Tomar umas cervejas, encontrar um pessoal jovem e maior de idade, essas coisas. Eu ainda tinha minhas esperanças. Eles concordaram, não sem antes voltarem novamente para o sofá, de forma a acompanharem, com o resto da família, mais uma rodada de pegadinhas e videocassetadas, agora no programa do Gugu. Fiz menção de ir embora, já visivelmente impaciente. Os dois pediram que eu esperasse um pouquinho mais, enquanto enxugavam as lágrimas das gargalhadas que todos ali compartilhavam.

Uma hora depois, estávamos no carro do rapaz, rumo ao “centro jovem da cidade”, uma avenida que ficava lotada aos domingos, perto de minha casa. Encostaram o carro em um posto, desses com loja de conveniência. Imediatamente, fui comprar umas cervejas - finalmente! Dos amigos do casal que estavam lá - todos casais também - ninguém quis uma latinha sequer. Assim, no fim da tarde, lá estava eu, bebericando minha cerveja, no meio daquele pessoal de papo tão empolgante quanto discurso de telemarketing as sete da manhã. Sobravam frases econômicas, entremeadas por “é…”, “só…”, “pois é…”. Nem deu meia hora ali, o meu amigo disse que precisaria ir embora, com a namorada a tiracolo.

- Ué, já??? - perguntei, surpreso
- É que a gente precisa se preparar pra ir na missa, mais tarde… - o rapaz respondeu.

Me despedi deles como um náufrago que volta pra ilha, desses derrotados por terem confundindo a nuvem do horizonte com um navio de resgate. De volta à estaca zero, definitivamente. Entrei na loja de conveniência, comprei mais umas dez cervejas, e fui pra casa. Umas horas depois, eu bebia a última gota, da última latinha, ao som de Rolling Stones, no último volume. Dançando e cantando feito um alucinado, por toda a casa, como que exorcizando todo o silêncio careta daqueles novos tempos. É, vinte e poucos anos. Oh, yeah!

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E que tal:

  • Ver (ou rever) dois vídeos? O primeiro é o ultra-mega-tosco “Thriller da Índia“. O outro, o primeiro episódio da saga de “Chad Vader“, o irmão do Darth Vader.

June 26, 2007

PELO MUNDO, ORA ESSA

Uma cena que vi na rua. Apenas mais uns cinco passos adiante e ela encontraria um cesto de lixo. No entanto, num gesto de simples desprezo, preferiu jogar a lata vazia do refrigerante no meio da calçada mesmo, antes de entrar naquele belo carro com a filhinha, que devia ter ao redor de sete anos. Triste. Se considerarmos que os pais servem de modelo para os seus filhos, é bem provável que essa menininha já ache normal jogar lixo no meio da rua. Pra mim, o episódio da lata evidencia aquela pontinha da linha que, se puxada, traz lixos ainda maiores. Daquela mulher, eu só vi a lata rolando da calçada pro asfalto. Ainda assim, o suficiente pra revelar o quão frágeis devem ser os valores que ela passa pra filha, no dia-a-dia. Assim, daqui uns anos, a menina se tornará mulher, terá filhos, e… jogará latas de refrigerante pela calçada, na frente de sua prole. E o bastão continuará seguindo. A eternidade dos imbecis agradece.

Paralelo a isso, vejo pessoas bacanas, cientes da importância de não sacanear com o próximo - ou distante, o que for - absolutamente decididas a não terem um filho. Adoção então? Igualmente fora de questão. Servir de tutor ou padrinho pra alguma criança carente? Também não. Nada. Muitos desses alegam que o mundo já tem gente demais, que os recursos naturais estão se esgotando, blábláblá. Opinam com a nobre justificativa de estarem pensando no mundo de amanhã. O argumento Greenpeace. Considero mais convincente alguém declarar que simplesmente não gosta de crianças. Que, por nada desse mundo, abrirá mão de sua liberdade, jamais em risco por causa da fralda que encheu ou a febre que não cedeu. Que, por alguma razão genética, não acharia uma boa idéia botar um ser cheio de falhas nesse mundo árido. Tudo bem. Agora, alegar um desapego total enquanto que imbecis como a mulher do parágrafo acima continuam a se reproduzir, passando seus valores toscos pra geração seguinte? Acho injusto isso. Injusto com o mesmo mundo que tanto dizem defender.

