FIAPO DE JACA

September 2, 2008

AS DUAS CONVERSAS

Noite em São Paulo. Sentado do meu lado, na van lotada, o rapaz parecia conversar choramingando no celular. De voz triste e com expressões de lamento, ele tentava estabelecer algum nível de entendimento com aquela que parecia ser a sua namorada. Pelo jeito, do outro lado da linha, a moça continuava irredutível a qualquer argumento dele. Assim o lamento do coitado ia ampliando-se a cada palavra gasta e ouvida. Negações pra lá, deixa-dissismos pra cá, não tinha jeito, batalha perdida. Dava dó. A noite dele prometia ser difícil, pensei. Quando ele desligou o celular, naquele clima de alguém que perdeu o pênalti decisivo da Copa, cabisbaixo, imaginei que lágrimas cairiam em mim, tamanho o peso daquele “tchau”, pronunciado tremulamente.

No entanto, de imediato, antes que alguma lágrima pudesse pensar em cair, ele ligou pra um outro número:

- Alô, Pedrão? E aê, véi! Belê? Ah, muleeeeque! Sambão, hoje? Opa! A noite promete, rapá! E então, quem vai? É? Putz… A Carlinha não? Caraca! Pô, justo a mais gostosa. Ah, então o negócio é ficar de marcação nas perva mesmo! Pois é, são feia pra carai, mas sabe como é… hehehe

Quando desci no meu ponto, pude ver que ele ainda ria, ria… Felicíssimo. Como se tivesse acertado aquele último pênalti da Copa. Praticidade sentimental é isso aí.

September 1, 2008

ALÔ, MARCELO?

Meu nome é Marcelo. Grande coisa, ué, você deve estar resmungando agora. Enfim, dias desses, por conta do meu emprego, tive que ligar pra um tal de Marcelo também:

- Alô, Marcelo? - voz de um homem. Como esse cara poderia saber o meu nome? Será que já aguardavam pela minha ligação naquele horário? Estranho isso.
- Sim, quem fala? - respondi, feliz por ter que dispensar apresentações.
- Marcelo? - pô, eu já falei que sou eu! Tá gagá, meu filho?
- Sim.
- Quem fala?
- …
- …
- Então, eu gostaria de falar com o Marcelo.
- Então, Marcelo? - tive vontade de responder algo como “Não, é o Bozo. Papai Papudo está?”
- …
- Você quer falar com quem?
- Com o Marcelo, diga pra ele que é o Marcelo, também.
- Ah, você é Marcelo, também.
- Marcelo? É você?
- Sim? Marcelo?
- Ok, entendi, você é o Marcelo.
- Sim? Marcelo? Exatamente. O que deseja, Marcelo?

Pessoas que respondem ao chamado do nome como se tivessem perguntando pelo mesmo. Mania besta. Definitivamente, sou contra. Quem? Eu, Marcelo? Sim.

August 19, 2008

DESEJOS DE GRÁVIDA

Todos nós conhecemos histórias de grávidas que acordam de madrugada, torturadas por uma vontade de comer algo bizarro:

- Amor…
- O quê? - resmunga o marido, bem atordoado pelo sono
- Eu tô com desejo…
- Sei… O que é dessa vez?
- Então, eu quero comer feijão com goiabada e leite condensado.
- Putz… Pode ser amanhã?
- Tem que ser agora! Ou você quer que o nosso filho nasça com cara de feijão com goiabada e leite condensado?
- Ok, ok… Já volto.

Mas os desejos poderiam ser piores. Já imaginou a mulher surpreender o companheiro, no meio da madrugada, tomada por um desejo incontrolável em saciar outros sentidos, além do paladar?

