FIAPO DE JACA

August 14, 2008

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Os dois estavam prestes a sair. Antes, ele resolveu se despedir de um amigo no messenger, com quem não papeava há muito tempo. Ela, que não costumava ser bisbilhoteira, acabou vendo, sem querer, um trecho da conversa. Mais tarde, no carro, ela resolveu puxar o assunto:

- Então, tava muito engraçada a conversa que você teve com seu amigo no messenger? - ela perguntou, irônica.
- Não, nem um pouco. Papo normal. Por quê a curiosidade?
- Bem, estranho. Pois você não parava de escrever “HAHAHAHAHAHAHAHAHA” pra cada frase que o seu amigo teclava.
- Iiiih… Agora deu de ficar me espionando?
- Desculpe, não resisti… A tela estava tão ao alcance dos meus olhos… Enfim, que hipocrisia, hein?
- Do que você está falando?
- Dos seus “HAHAHAHAHAHAHAHAHA”, ora essa! Bizarro isso, ver uma pessoa teclando “HAHAHAHAHAHAHAHAHA” sem que saia um mínimo sorriso do rosto dela.
- Olha, isso é problema meu, ok?
- Sim, e meu também.
- Ué, como assim?
- Eu fico aqui pensando: e aqueles “HAHAHAHAHAHAHAHAHA” que ele vive me enviando pelo msn? Será que são todos falsos também, sem sorriso no rosto? Será? Não sei… De qualquer forma, perdi a confiança em você.
- Nossa, como você complica as coisas, hein?
- Ok, e se um dia, na hora da transa, eu desse a entender que fingi o orgasmo? Será que, depois disso, você não começaria a desconfiar de todos os outros que tive com você?
- Olha, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
- Tem sim, ora essa. São situações em que um é iludido pelo outro. Eu, que estou fazendo você gargalhar. E você, que me fez gozar.
- Ok, ok… eu admito. Eu sou uma farsa do “HAHAHAHAHAHAHAHAHA”. Juro que, daqui por diante, serei mais sincero com você, reagindo só na base do “rs”.
- Ok, e eu também.
- No messenger?
- Não, na cama.

April 29, 2008

NOVO ASTRO PORNÔ SURPREENDE O MUNDO

Uma conhecida produtora nacional de filmes pornográficos anunciou no início dessa semana o seu mais novo astro: o rinoceronte Ricky. Descoberto no zoológico da cidade mineira de Aririque, o animal já está em São Paulo para fazer os primeiros testes diante das câmeras. Segundo informações da assessoria de imprensa da produtora, Ricky até agora tem se mostrado desinibido no estúdio. “Ele é bem carinhoso, sabe tratar muito bem uma mulher, melhor que muito cara por aí. Amei o teste que fiz com ele. A nossa transa rolou numa boa, sem complicações.”, disse Sheron Créuzinha, uma das atrizes escaladas para contracenar com o novo astro.

Bem, se você conhece esse blog ou possui bom senso suficiente para interpretar um texto, já deve ter sacado - ou desconfiado, no mínimo - que essa notícia é falsa. No entanto, muita gente, ao ler qualquer texto escrito num português aparentemente correto, acaba acreditando em absurdos como o do parágrafo acima. Por pressa em fazer outras coisas ou preguiça mesmo, não se dão ao luxo de pesquisar sobre a veracidade ou não do que foi lido. No caso aqui, seria fácil descobrir a farsa, via google mesmo: não existe rinoceronte algum no zoológico mencionado, ora essa. Aliás, a cidade de Aririque, até onde eu saiba, existe somente nos meus delírios.

