Finalmente, ele tinha criado “A Frase”. Agora sim, acreditou, poderia ingressar na posteridade dos gênios, por ser o pai daquela pérola que muitos citariam por aí. Mas, como todo autor zeloso, optou por conservá-la secreta, reservando a melhor ocasião pra proferi-la. Não a diria pra qualquer um, afinal seria bem capaz que algum plagiador ambulante tomasse pra si o crédito. Isso não. Ou poderia acontecer algo pior, da mesma virar obra de “anônimo”. Assim, ninguém acreditaria nele depois, como sendo o criador da “Frase”. No mundo frágil das autorias, seria impossível comprovar a origem dela, mostrar o registro do nascimento a partir de seus neurônios. Uma vez pública, sem o justo crédito, ninguém acreditaria que ele seria o autor da “Frase”:
- Você, o autor daquela frase? Ah, conta outra, vai…
Julgou que o material que ele tinha na cabeça era bom demais pra ser revelado à toa. Dessa maneira, agiu como o compositor ciente de sua obra-prima, que sequer assobiava em público aquela melodia antes da mesma ser devidamente registrada. Sabia que, depois de mostrá-la ao mundo, de pouco importariam calhamaços de papéis com pensamentos seus. Muitos entraram para a história apenas com uma frase. Outros, com obras publicadas pela vida inteira, foram esquecidos sem piedade, provavelmente porque faltou aquela observação genial, grandes filosofias entre poucas palavras. Nada teria o poder de alcance da “Frase”. Pessoas o apontariam na rua:
- Você sabe quem é aquele ali? É o autor da frase.
- Aquela frase?
- Isso mesmo. Aquela.
- Uau… Lá vai o autor da frase então…
Esses pensamentos o animaram. Mas como tornaria tudo isso possível? Haveria uma maneira de registrá-la? Alguma estratégia que impusesse uma marca d’agua sua naquelas palavras? Não conseguiu encontrar nada que o convencesse. Os anos foram passando e nada de novo nesse departamento. A “Frase” continuava ali, na mente, pronta pra, no momento oportuno, presentear a humanidade. Diante de toda e qualquer decepção na vida, como términos de relacionamentos e falências nos negócios, havia o consolo de que, apesar dos pesares, ele era o autor da Frase, que o público haveria de conhecer ainda. Sim, ele não era um simples alguém.
Às vezes a escrevia em alguma folha, com o cuidado de que não tivesse alguém ao redor dele. Feito isso, a ficava admirando, pensando nas inúmeras possibilidades de uso dela. Era a musa do seu umbigo. Terminada a contemplação, riscava com a caneta por cima daquelas palavras, picotando e queimando o papel logo em seguida. Já velhinho, mais de cinqüenta anos após o descobrimento da “Frase”, ele continuava vez ou outra sendo surpreendido queimando algo no banheiro. E nem adiantava perguntar o porquê daquilo tudo. “Cuide de sua vida, que eu cuido da minha”, era a resposta padrão.
Certa vez, quase a soltou, numa discussão com um companheiro de asilo, mas o insulto que recebera não mereceria uma resposta tão sofisticada, elevada. Já imaginou? Além de ser agredido, correria o risco de perder a paternidade de sua sabedoria. Tantos anos pra nada? Precisava ser forte, resistir a tentação.
No leito de morte, decidiu se despedir do mundo em grande estilo, dizendo, finalmente, a “Frase”. Deixaria pro último ato um gesto de amor em prol da humanidade, revelando a sua obra-prima sem se importar com os créditos. Quando ia balbuciá-la pro enfermeiro de plantão, desmaiou na primeira sílaba, pra nunca mais acordar. Assim, levou pra cova toda uma filosofia. Ninguém a escreveria nos minutos de sabedoria. Ela jamais estaria impressa em camisas. Teria ajudado muitos a conquistarem garotas, outros, a encerrarem sabiamente uma discussão. Paciência. Deixou um mundo orfão daquelas palavras, que jamais veio a saber que “sábio é aquele que respeita a ignorância do outro”.
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Ps: Já está nas bancas a edição de julho da revista Petworld, onde, mais uma vez, você encontrará uma crônica minha, na última página. Nessa, eu comento que qualquer bicho pode virar animal de estimação. Como exemplo disso, cito os franguinhos que já criei dentro de meu apartamento, anos atrás.
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E que tal: