FIAPO DE JACA

September 2, 2008

AS DUAS CONVERSAS

Noite em São Paulo. Sentado do meu lado, na van lotada, o rapaz parecia conversar choramingando no celular. De voz triste e com expressões de lamento, ele tentava estabelecer algum nível de entendimento com aquela que parecia ser a sua namorada. Pelo jeito, do outro lado da linha, a moça continuava irredutível a qualquer argumento dele. Assim o lamento do coitado ia ampliando-se a cada palavra gasta e ouvida. Negações pra lá, deixa-dissismos pra cá, não tinha jeito, batalha perdida. Dava dó. A noite dele prometia ser difícil, pensei. Quando ele desligou o celular, naquele clima de alguém que perdeu o pênalti decisivo da Copa, cabisbaixo, imaginei que lágrimas cairiam em mim, tamanho o peso daquele “tchau”, pronunciado tremulamente.

No entanto, de imediato, antes que alguma lágrima pudesse pensar em cair, ele ligou pra um outro número:

- Alô, Pedrão? E aê, véi! Belê? Ah, muleeeeque! Sambão, hoje? Opa! A noite promete, rapá! E então, quem vai? É? Putz… A Carlinha não? Caraca! Pô, justo a mais gostosa. Ah, então o negócio é ficar de marcação nas perva mesmo! Pois é, são feia pra carai, mas sabe como é… hehehe

Quando desci no meu ponto, pude ver que ele ainda ria, ria… Felicíssimo. Como se tivesse acertado aquele último pênalti da Copa. Praticidade sentimental é isso aí.

June 18, 2008

ESTÉTICA NEO-BUSÓFILA

Quando percebi que começaria a andar de ônibus todos os dias, procurei encarar a situação de forma positiva, sob vários pontos de vista. O principal deles era que finalmente eu voltaria a entrar em contato com o povão, tirando de minhas observações inspirações para textos e mais textos. Seria o meu início tardio numa espécie de realismo? Naturalismo? Bem, nada disso aconteceu, pois vejo que continuo no tô-nem-aísmo, percebendo que minha antena fica desligada nessas viagens. Ao invés de colecionar eurekas que me inspirem parágrafos de observações sociológicas, prefiro brincar de diretor de videoclipes meio bizarros.

Como assim?

Descobri que pode ser interessantíssimo ouvir as músicas de meu MP3 player observando o pessoal no ônibus. Ao temperar imagens banais com uma música de meu gosto, fica a impressão de que aquelas pessoas fazem parte de algo maior. “Isso! Continuem assim, com esse ar cansado, bocejando. Perfeito pra esse solo do Miles Davis que estou ouvindo agora! Com as luzes do congestionamento da Marginal Pinheiros ao fundo então, melhor ainda! Oh, yeah!” E assim, tudo fica mais bonito, palatável. Do rock ao jazz nos ouvidos. Do velho à criança nos olhos.

E dessa maneira, desço do ônibus balançando a cabeça no ritmo do momento, certo de que assisti a um videoclipe bacana. E que ninguém nunca viu ou verá.