Publiquei há pouco tempo um post intitulado “TESTE - SERÁ QUE ELE GOSTA DE VOCÊ?“. A intenção era simples e direta: tirar um sarro desses testes que as mocinhas carentes e inseguras adoram fazer. A meu ver, isso ficou claro na forma como o tema foi desenvolvido, das alternativas aos resultados. No entanto, para minha surpresa, muita gente acabou levando a sério esse “teste”, atualmente bem cotado no google. Nos comentários, abusando de um miguxês sofrível, moças lamentam pelos resultados ali obtidos, pedindo desesperadamente que eu as ajude, como se eu fosse um guru sentimental. Claro que aproveito a ocasião pra dar uma sacaneada, de leve.

Enfim, não custa nada desconfiar de alguns absurdos que chegam tela do computador. Ou você acha que é possível, mesmo, que aconteçam coisas como orgias de rinocerontes com atrizes pornôs, enquanto o papa assina um documento liberando a masturbação? Eu, hein?

April 8, 2008

O POVO QUER SABER

Eram dias movimentados na redação do jornal “Diário da Folha Sensacional”. Também pudera, nem sempre aconteciam crimes daquele nível. No meio da correria, o editor-chefe, impaciente, chama o repórter pra uma conversa:

- Vem cá, eu mando você cobrir uma matéria de extrema importância e como resposta tenho essas informações aqui? Bela porcaria, hein?
- Me desculpe, mas, sinceramente, eu acho que fiz um bom trabalho.
- Bom, trabalho? Sei… tá cheia de buracos a sua reportagem. Não informa nada!
- Tá, me dê algum exemplo aí de algo que esteja faltando.
- A madrasta presa, por exemplo. Sobre o almoço dela.
- O que tem? Eu coloquei aí: “Hoje ela almoçou arroz, feijão, salada, bife e batata.”
- Só isso? Só isso? Que raios de repórter é você? E o bife dela, estava como? Bem passado? Mal passado? No ponto? Era filé mignon? Contrafilé? E a salada, era de quê? Alface? Tomate? Palmito? Primavera?
- Mas isso não importa…
- Como não importa? Você deve relatar tudo. O leitor de nosso jornal tem que ter a sensação que comeu ao lado da mulher. Pra entender melhor a matéria, entende?
- Sei…
- Olha um exemplo de boa reportagem aqui, entregue agora há pouco pelo Betão, responsável pela cobertura da prisão do pai da menina. - ele vai para o computador e abre um arquivo de texto - Olha só: o Betão conseguiu descobrir que o pai, logo após o café da manhã, deu um leve arroto, desses de boca fechada, que mal dá pra se ouvir. Ok, um arrotinho tímido, mas, mesmo assim, um arroto, pô! Rapaz, isso é um furo, que vai ter destaque amanhã, com gráfico e tudo mais, no caderno especial dedicado a esse crime. Sensacional!
- Mas, veja bem, não seria melhor a gente dedicar uma atenção maior ao trabalho dos peritos? Afinal, é muita especulação e…
- Ah, bem lembrado. Os peritos. Fiquei sabendo agora há pouco que um deles joga um bolão. O cara fez parte até do juvenil do Palmeiras, acredita? Só não foi adiante por causa de uma lesão no joelho. Então, eu gostaria que você investigasse isso mais a fundo. Que mostrasse o lado boleiro dele.
- Hein?
- É… se puder, leve um fotógrafo com você, pra tirar umas fotos desse perito dando embaixadinhas. Vai ficar bacana.
- Mas e a cobertura da madrasta, agora na parte da noite?
- Ah, pode deixar que mandei o Betão lá pra porta da delegacia onde a moça está presa. Agora, vai atrás do perito. Toma aqui o nome e o telefone dele. Boa sorte!
- Ok, ok…
- E mais uma coisa…
- Sim?
- Veja o que ele comeu hoje. Com detalhes.

E a edição especial do dia seguinte chegou às bancas com a seguinte manchete, assinada pelo Betão:

EXCLUSIVO! MADRASTA JANTOU STROGONOFF!!!

Tuca Hernandes | Comunicação | 7:56 pm | Comente que eu te comento (10)

March 20, 2008

FANTÁSTICO FALAR COMIGO!!!!