- Amor…
- O quê?
- Eu tô com desejo…
- Ok, ok… é feijão com goiabada e leite condensado de novo?
- Não… Sabe a Banda Calypso?
- Sei. O que é que tem?
- Então, eu quero ver um DVD de um show deles.
- Como assim? Tá brincando comigo, né? Só pode ser. Você sempre odiou esse tipo de música.
- Pois é. Acontece que agora me veio esse desejo, do nada. Pode isso???
- Ok, amanhã eu compro esse tal DVD pra você, tudo bem?
- Eu quero ver agora! Agora!
- Mas onde eu vou encontrar loja aberta nesse horário? Olha, deve ter uns vídeos deles no youtube e…
- Tem que ser o DVD! E original! Agora!
- Mas…
- Ou você quer que o nosso filho nasça com a cara do Ximbinha? Hein, hein?
- Ok, ok… tô indo…

Assim, outras vontades poderiam surgir:

- Amor, tô com desejo de votar no Maluf.
- Amor, tô com desejo de ouvir um discurso do Fidel Castro, na íntegra.
- Amor, tô com desejo de ler a biografia da Narcisa Tamborindeguy pros mendigos lá da praça.
- Amor, tô com desejo de publicar um post pago sobre ornitorrincos da caatinga. Agora!

Pensando bem, feijão com goiabada e leite condensado não deve ser tão ruim assim.

Tuca Hernandes | Comportamento | 7:00 am | Comente que eu te comento (8)

June 18, 2008

ESTÉTICA NEO-BUSÓFILA

Quando percebi que começaria a andar de ônibus todos os dias, procurei encarar a situação de forma positiva, sob vários pontos de vista. O principal deles era que finalmente eu voltaria a entrar em contato com o povão, tirando de minhas observações inspirações para textos e mais textos. Seria o meu início tardio numa espécie de realismo? Naturalismo? Bem, nada disso aconteceu, pois vejo que continuo no tô-nem-aísmo, percebendo que minha antena fica desligada nessas viagens. Ao invés de colecionar eurekas que me inspirem parágrafos de observações sociológicas, prefiro brincar de diretor de videoclipes meio bizarros.

Como assim?

Descobri que pode ser interessantíssimo ouvir as músicas de meu MP3 player observando o pessoal no ônibus. Ao temperar imagens banais com uma música de meu gosto, fica a impressão de que aquelas pessoas fazem parte de algo maior. “Isso! Continuem assim, com esse ar cansado, bocejando. Perfeito pra esse solo do Miles Davis que estou ouvindo agora! Com as luzes do congestionamento da Marginal Pinheiros ao fundo então, melhor ainda! Oh, yeah!” E assim, tudo fica mais bonito, palatável. Do rock ao jazz nos ouvidos. Do velho à criança nos olhos.

E dessa maneira, desço do ônibus balançando a cabeça no ritmo do momento, certo de que assisti a um videoclipe bacana. E que ninguém nunca viu ou verá.

May 22, 2008

FIAPO DE JACA NA REVISTA PAPO DE HOMEM

Dois homens conversam sobre a micareta do dia anterior. Estão animadíssimos, pois beijaram todas, até a língua ficar inchada. No entanto, um deles resolve olhar esse sucesso por uma outra ótica…

Bem, se você quiser saber o desenrolar dessa conversa, dê uma conferida no meu texto inédito lá na Revista Papo Homem: Salivas.

No mais, tomara que você não se identifique com os personagens da história…

Tuca Hernandes | Comportamento, Amizade | 11:38 pm | Comente que eu te comento (3)

April 21, 2008

CONSULTORIA

Foi apenas um espirro, num ônibus lotado qualquer. A senhora que estava sentada ao lado dele foi ligeira ao se manifestar, com aqueles olhões arregalados:

- Saúde, moço. Saúde!!!
- Obrigado.
- Gripe, né?
- Não, imagina. Foi só um espirro e…
- Olha, moço, pra gripe, tenho uma receita infalível! Funciona que é uma beleza.
- Mas, eu não…
- Vai por mim, moço. É tiro e queda! É só espremer dois limões, misturar com duas colheres de mel, três cabeças de alho e jogar tudo em água fervente, por 30 minutos. Aí, você…
- Olha, minha senhora, agradeço pela preocupação, mas não é gripe que eu tenho. Obrigado.
- Mas então, depois que a água ferver, você deve beber tudo em cinco minutos. Aí, você entra debaixo das cobertas pra suar bastante, até ficar com os cabelos pingando. Por último, você pega um copo dágua, coloca ele em cima da televisão, sintoniza no canal da Igreja Reviver e…
- Minha senhora, eu NÃO estou gripado, ok? NÃO estou gripado!!!
- Eu, hein? Não precisa ser grosso, moço. Eu só quero ajudar.
- Eu sei, mas a questão é que eu dei apenas um espirro, só isso. Eu simplesmente não tenho mais paciência pra, cada vez que eu dou um espirro, vir alguém me encher o saco com essas receitas caseiras. Ainda mais no meu caso, que tenho rinite e vivo espirrando.
- Ah, então tá explicado, é rinite que você tem. Ah, tá.
- Isso, rinite.
- Então, conheço uma simpatia muito boa contra rinite.
- Mas…
- É só fazer o seguinte: numa noite de lua cheia, você deve tomar um banho de leite de cadela com galho de arruda. Depois, você pede pra alguém te secar com a cueca que você usou no último eclipse do sol. O filho do primo do vizinho do meu cunhado fez isso e ficou curado, tem que ver!
- Minha senhora, pra rinite, o melhor tratamento é um antialérgico, receitado por um médico.
- Médico? Eu, hein?
- Isso aí, médico, ciência, século 21, civilização, essas coisas, sabe?
- Áfe!
- Pois é, eu não sou índio que se consulta com o xamã da tribo pra ficar bem de alguma coisa.
- Ih… Mas o senhor, além de grosso, é teimoso, hein? Fica espirrando aí então, até pegar uma pneumonia, tomando esses venenos que os dôtores dão.
- Olha, a vida é minha e faço o que eu bem quiser com ela. Já não basta eu estar aqui, desempregado, cheio de dívidas, estressado e…
- Estresse? Então, quando começar a te dar aquelas palpitações por causa dos nervos, você faz o seguinte: pega uma flor de camomila direto do pé e…
- Não, não! Olha, eu tô bem. Tô ótimo! Olha o meu sorriso aqui, a vida é bela! Bela! Não preciso pegar flor de camomila alguma do pé. A vida é bela pra mim, minha senhora!
- Mas você acabou de dizer que tava estressado, moço. Olha aí a sua cara. De nervoso, benzadeus!
- Impressão sua, minha senhora, falei bobagem.
- É, mas você continua endividado e desempregado, né?
- Sim, sim, continuo… Aiai, e esse trânsito que não anda, cacete…
- Então, pra quem tá com dívidas e desemprego, conheço uma reza que, ó, funciona que é uma beleza. Você faz o seguinte…
- ATCHIM!!!
- Aiai… essa gripe, viu?

Uma hora depois, na delegacia, diante da acusação de tentativa de homicídio, testemunhas a favor dele é o que não faltavam.

Tuca Hernandes | Comportamento | 1:28 pm | Comente que eu te comento (4)

April 16, 2008

DESCONFIADO

Olha só que mulherão, olhando pra mim. Será? Não, imagina. Até parece. Minha nossa, muito linda! Ah, esquece isso, rapaz, tome aí o seu chopp sossegadinho, vai. Mas, que coisa, tenho a impressão de que ela está olhando pra cá sim. Ah, mas tem mais homens aqui na mesa, bem mais bonitos e atraentes, sem dúvida alguma. Ok, deixe eu dar uma encarada, de verdade. Putz, é pra mim mesmo. Bem, talvez ela seja míope e eu não passo de um borrão pra ela. Ou será que ela está vendo algo estranho em mim? Uma mancha no rosto, uma camisa rasgada, sei lá. Não, não. Tudo normal.

Mas que raios essa mulherzinha insiste em olhar pra mim? Ah, eu vou lá. Alguém acha que perderei uma oportunidade dessas? Nunca! Não, não, calma. Pode ser uma dessas pegadinhas. Hum… onde será então que esconderam a câmera? Eu, fazer papel de bobo na frente dos outros? Jamais. Pensando bem, pode ser uma aposta no estilo “duvido que você consiga atrair pra cá aquele rapaz ali, isso, aquele mesmo.” No fim, ela diria pra mim: “Ai, moço, me desculpe, é tudo brincadeirinha, viu?”

Mas pára de olhar pra mim, pô! Me deixe em paz, vai. Vá viver a sua vida, mocinha. Cai fora! Pô, justo eu? Vire esse pescoço - aiai, e que pescocinho… - pra lá! Aí, tá vendo? Agora os meus amigos já perceberam: “Vai lá! Vai lá!!!”. Tudo bem. Tá, eu vou, mas não por vontade própria. Que fique bem claro. Ok, lá vou eu. Aposto que esse papo não vai durar mais do que duas ou três frases. No fim, restará aquele constrangimento no ar: “Que mal-entendido, hein?” “Pois é…”. Também pudera, bonita desse jeito, deve ser uma porta pra falar.

Olha só, ela não é tão burra assim… Bem, nem um pouco burra… Até que ela diz umas coisas interessantes… Nossa! Mas de onde essa mulher foi tirar essas idéias? Que mente privilegiada! Merece um prêmio Nobel. Acho que estou gostando dela… Estou ficando apaixonado! Seria um milagre se ela retribuísse da maneira que eu gostaria. Impossível. Ei, o que é isso? Puxa, como beija bem. Uma pena que será apenas por hoje, pois o número de telefone que ela me deu deve estar errado. Imagina. O papelzinho que dei pra ela, com o meu número de telefone? Até parece que ela se lembrará dele. Numa hora dessas, já deve estar no lixo. Alô? Sim, sim, dormi bem. E você? Melhor do que nunca? Que bom…

Parece que estamos namorando firme. Mas, pelo jeito, até o momento em que ela se tocar quem eu sou, não lá essas coisas. Assim, num piscar de olhos, cairá fora, suspirando aliviada. Maluquinha, ela me acompanha em tudo, na maior alegria. Que coisa, esse namoro está durando um bocado. Estranho… Não acredito: aceitou o meu pedido de casamento! Milagre se ela aparecer na igreja. Uau, que noiva linda ela ficou! Seu padre, deixa eu ouvir direito, ela disse… sim??? Ufa. Mas os anos passarão, sei como são as coisas. Sob o mesmo teto comigo, todos os dias, ela não vai agüentar. Cedo ou tarde, ela vai me trair. Certeza. Ah, um mulherão desses não resiste a uma bela cantada. Espere aí, seu detetive, você veio me dizer, novamente, que ela é completamente fiel a mim? Pôxa, então, provavelmente, os dois filhos meus são realmente… meus. Olha aí, tudo confirmado com teste de DNA. E ela ainda não se cansou de mim, a mesma alegria de sempre, o mesmo mulherão, apesar de nossas quatro crianças.

Somos uma família feliz. Ah, não quero nem ver quando chegarem na adolescência. Vão dar um trabalho danado. Que coisa, eles prestam atenção em tudo que falo. Jamais tive que levantar a voz com qualquer um deles. Olha aí, todos formados nas melhores universidades. Todos já com bons empregos! Pena que, quando se casarem, vão se esquecer dos pais. Normal. Pôxa vida, como é bacana ver os netinhos todos os dias. Olha, confesso que eu não esperava por essa festa de comemoração de Bodas de Ouro do meu casamento. Idéia dos meus netos, só podia ser. Mas os avós já estão esperando pela hora da morte, asilo na certa pra gente, aiai. Na idade que estamos, resta esperar por um enfarte fulminante. Ou um câncer bem lento e doloroso. O meu bisneto riu hoje de mim, quando falei que o câncer e o enfarte se esqueceram da gente, velhinhos e lúcidos.

E cada conversa que ainda tenho com ela… E sinto um silêncio tão grande aqui… como a voz dela me faz falta… Ei, o que estão esperando pra me colocarem num asilo? Calma, calma. Façamos o seguinte, por sorteio, a gente decide com quem eu vou morar. Eu sei, eu sei, mas eu não posso estar na casa de todos ao mesmo tempo, né? Pelo jeito, a morte se esqueceu de mim. Olha ela aí, de mansinho, engraçado eu não sentir dor alguma… Inferno, lá vou eu. E não é que é bonito o outro lado? Será que estou no paraíso mesmo? Mas não é possível, eu ainda encontro o diacho daquela câmera escondida!

March 28, 2008

HOMEWORKING

Maravilha, mais um carro acabara de estacionar perto dele. Ao trabalho então:

- Patrão, chefia! Posso dar uma olhadinha no carro aí?
- Hein, como assim?
- É chefe… uma olhadinha. Quando o senhor voltar, me dá uns três real de agradecimento, belezinha?
- Mas de jeito nenhum, imagina! Pirou, é?
- Ô patrão, uns dois real então, vai…
- NÃO! Nem um centavo!!!
- Ih… Beleza então. Ó, não garanto nada, beleza? Se aparecer um amassado na lataria, o rádio sumir, essas coisas, pobrema do senhor então…
- Ah, você está me ameaçando?
- Ih… chefia, longe de mim, imagina… só tô avisando. Sabe como é…
- Sei, sei…
- Então, uma olhadinha, tranqüilo?
- Eu disse NÃO!!! NÃO!!! Que absurdo, que absurdo… A que ponto chegamos… Quanto abuso!!!
- Ih, calma, tio…
- Como, calma? Eu acabo de estacionar o meu carro na MINHA vaga de garagem, NO PRÉDIO ONDE MORO, e me vem um flanelinha encher o meu saco, até aqui??? Até aqui???
- Ih, mais um nervosinho… É o quarto que encontro hoje. Ô dia…
- Aliás, quem deixou você entrar aqui??? Já sei, deixaram o portão da garagem aberto.
- Nem. Eu moro aqui, chefia.
- Na garagem?
- Não, no prédio. Prazer, Renato Sanchez, apartamento 95, filho da Dona Eulália e do Seu Geremias. Então, posso dar uma olhadinha no possante aí?
- NÃO, cacete!!!
- Ih…
- Você não tem o que fazer, não, moleque?
- Tenho, ué. Guardar carros, na maior honestidade, firmeza total.
- E porque você não faz isso na rua?
- Olha, doutor, eu até que tentei, mas tá difícil de encontrar vaga como flanelinha lá fora. Muita gente, sabe?
- É… tenho percebido isso. Tá demais.
- Então, enquanto não surge um ponto vago, vou ficando por aqui mesmo, trampando em casa.
- Em casa?
- É, homeworking, tá ligado?
- Sei… Mas saiba que, de mim, você não vai conseguir um único centavo! Imagina, já pago uma fortuna com o condomínio.
- Beleza então… não quer que eu dê uma olhadinha, mesmo?
- Eu já disse que NÃO!!!
- Então tá… É fogo morar num país onde a juventude não tem o valor do seu trabalho reconhecido, viu?
- Que trabalho???
- Deixa pra lá, chefia. Já entendi. Vamo fazer o seguinte: eu tomo conta do carro do senhor mesmo assim, de coração. Comigo aqui, ninguém encosta nele. Firmeza então?
- Não precisa, cacete…
- Olha, amanhã, se o senhor quiser, pode deixar uns troquinhos em reconhecimento da minha boa vontade, tá ligado?
- Vai sonhando, vai. Agora dá licença, que chegou o meu elevador.
- Fica tranqüilo, doutor, que nóis é trabalhador, sangue bom. Vai na paz!
- Tá, tá… tchau.

Tudo bem, sem ressentimentos, concluiu mais tarde o neo-flanelinha, deixando o caco de vidro no bolso. Dessa vez, como prova de sua gentileza, ao invés da lataria do carro, só iria arranhar a porta do apartamento do muquirana. Mas de leve, tá ligado?

March 4, 2008

TESTE - SERÁ QUE ELE GOSTA DE VOCÊ???


Nada mais angustiante para uma mulher do que ficar na dúvida sobre os sentimentos daquele homem por quem ela suspira. Sedenta de amor, chega o momento em que ela não sabe se os contatos com ele fazem parte de uma dança de acasalamento ou de uma triste coreografia dos amores impossíveis. Desesperada, ela precisa saber se dá um passo adiante ou se bate em retirada. Afinal, como interpretar aqueles sinais vindos dele? Para tanto, uma equipe composta por experientes profissionais da área de antropologia e psicologia criou um revolucionário teste que procura, de uma vez por todas, desvendar o que se passa na cabeça de um eventual pretendente. Em primeira mão, publico o mesmo aqui, tendo ao fim os resultados e suas interpretações. Vamos lá então:

1 - Quando você espirra, ele…

a - Fala “saúde” imediatamente, perguntando se está tudo bem com você, enquanto te oferece uma caixa de lenços de papel. Na dúvida, ele vai pra farmácia mais próxima comprar um antigripal.
b - Fala “saúde” uns três segundos depois, enquanto procura por algum lenço de papel.
c - Fala “saúde” vinte segundos depois, com cara de indiferente.
d - Não fala “saúde”, nem olha pra sua cara. Na seqüência, emenda um assunto qualquer de interesse dele, como a situação do Corinthians no campeonato.
e - De imediato, se afasta de você, e aproveita pra te dar uma bronca daquelas, pedindo para que o próximo espirro, se houver, que seja longe dali, pois não quer ninguém passando gripe pra ele. (Continue lendo…)

February 27, 2008

EM BUSCA DO COMC

Sou desses caras que não conseguem ficar mais de cinco minutos diante do espelho. Não que a imagem refletida me cause enjôos, desses remediáveis apenas por cirurgias plásticas. Tenho idade suficiente pra perceber que sou o típico meia-boca, que não recebe olhares de encanto, tampouco de nojo. Quase imperceptível. Mesmo ciente de tudo isso, tenho lá a minha vaidade, confrontada sempre quando preciso dar um jeito no meu cabelo. Nesses momentos, por causa de minha impaciência pra ajeitar fios aqui e acolá, mas ao mesmo tempo não querendo ficar com um estilo neo-hippie (ou neo-mendigo), vivo considerando a possibilidade de deixá-lo raspado. Não zero, como bunda de bebê, mas naquele estilo capacho, obtido através de máquina três ou quatro.

No entanto, dada a minha magreza habitual, se assim fosse, eu seria confundido nas ruas como um desses doentes terminais que resolveram passar os últimos dias de vida fora do hospital. A meu ver, esse tipo de corte é como tatuagem: fica bem apenas nos que tem um corpo perto do ok, nem muito magro, nem muito gordo. Dessa forma, impossibilitado - segundo meus conceitos, é claro - de ter o meu penteado preferencial, só me resta encontrar um meio-termo, que não me faça caminhar desmotivado para o espelho de manhã, sem irritar muito o meu lado anti-metrossexual. E nesse processo, ter um cabeleireiro (ou barbeiro mesmo, vá lá) que me entenda é fundamental.

Até meados do ano passado eu cortava meu cabelo com um cara que já estava habituado ao que eu queria. Preço bom, perto do ridículo, com qualidade satisfatória. Antes que desse a primeira tesourada, ele perguntava, só pra se certificar:

- E aí, meu chapa? O mesmo de sempre? - sim, é claro, como não?

E lá ia ele, picotando aqui e acolá, como um jardineiro responsável pela mesma paisagem há décadas. Nada de ficar perguntando se do lado eu preferiria assim, em cima assado, essas chatices. Em questão de minutos, eu tinha o corte perfeito, ou pelo menos bem perto daquele que eu queria. Algo que, pelo menos durante um ou dois meses, me poupasse daqueles longos e torturantes minutos diante do espelho. E assim foi, durante uns três anos, até eu descobrir que o cara não trabalhava mais no salão que eu freqüentava. Sumiu. Pô…

Desde então, já passei por três profissionais diferentes, todos sumariamente desclassificados do posto de COMC (Cortador Oficial dos Meus Cabelos). Um desses era tão ruim que parecia ter aprendido o ofício numa penitenciária, tamanha bagunça que ficaram meus cabelos, mais tarde devidamente ajeitados com uma tesoura na minha casa. Cheguei a desconfiar ter sido alvo de alguma pegadinha, sei lá. Mas como ninguém me reconheceu na rua até agora, me apontando entre gargalhadas, acho que não foi o caso. De qualquer forma, a busca continua, com mais um capítulo prestes a começar, já que meu penteado tá chegando num ponto em que só o laquê salva. E laquê, definitivamente, não dá. Tenho princípios a zelar.

É, se a coisa continuar complicada, não tem jeito, terei que parar com essa mania de cortar meus cabelos por menos de R$ 10,00.

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