O que fazer? Chamar o Batman? Não, o jeito é combater a patrulha medonha, sendo responsável - na medida do financeiramente possível - por pessoas mais comprometidas em fazer desse nosso planetinha besta um lugar mais agradável, em todos os sentidos. É bem mais fácil gerar uma pessoa bacana do que tentar consertar um babaca. E, francamente, já basta os Bushs da vida e seus seguidores pra percebemos o quão nociva pode ser a escassez de pessoas de cuca legal em nosso mundo. Que, enfim, daqui uns anos, pessoas como o meu filho - que nem foi concebido ainda - possam chamar a atenção da filha daquela mulher que jogou a lata na calçada, ao apontar pro lixo a apenas cinco passos dela.

Ah, sim, eu gosto de crianças.

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E que tal:

June 11, 2007

REVELAÇÕES

Como sempre, eram o pai, a mãe, e o filho na mesa de jantar. E era agora ou nunca. Respirou fundo e mandou ver:

- Pai… mãe… tenho algo a dizer… – a voz trêmula já denunciava um assunto grave.
- Fala, lindo… - responde a mãe, seguida pelo olhar de concordância do pai.
- É sobre ontem… Eu não fui a um churrasco, como eu tinha dito. Eu fui na… Parada Gay.
- Tá, e daí? - reage o pai, tranqüilamente, enquanto corta o bife.
- Como e daí? O que eu quero dizer é que eu sou… sou…
- … gay? - perguntam os dois, ao mesmo tempo, sem sobressaltos.
- Isso, papai e mamãe, sou gay! GAY!
- Ah, tá… Filhão, me passa o sal? - pede o pai. A mãe continua a mastigar o arroz e feijão, enquanto assiste a novela.
- Ei, vocês não me ouviram? Eu acabo de confessar a minha sexualidade e vocês reagem dessa forma, como se eu tivesse dito uma coisa qualquer?
- Mas, Júnior - interrompe a mãe - como você queria que a gente reagisse?
- Ah, sei lá. Eu esperava que, no mínimo, a senhora desmaiasse e o papai me expulsasse de casa. Ou vice-versa. Me preparei durante meses pra esse momento. Eu até fiz as minhas malas. E tá vendo aquela ambulância ali fora? – ele aponta pra janela – Eu pedi pro pessoal ficar de prontidão , no caso de um de vocês ter um troço. Ou os dois, sei lá.
- Credo, Júnior. Que idéia você tem da gente, hein? Francamente…
- Já sei, vocês já sabiam de tudo! É isso!
- Sabíamos nada. - estranha o pai - Até ontem, eu e sua mãe estávamos conversando sobre a nossa suspeita de você estar namorando a vizinha lá do fim da rua…
- A Regina é minha amiga, papai, nada mais. Mas, posso saber a razão de tanta naturalidade? Tanta compreensão?
- Filhote, - começa a falar a mãe, segurando a mão trêmula dele - os tempos mudaram. A gente tem consciência de que, hoje em dia, o que é importa é ser feliz, independente da opção sexual do indivíduo.
- Concordo plenamente. - sorri o pai, afetuosamente.
- Mas, saiba que vocês jamais terão netos. Sou o filho único de vocês!
- Júnior, esse mundo já tem gente demais. - avisa o pai, com um ar professoral - A sua opção, além de dizer respeito somente a você, é ecologicamente correta. De quê adianta termos uma pessoa a mais entre nós se os recursos naturais não acompanham esse crescimento? Isso sem falar na questão da violência, escassez de empregos, etc… Em prol do planeta, eu e sua mãe dispensamos um neto.
- Pôxa… Então eu posso trazer pra jantar com a gente o Miro, meu namorado?
- O Miro, filho do nosso mecânico, o Tonhão?
- Sim…
- Há quanto tempo vocês namoram? – pergunta o pai, curiosíssimo.
- Uns dois anos já…
- Mas olha só como vocês dois são danadinhos, hein? – ri o pai, dando um leve tabefe no braço do filho.- Veja só, nêga, os dois pombinhos, namorando escondidos da gente durante todo esse tempo! E a gente, sem desconfiar de nada! Da-na-di-nhos! – completa o pai amistosamente, rindo ainda mais, antes de pegar mais um pedaço de bife.
- Pois é, papai… A gente tem tudo a ver. Tudo! Temos o mesmo gosto pra comida, música, cinema, teatro, dança, artesanato, política… Na última eleição, pra se ter uma idéia, votamos no mesmo candidato, sem que tivéssemos combinado coisa alguma. No dia seguinte é que fomos descobrir que ajudamos a eleger o Maluf! Uma coisa cósmica!
- COMO? – reage o pai, largando os talheres.
- É, hoje em dia, a gente até faz parte da ala gay da Juventude Malufista! Arrasamos lá!
- Peraí, Júnior, você tá brincando com a gente, né? MALUF? Você tá de sacanagem com a gente. Diz que é mentira, DIZ!!!– Se desespera o pai. A mãe, já prevendo o pior, sai correndo da mesa direto pra cozinha, onde estava o remédio anti-hipertensivo do marido.
- Ué, papai? O Maluf fez o metrô de São Paulo, o Minhocão, o Projeto Cingapura, o Leve-Leite, a Avenida Águas Espraiadas, a Rodovia Ayrton Senna, a…
- CALA A BOCA, JÚNIOR!!! CALE A BOCA, MOLEQUE!!!! – levanta o pai da mesa, berrando com os punhos cerrados em direção ao filho.
- Olha, papai… ele rouba, mas faz, tá?
- QUE MALUF O QUÊ, SEU… SEU… REACIONÁRIO! ALIENADO! SUMA DESSA CASA! AGORA!

A mãe volta da cozinha, com os comprimidos na mão, praticamente despejando-os na boca do companheiro, que já ia perdendo os sentidos. Ela não se conforma também:

- Olha aí! Tá feliz agora? Olha só o que você fez com o seu pai! Ele é cardíaco, lembra? Cinco pontes de safena! CINCO!
- Mas, mamãe…
- QUIETO! Onde já se viu, ajudar a eleger aquele filhote da ditadura? Francamente, Júnior. Francamente!!!

Pra sorte do pai, a ambulância continuava ali, pronta pra levá-lo pra colocação da sexta ponte de safena. No dia seguinte, enquanto carregava a última mala, Júnior ainda tentou argumentar com a mãe, sem sucesso, ao dizer que caras como ele terão mais respeito da sociedade no dia em que as novelas e os filmes começarem a retratar os malufistas como pessoas normais. Sem estereótipos.

Gente como a gente, sabe?

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E que tal:

Tuca Hernandes | Política, Família | 12:30 am | Comente que eu te comento (5)

May 31, 2007

A FAMÍLIA VAI BEM, OBRIGADO

O relacionamento que tenho com os vizinhos do meu prédio é tipicamente paulistano. Ou seja, perto do nulo. Por aqui, os contatos restringem-se as conversas de elevador. Mas isso não me impede de saber que a Dona Fulana é casada com o Seu Beltrano, tendo como filhos a Beltraninha e o Fulaninho. Pelo menos fica essa noção de saber quem é parente de quem, no mínimo. Normal em cinco anos de convivência. Considerando-se isso, a maioria do pessoal do meu prédio sabe, por exemplo, que eu sou filho dos meus pais. Já é uma coisa. Foi mais ou menos isso que pensei quando, no elevador, encontrei aquela vizinha bem simpática, mãe de duas adolescentes. O cumprimento dela tem um tom de quem vai te chamar pra tomar um chá, de tão amistoso que é. E, dessa vez, não foi diferente:

- Oi!!! Tudo bem? – o mesmo sorrisão de sempre.
- Tudo. E com você? – respondi, sem dar bola pra originalidade alguma, como sempre.
- Ah, tá tudo ótimo! – nesse momento, entrou no elevador mais duas pessoas. Um grandão, filho de um Fulano de bigodão branco, e uma mulher, casada com um gordinho. Mais cumprimentos, num festival de “oi, tudo bem?”. A mulher simpática volta a falar comigo:
- E o seu pai? A sua mãe? Tudo bem com eles??? – Olha aí, não disse? Essa aí sabe que sou filho dos meus pais.
- Tudo ótimo com eles.