Um spam que recebi hoje (removi as informações do contato, mas mantive os charmosos erros de português):

“Fantástico falar com você! Meu nome é XXXX e sou consultor de motivação em São Paulo. Em Abril estarei dando uma palestra gratuíta em todas capitais para apresentação de um curso de COMUNICAÇÃO - Aprenda a se comunicar e perca o medo de falar em público. Assista o vídeo de demostração clicando na imagem abaixo e me passe a Capital que vc mora para te mandar local , data e horário desta aprensentação gratuíta. Para ter mais motivação ainda em sua vida, entre em www.xxxxxxx.com.br ou assista minhas palestras motivacionais em www.youtube.com/xxxxxx”

Interessante. Mas, como sou o típico cara FODÃO, ou seja, bem sucedido financeiramente e emocionalmente, sabendo falar em público melhor que o Fidel Castro nos momentos mais inspirados, deixei pra lá a oferta.

Agora falando sério. Pra mim, palestra motivacional, mesmo, é algo nesse estilo aqui, tanto na forma quanto no conteúdo:


O resto, bobagens pra serem ridicularizadas num post de um blog qualquer.

Tuca Hernandes | Comunicação, Meu Umbigo | 7:41 pm | Um comentário (1)

November 26, 2007

RETICÊNCIAS

- Bem, eu…
- É, eu sei…
- Então, por causa disso, acredito que…
- Ah, me desculpe, mas não seria melhor você…?
- Pois é, acontece que, de alguma forma, eu fui…
- Ok, ok…
- Bem, você entende, né? É tudo questão de…
- Sim, perfeitamente. Ainda mais quando…
- Ih, lá vem você querendo desenterrar isso, mais uma vez…
- Ih, lá vem você querendo fugir disso, mais uma vez…
- Não é isso, eu apenas acho que, de alguma maneira, a gente poderia…
- Tá, tá… não precisa ficar me lembrando do óbvio, como se viver fosse apenas uma questão de…
- Não é isso, entenda, de uma vez por todas, que, se você…
- Sim, eu sei… Eu admito… Mas, saiba que, muitas vezes, a gente precisa de…
- Então, e é justamente isso que não entendo, pois…
- Tá vendo? Mais uma vez, você está fugindo do tema de nossa conversa, que é…
- Discordo… Era justamente sobre isso que eu queria falar, eu ia chegar nesse ponto, ainda mais agora, que…
- Ah, não precisa ficar dando voltas, né? Basta ir direto ao ponto, pois tudo isso, de alguma maneira…
- Concordo em parte… Afinal, eu e você…
- Bem, nem sempre… nem sempre… Todos nós sabemos que, cedo ou tarde, o mundo, do jeito que está, iria…
- Isso é óbvio, né? Mas, por um outro lado…
- Sim, sim… não nego isso… Eu sempre… sempre…
- Ah, é? Não parece, mesmo… Estou surpreso, pois, até hoje, eu achava que…
- Engano seu. Lembra… daquela vez, quando a gente…
- Nossa, eu achava que tinha ficado claro aquele nosso acordo de nunca mais voltarmos a discutir isso…
- Então, eu ainda…
- Ainda? Como assim? Minha nossa, agora, não me resta mais nada a não ser…
- Ah, não exagere, vai! Nunca foi novidade pra ninguém o fato de que eu…
- Tudo bem, eu preciso aprender mesmo a…
- Aiai… como sempre, a mesma maneira de…
- Ué, eu tenho outra alternativa, a não ser ficar aqui e…?
- Tem, ué… Basta você…
- Ah, é fácil falar… Ainda mais se considerarmos o contexto do… do… ah, você sabe!
- Nem precisa me dizer…
- Pois é, essa história a gente já sabe de cor…
- O que, por sua vez, me faz lembrar de quando a gente, um dia…
- Sério? Engraçado, eu pensei a mesma coisa… Que coincidência, não? Essa sintonia entre a gente que…
- Concordo plenamente… saiba que, apesar dos pesares, eu…
- Ah, eu também… Demais…
- Por todo o sempre, né? Mesmo se…
- Sim, principalmente isso… Mesmo se…
- Etc e tal…?
- Sim, etc e tal…

November 12, 2007

O DESTINO, ESSE FANFARRÃO

- Alô?
- Bom dia, eu gostaria de falar com a senhora Regina Pereira Lima da Silva?
- É ela quem está falando…
- Bom dia, aqui quem fala é Júlio César, do Banco Fantander e gostaria de avisar que a senhora foi agraciada com a oportunidade única de poder estar fazendo parte do seleto grupo de privilegiados que poderão estar usufruindo de uma linha de crédito exclusiva que…
- Não, obrigada, não estou interessada, ok? E mais uma coisa: tem como vocês me deixarem em paz? Não agüento mais. É todo dia, esse telemarketing ridículo, áfe! Passar bem e…
- Um momento, senhora. Deixe que ao menos eu explique as inúmeras vantagens de estar sendo um cliente Vip-Vap do Fantander, cuja…
- Ei, espere aí… eu estou reconhecendo essa voz… meio rouca… esse jeito meio cantado de falar…
- Como, senhora?
- Não é possível. Não, não pode ser… É você, Júlio? É você?
- Eu quem, senhora?
- Você não é aquele rapaz que tem uma tatuagem do Chapolin transando com a Madonna, no braço esquerdo?
- É… sim… mas… de onde você me conhece?
- CAFAJESTE!!!
- Hein?
- Eu sou a Regininha, aquela idiota com quem você ficou há umas semanas atrás, lá na danceteria “Sheikobari“. Lembra agora?
- Nossa! Regininha? É você? Que coisa…
- Pois é… Lembra que você me prometeu ligar no dia seguinte? Lembra? Hein?
- Olha, veja bem…
- Que eu era isso, era aquilo, que jamais tinha ficado com uma mulher como eu… E a tonta aqui, acreditando, deixando que o canalha avançasse cada vez mais! Ai, eu sou uma burra mesmo! Uma anta!
- Mas…
- E no dia seguinte, a paspalha aqui, o tempo todo ao lado do telefone, aguardando por sua ligação. O dia inteiro!!! Júlio, eu tinha me apaixonado, sabia? Tem idéia do quanto significou aquela noite pra mim? Tem? Cafajeste!
- Pô, Regininha… Peraí, deixa eu explicar, minha linda…
- “Minha linda” é uma ova, viu? Nem vem!
- Posso explicar? POSSO?
- Tente…
- Então, no dia seguinte, tive que ir pro hospital, logo de manhãzinha, pra ficar ao lado da minha tia-avó, que estava mal pra burro, sabe? Na correria, eu nem lembrei de esvaziar os bolsos da calça que eu tinha usado na noite anterior, onde estava o papelzinho com o seu telefone.
- Hum…
- Nisso, minha flor, a empregada viu a minha calça em cima da cama e a levou pra lavar, sem esvaziar os bolsos. Resultado: lá se foi o papelzinho com seu contato, minha linda…
- Nossa…
- Pois é. Pra piorar, a minha tia-avó morreu no dia seguinte. E, cá entre, nós, no velório da coitadinha, todos pensavam que eu estava chorando por ela. Que nada. Eu chorava que nem um bebê por não ter mais ao meu alcance aquele papel com o seu telefone, inconformado por ter perdido a chance de voltar a entrar em contato com a mulher maravilhosa que eu acabara de conhecer.
- Eu?
- É claro, minha princesa. É óbvio. Você, sem sombra de dúvidas, foi a coisa mais especial que já aconteceu na minha vida. Nem em dez reencarnações eu terei a chance de encontrar uma mulher feito você: linda, inteligente, charmosa, carismática…
- Ai, Ju… pára.. assim você me deixa sem graça…
- Mas é verdade, vê só como é o destino? Agora te encontro assim, por acaso, nessa ligação. Regininha, a nossa estória estava escrita nas estrelas… Nas estrelas! Deve existir uma constelação somente nossa, lá no céu, minha linda!
- Ah, eu sabia que, lá no fundo, eu reencontraria você. Que a nossa estória continuaria para além daquela noite. Que não foram somente beijos, uns amassos… Teve algo mais… Eu tive certeza disso, Ju…
- Eu também, minha linda. E olha só que coisa bacana, que tal comemorarmos esse momento, esse reencontro cósmico, com você abrindo uma linha de crédito lá no Banco Fantander? Quanto mais dinheiro tivermos em nosso futuro, maiores serão as alegrias reservadas para a gente! Já imaginou?
- Você acha, Ju?
- Claro, princesa… Vai por mim, meu amor. Só precisarei pegar seus dados aqui pra ativar a sua linha de crédito. É rapidinho, tudo bem?
- Tudo…

