DESCONFIADO
Olha só que mulherão, olhando pra mim. Será? Não, imagina. Até parece. Minha nossa, muito linda! Ah, esquece isso, rapaz, tome aí o seu chopp sossegadinho, vai. Mas, que coisa, tenho a impressão de que ela está olhando pra cá sim. Ah, mas tem mais homens aqui na mesa, bem mais bonitos e atraentes, sem dúvida alguma. Ok, deixe eu dar uma encarada, de verdade. Putz, é pra mim mesmo. Bem, talvez ela seja míope e eu não passo de um borrão pra ela. Ou será que ela está vendo algo estranho em mim? Uma mancha no rosto, uma camisa rasgada, sei lá. Não, não. Tudo normal.
Mas que raios essa mulherzinha insiste em olhar pra mim? Ah, eu vou lá. Alguém acha que perderei uma oportunidade dessas? Nunca! Não, não, calma. Pode ser uma dessas pegadinhas. Hum… onde será então que esconderam a câmera? Eu, fazer papel de bobo na frente dos outros? Jamais. Pensando bem, pode ser uma aposta no estilo “duvido que você consiga atrair pra cá aquele rapaz ali, isso, aquele mesmo.” No fim, ela diria pra mim: “Ai, moço, me desculpe, é tudo brincadeirinha, viu?”
Mas pára de olhar pra mim, pô! Me deixe em paz, vai. Vá viver a sua vida, mocinha. Cai fora! Pô, justo eu? Vire esse pescoço - aiai, e que pescocinho… - pra lá! Aí, tá vendo? Agora os meus amigos já perceberam: “Vai lá! Vai lá!!!”. Tudo bem. Tá, eu vou, mas não por vontade própria. Que fique bem claro. Ok, lá vou eu. Aposto que esse papo não vai durar mais do que duas ou três frases. No fim, restará aquele constrangimento no ar: “Que mal-entendido, hein?” “Pois é…”. Também pudera, bonita desse jeito, deve ser uma porta pra falar.
Olha só, ela não é tão burra assim… Bem, nem um pouco burra… Até que ela diz umas coisas interessantes… Nossa! Mas de onde essa mulher foi tirar essas idéias? Que mente privilegiada! Merece um prêmio Nobel. Acho que estou gostando dela… Estou ficando apaixonado! Seria um milagre se ela retribuísse da maneira que eu gostaria. Impossível. Ei, o que é isso? Puxa, como beija bem. Uma pena que será apenas por hoje, pois o número de telefone que ela me deu deve estar errado. Imagina. O papelzinho que dei pra ela, com o meu número de telefone? Até parece que ela se lembrará dele. Numa hora dessas, já deve estar no lixo. Alô? Sim, sim, dormi bem. E você? Melhor do que nunca? Que bom…
Parece que estamos namorando firme. Mas, pelo jeito, até o momento em que ela se tocar quem eu sou, não lá essas coisas. Assim, num piscar de olhos, cairá fora, suspirando aliviada. Maluquinha, ela me acompanha em tudo, na maior alegria. Que coisa, esse namoro está durando um bocado. Estranho… Não acredito: aceitou o meu pedido de casamento! Milagre se ela aparecer na igreja. Uau, que noiva linda ela ficou! Seu padre, deixa eu ouvir direito, ela disse… sim??? Ufa. Mas os anos passarão, sei como são as coisas. Sob o mesmo teto comigo, todos os dias, ela não vai agüentar. Cedo ou tarde, ela vai me trair. Certeza. Ah, um mulherão desses não resiste a uma bela cantada. Espere aí, seu detetive, você veio me dizer, novamente, que ela é completamente fiel a mim? Pôxa, então, provavelmente, os dois filhos meus são realmente… meus. Olha aí, tudo confirmado com teste de DNA. E ela ainda não se cansou de mim, a mesma alegria de sempre, o mesmo mulherão, apesar de nossas quatro crianças.
Somos uma família feliz. Ah, não quero nem ver quando chegarem na adolescência. Vão dar um trabalho danado. Que coisa, eles prestam atenção em tudo que falo. Jamais tive que levantar a voz com qualquer um deles. Olha aí, todos formados nas melhores universidades. Todos já com bons empregos! Pena que, quando se casarem, vão se esquecer dos pais. Normal. Pôxa vida, como é bacana ver os netinhos todos os dias. Olha, confesso que eu não esperava por essa festa de comemoração de Bodas de Ouro do meu casamento. Idéia dos meus netos, só podia ser. Mas os avós já estão esperando pela hora da morte, asilo na certa pra gente, aiai. Na idade que estamos, resta esperar por um enfarte fulminante. Ou um câncer bem lento e doloroso. O meu bisneto riu hoje de mim, quando falei que o câncer e o enfarte se esqueceram da gente, velhinhos e lúcidos.
E cada conversa que ainda tenho com ela… E sinto um silêncio tão grande aqui… como a voz dela me faz falta… Ei, o que estão esperando pra me colocarem num asilo? Calma, calma. Façamos o seguinte, por sorteio, a gente decide com quem eu vou morar. Eu sei, eu sei, mas eu não posso estar na casa de todos ao mesmo tempo, né? Pelo jeito, a morte se esqueceu de mim. Olha ela aí, de mansinho, engraçado eu não sentir dor alguma… Inferno, lá vou eu. E não é que é bonito o outro lado? Será que estou no paraíso mesmo? Mas não é possível, eu ainda encontro o diacho daquela câmera escondida!