De súbito, ela se virou pro grandão, comentando com aquele mesmo sorriso de atendente do Mc Donald’s:

- A mãe desse aí faltou na aula de ioga ontem, acredita? Preferiu fazer sopinha pra filha a ter a nossa companhia… Danada, viu? Aiai, essas mães corujas… Vou te contar, Nandinho – Nandinho? O cara tinha quase dois metros – Mas tudo bem, dessa vez passa, só porque a filhinha querida tá grávida, quase nove meses já. Aliás, a Vanessa tá liiiinda com aquele barrigão! – e, novamente, ela se dirige a mim, com o elevador já quase no térreo – E a Vanessa? Tá tudo bem ela?
- Ah, tudo ótimo com ela! - sim, como não poderia estar?
- Manda um beijão pra ela… E ó, fala pra sua irmã não roubar mais a sua mãe da gente, hein? Tô brincando querido… - oh, como se eu tivesse levado a sério!
- Hehehe… Pode deixar, o beijo será dado!!! Tchau!
- Tchau!!!

Assim, tomei o meu rumo, incomodado por uma pergunta que não saía da minha cabeça. Afinal, quem seria essa tal de Vanessa??? Será que, durante todo esse tempo, aquela mulher pensou que eu fosse irmão dessa moça, filho de outros pais? É capaz. Não quis desmenti-la na frente dos outros. Sabe como é, a coitada ficaria bem envergonhada ao ver pública a sua gafe. Mas, ao mesmo tempo, não terei coragem pra dizer, num próximo encontro, que ela fez papel de boba pra mim. Que eu fingi ser irmão da tal de Vanessa. Que o beijo não foi dado, essas coisas. Não tem jeito, terei que sustentar a farsa daqui por diante.

No mais, estou animadíssimo pra contar pra ela, nos próximos dias, sobre como a Vanessa se comportou durante o parto. Uma guerreira!

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E que tal:

 

April 3, 2007

O DESCABELADOR MALUCO

Meu sobrinho mais velho, de 6 anos, está naquela fase onde tudo que é violento o fascina. E, pra minha perplexidade, resolveu de uns dias para cá me eleger como saco de pancadas. Ao me ver, estufa o peito, empunha uma espada laser imaginária, e parte cheio de vontade para cima do inimigo, no caso aqui, eu. Dar uns petelecos para afastá-lo de pouco adianta. Muito pelo contrário, isso só atiça ainda mais os seus superpoderes de herói-de-desenho-animado-japonês aliado ao que tem aprendido nas aulas de judô. Fazer advertência verbal, igualmente inútil. No papel de inimigo, não mereço misericórdia.

Já quase conformado com meu destino de vilão incompreendido, descobri hoje, no meio de mais um embate, o ponto fraco dele: o penteado. Bastava eu despenteá-lo que a criança voltava a tomar o lugar do herói saionara, inconformado em estar descabelado, indo reclamar ao chorar diretamente com a mãe, Grande Imperadora Mor dele, e por coincidência, minha irmã também. Fim do capítulo de hoje: derrotado, o pequeno guerreiro saiu de minha casa descabelado, chorando aos soluços e jurando vingança ao berrar pra mim, feito um samurai que teve a família inteira dizimada:

- Você vai ver!!! Vou crescer, ficar forte, e despentear o seu cabelo! Vou despentear sim!!! Todos os dias!!! TODOS OS DIAS!!!

Dizem que as pessoas têm grande parte da personalidade formada na infância. E se meu sobrinho ficar traumatizado com minha identidade de Descabelador Maluco, assim como o Batman ficou com o Coringa na infância? Será que realmente ele se vingará quando ficar adulto? Caso positivo, até penso como será minha vida daqui a alguns anos. Imagino a seguinte cena, eu, mal humorado, chegando em casa, minha esposa abrindo a porta:

- Oi… Boa noite…
- Ah não!!! De novo, meu bem??? Olha o seu cabelo… todo desarrumado!!!
- E adivinha quem foi?
- O teu sobrinho?
- O próprio! Quem mais poderia ser? Não agüento mais!
- Isso tem que parar! Você tem que aprender a se defender!
- Defender? Como? Ele tem quase 2 metros de altura, é campeão de judô. Impossível…
- Tenta um diálogo com ele, meu bem!
- Não dá! Sou culpado por um trauma de infância dele, sabia? Depois de um dia que o descabelei, ele não parava de jurar vingança. Daí em diante, começou a comer o dobro, cresceu rápido, se dedicou ao judô… Eu mereço! Eu mereço!
- Fica assim não… Olha, pegue esse pente aqui…

Pensando bem, tenho uma esperança. Talvez eu fique naturalmente careca até lá. Torçam por mim.