Dez minutos depois:

- Pronto, foi pro sistema. Maravilha, Regininha! Parabéns, você agora está fazendo parte do seleto grupo de agraciados com a linha de crédito Plus Owned do Banco Fantander. No prazo de quinze dias, você estará recebendo um manual com mais instruções para que você possa estar sempre conseguindo o melhor do Banco Fantander, o banco que não tem clientes, mas sim amigos!
- Legal, Ju… Mas, quando é que você me liga de novo? Vamos sair? Olha, me passa o seu telefone… Me…
- Nós, do Banco Fantander e seus associados, agradecemos a confiança, desejando a você um ótimo final de semana e um sincero beijo no coração. Muito obrigado.
- Mas…

(tu, tu, tu, tu…)

August 27, 2007

LIGUE DJÁ!


Dessa vez, deixarei meus neurônios descansarem e apenas comentarei sobre o conteúdo de um e-mail que você também já deve ter recebido. O título da mensagem - “Já pensou em emagrecer enquanto dorme?” – já é um prenúncio das bizarrices que ele oferece. Sim é aquela famosa propaganda de um produto capaz de queimar a gordura, principalmente a nível de barriga, composto por 6 ervas rigorosamente selecionadas, designadas para atuarem justamente na hora do sono. Uau!

E, além disso, tal maravilha melhora também o funcionamento do intestino, desintoxica o organismo, enrijece os músculos e a pele. E, antes que eu me esqueça, resultados comprovados!

Num primeiro instante, é comum acharmos objeto de comédia mensagens nesse estilo, tamanho absurdo de seu conteúdo, não acreditando que alguém vá desembolsar algo pra comprar coisas desse naipe. Mas, assim como existe gente que compra o DVD original da Banda Calypso, tem muita gente, mas muita mesmo, que joga fora um certo dinheirinho nessas promessas de milagre. E lucra quem for cara de pau, sabendo que, de 100.000 e-mails enviados, 50 respostas positivas já é um lucro e tanto.

Penso em fazer um teste, enviando um e-mail pra 500.000 pessoas, vendendo algo que prometa a alegria suprema, só pra ver quantos desesperados responderiam, a nível de grana. Quem sabe seja esse o início de meu império. Portanto, não estranhe se você receber nos próximos dias uma mensagem de alguém vendendo ingressos exclusivos pra uma apresentação dos Beatles, com participação especial do Jim Morrison dançando bumba-meu-boi. Aproveite! Cada ingresso só por dérreal!!!!

