AS DUAS CONVERSAS
Noite em São Paulo. Sentado do meu lado, na van lotada, o rapaz parecia conversar choramingando no celular. De voz triste e com expressões de lamento, ele tentava estabelecer algum nível de entendimento com aquela que parecia ser a sua namorada. Pelo jeito, do outro lado da linha, a moça continuava irredutível a qualquer argumento dele. Assim o lamento do coitado ia ampliando-se a cada palavra gasta e ouvida. Negações pra lá, deixa-dissismos pra cá, não tinha jeito, batalha perdida. Dava dó. A noite dele prometia ser difícil, pensei. Quando ele desligou o celular, naquele clima de alguém que perdeu o pênalti decisivo da Copa, cabisbaixo, imaginei que lágrimas cairiam em mim, tamanho o peso daquele “tchau”, pronunciado tremulamente.
No entanto, de imediato, antes que alguma lágrima pudesse pensar em cair, ele ligou pra um outro número:
- Alô, Pedrão? E aê, véi! Belê? Ah, muleeeeque! Sambão, hoje? Opa! A noite promete, rapá! E então, quem vai? É? Putz… A Carlinha não? Caraca! Pô, justo a mais gostosa. Ah, então o negócio é ficar de marcação nas perva mesmo! Pois é, são feia pra carai, mas sabe como é… hehehe
Quando desci no meu ponto, pude ver que ele ainda ria, ria… Felicíssimo. Como se tivesse acertado aquele último pênalti da Copa. Praticidade sentimental é isso aí.