(Texto escrito em 03/02/2005)

Tuca Hernandes | Família | 12:00 pm | Comente que eu te comento (2)

October 3, 2006

A VIDA NÃO PRESTA


Duas amigas, 18 anos cada uma:

- Nossa, Pri, que cara inchada é essa?
- Ai amiga… fiquei chorando o dia inteiro. A vida tá difícil pra mim, viu? Muito.
- Mas o que aconteceu? Não encontrou aquela bolsa da Louis Vuitton que você tanto queria?
- Pior, Aninha. Pior! Foi o meu pai, de novo! Aquele imbecil! Eu odeio esse infeliz com todas as minhas forças!
- O que ele fez dessa vez?
- A minha viagem pra Paris, marcada pro mês que vem, lembra? Então, ao invés das cinco semanas de estadia, como foi prometido de início, ele me disse ontem que só vai me deixar ficar por lá durante quatro semanas!!! Quatro semanas!!! Pode uma coisa dessas? Ai, que ódio!!!
- Meu, na boa, mas esse seu pai é sem noção mesmo, hein? Que crápula!
- E tem mais, ficarei num hotel quatro estrelas, ao invés daquele cinco estrelas que me hospedo todo ano…
- Nossa, até parece coisa de numerologia… Vai gostar de quatro assim lá na periferia! Tô passada!
- Mas isso foi vingança dele.
- O que aconteceu?
- Você acredita que semana passada ele me veio com um papinho de que eu teria que começar a trabalhar em uma das empresas dele? Meu, tipo assim, ele tá pensando que sou o quê? Eu já faço três horas de faculdade por dia, de segunda a sexta, o que já me dá o maior estresse! Ah, me poupe, né? Nem quis conversa. Mandei ele tomar naquele lugar!
- Áfe… Eu teria feito o mesmo, amiga! Então, só por causa disso ele resolveu sacanear sua estadia em Paris?
- Só pode ser, né? Ai amiga, eu venho sofrendo tanto, mas tanto com esse meu pai que você nem imagina. Nem comprinhas básicas na Daslu têm levantado o meu astral. Tô muuuuito deprê…
- Eu te entendo perfeitamente, Pri. As coisas lá em casa não andam nada boas pra mim também.
- O que aconteceu?
- Ai, não sei se digo… Tenho vergonha de contar… é algo muito grave. Mas, grave mesmo.
- Fala, Aninha! Pior do que o meu drama não pode ser.
- Ai, não sei… Mas, tudo bem, vou falar… Lembra daquele helicóptero que meu pai compraria pra mim, com piloto 24 horas a minha disposição?
- Sim, lembro, claro. Igualzinho ao que eu tenho…
- Então, ele não vai mais comprar…
- O quê??? Aninha, que absurdo!!! Tadinha de você! Mas por quê isso? Por quê???
- Aquele escroto que se diz meu pai alegou que é muito cedo ainda pra eu ter meu próprio helicóptero… Só ano que vem… Pão duro do caralho, viu? Corno!
- Credo! Quer dizer que você continuará dependendo do helicóptero do seu pai pra chegar na praia particular de vocês, lá no litoral norte?
- Pois é… Humilhante isso, não? Pior que isso, só passeio de iate em dia nublado, com champanhe nacional.
- Meu, o que a gente fez pra merecer isso? Deve ser karma, não é possível. Com uns pais desses a gente não precisa de inimigos. Não mesmo.
- Falando em karma, se houver reencarnação mesmo, espero ter mais sorte na próxima vida. Pois nessa, vou te contar, viu? Fui premiada numa espécie de loteria macabra…
- Eu também. Chega de sofrimento! Nessa vida, eu devo estar pagando pelos pecados de umas quinhentas encarnações! Não é possível! Meu… não me conformo, só quatro semanas em Paris, num hotelzinho quatro estrelas?? Ninguém merece, ninguém merece…
- Calma amiga, não chora… não chora… seja forte, seja forte!!! Peraí, deixa eu chamar o meu mordomo… Ô James, traz uma água com açúcar pra minha amiga aqui, rápido! Mas água Perrier! Perrier!!!

Tuca Hernandes | Família | 6:19 pm | Comente que eu te comento (11)