(Texto escrito em 09/11/2005)

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E que tal:

Tuca Hernandes | Comunicação | 8:37 pm | Comente que eu te comento (5)

August 24, 2007

TUDO VIRTUALMENTE BEM


No início, conforme aprendi nos desenhos animados, bastava o homem dar uma paulada na cabeça da mulher e arrastá-la para a caverna. Mas, para a alegria dos direitos humanos, bem como para o bolso dos donos de danceterias, cinemas e restaurantes, surgiu o flerte, uma versão um pouco mais refinada da dança do acasalamento. Mas como nem todos têm a competência ou a oportunidade de fazer essa dança ao vivo, decidiram inventar caminhos para que a libido não ficasse na mão, literalmente.

Tempos atrás, fiquei sabendo que inventaram um sistema de namoro virtual pelo celular. Por alguns dólares, um serviço proporciona uma namorada de mentirinha pro coitado que não arranja ninguém. Dessa forma, o mesmo a leva aos cinemas, barzinhos, dá flores, chocolates, etc. Mas sem gracinhas, pois ela não tolera nada além de beijinhos. Se o relacionamento estiver firme mesmo, pode resultar até em casamento, estando incluso aí as cobranças da sogra, afinal nem tudo pode ser perfeito. Tudo isso pelo celular, entre mensagens de texto e comandos de voz.

Além da carência e inovações digitais, outra coisa que freqüentemente encontramos em alta é o desemprego. Assim, não me surpreenderia se inventassem um serviço de patrão virtual, o Virtual Boss (título em inglês mesmo, mais sofisticado, féxion). Enquanto ninguém responde ao currículo do cidadão, esse poderia ter a sensação de estar empregado, com o celular dele tocando a cada quinze minutos, cheio de cobranças e lembretes para uma determinada atividade inventada. Tudo em prazos impossíveis de serem cumpridos, como na vida real. Dependendo do desempenho, o cara poderia até ser promovido, resultando num aumento de salário, vide o saldo bancário cada vez mais gordo, num banco perfeito que não existe, é óbvio. Mas seria bom não abusar da confiança, uma vez que o Virtual Boss pode demitir também, e da forma mais humilhante: por uma breve mensagem de texto.

Bem, teríamos então a namorada e o emprego virtuais. Ótimo. Mas, depois de um tempo, sabe como é, não seria o caso de pensar em ter filhos? E se… Ok, ok, paro por aqui.

(Texto escrito em 02/03/2005)

July 19, 2007

FOGO À VONTADE

Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona,-um triste molambo de mulher,- chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.

-É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
-Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?

(Machado de Assis - Trecho do romance “Quincas Borba“, capítulo CXVII)

Sempre que vejo a forma como grande parte da mídia aborda tragédias como a dessa última terça, me vem na mente esse contozinho presente no “Quincas Borba”. O que tem de repórter por aí acendendo o seu charuto nos escombros de muitos parentes não é brincadeira. Mas a culpa não é dele. Afinal, tem um editor acima do mesmo. Mas a culpa não é do editor. Afinal, tem o dono do veículo de comunicação acima desse. Mas a culpa não é do chefão. Afinal, tem os anunciantes acima desse. Mas a culpa não é dos anunciantes. Afinal, tem os consumidores acima desses. Mas a culpa não é dos consumidores. Afinal, tem os fatos que atiçam a fome de consumo deles. Mas a culpa não é dos fatos. Afinal, as coisas acontecem, sabe? Sei.

O problema é que, por aqui, certas coisas acontecem mais do que o normal. Mais do que o tolerável. Bom pras fábricas de charutos.

Tuca Hernandes | Comunicação | 11:14 am | Comente que eu te comento (7)

July 17, 2007

A FRASE

Finalmente, ele tinha criado “A Frase”. Agora sim, acreditou, poderia ingressar na posteridade dos gênios, por ser o pai daquela pérola que muitos citariam por aí. Mas, como todo autor zeloso, optou por conservá-la secreta, reservando a melhor ocasião pra proferi-la. Não a diria pra qualquer um, afinal seria bem capaz que algum plagiador ambulante tomasse pra si o crédito. Isso não. Ou poderia acontecer algo pior, da mesma virar obra de “anônimo”. Assim, ninguém acreditaria nele depois, como sendo o criador da “Frase”. No mundo frágil das autorias, seria impossível comprovar a origem dela, mostrar o registro do nascimento a partir de seus neurônios. Uma vez pública, sem o justo crédito, ninguém acreditaria que ele seria o autor da “Frase”:

- Você, o autor daquela frase? Ah, conta outra, vai…

Julgou que o material que ele tinha na cabeça era bom demais pra ser revelado à toa. Dessa maneira, agiu como o compositor ciente de sua obra-prima, que sequer assobiava em público aquela melodia antes da mesma ser devidamente registrada. Sabia que, depois de mostrá-la ao mundo, de pouco importariam calhamaços de papéis com pensamentos seus. Muitos entraram para a história apenas com uma frase. Outros, com obras publicadas pela vida inteira, foram esquecidos sem piedade, provavelmente porque faltou aquela observação genial, grandes filosofias entre poucas palavras. Nada teria o poder de alcance da “Frase”. Pessoas o apontariam na rua:

- Você sabe quem é aquele ali? É o autor da frase.
- Aquela frase?
- Isso mesmo. Aquela.
- Uau… Lá vai o autor da frase então…

Esses pensamentos o animaram. Mas como tornaria tudo isso possível? Haveria uma maneira de registrá-la? Alguma estratégia que impusesse uma marca d’agua sua naquelas palavras? Não conseguiu encontrar nada que o convencesse. Os anos foram passando e nada de novo nesse departamento. A “Frase” continuava ali, na mente, pronta pra, no momento oportuno, presentear a humanidade. Diante de toda e qualquer decepção na vida, como términos de relacionamentos e falências nos negócios, havia o consolo de que, apesar dos pesares, ele era o autor da Frase, que o público haveria de conhecer ainda. Sim, ele não era um simples alguém.

Às vezes a escrevia em alguma folha, com o cuidado de que não tivesse alguém ao redor dele. Feito isso, a ficava admirando, pensando nas inúmeras possibilidades de uso dela. Era a musa do seu umbigo. Terminada a contemplação, riscava com a caneta por cima daquelas palavras, picotando e queimando o papel logo em seguida. Já velhinho, mais de cinqüenta anos após o descobrimento da “Frase”, ele continuava vez ou outra sendo surpreendido queimando algo no banheiro. E nem adiantava perguntar o porquê daquilo tudo. “Cuide de sua vida, que eu cuido da minha”, era a resposta padrão.

Certa vez, quase a soltou, numa discussão com um companheiro de asilo, mas o insulto que recebera não mereceria uma resposta tão sofisticada, elevada. Já imaginou? Além de ser agredido, correria o risco de perder a paternidade de sua sabedoria. Tantos anos pra nada? Precisava ser forte, resistir a tentação.

No leito de morte, decidiu se despedir do mundo em grande estilo, dizendo, finalmente, a “Frase”. Deixaria pro último ato um gesto de amor em prol da humanidade, revelando a sua obra-prima sem se importar com os créditos. Quando ia balbuciá-la pro enfermeiro de plantão, desmaiou na primeira sílaba, pra nunca mais acordar. Assim, levou pra cova toda uma filosofia. Ninguém a escreveria nos minutos de sabedoria. Ela jamais estaria impressa em camisas. Teria ajudado muitos a conquistarem garotas, outros, a encerrarem sabiamente uma discussão. Paciência. Deixou um mundo orfão daquelas palavras, que jamais veio a saber que “sábio é aquele que respeita a ignorância do outro”.

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Ps: Já está nas bancas a edição de julho da revista Petworld, onde, mais uma vez, você encontrará uma crônica minha, na última página. Nessa, eu comento que qualquer bicho pode virar animal de estimação. Como exemplo disso, cito os franguinhos que já criei dentro de meu apartamento, anos atrás.

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E que tal:

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