Naquela manhã de verão, quase fim de fevereiro, ele encontrou aquele trecho da avenida um pouco mais complicado do que o habitual. Também pudera, estava acontecendo um desses trotes universitários conhecidos como “pedágio”, onde os calouros vão pedindo uma contribuição de carro em carro, sob a vigilância ameaçadora dos veteranos. Daquela vez, pareciam ser estudantes da UNIGRANA, uma universidade que ficava perto dali. Bem, o jeito era relaxar e entrar na brincadeira, dando umas moedas, concluiu ele, de dentro do carro.
Mas, um momento, o que era aquilo ali, no meio dos calouros? Ele esfregou os olhos pra poder enxergar melhor. Não, não pode ser. Aquilo era demais. Tudo tinha um limite. Indignado, ele ligou e pisca-alerta e desceu do carro, indo em direção aos estudantes. Ele não ia deixar uma coisa dessas acontecer em pleno século 21:
- Ei, vocês aí! Que pôrra é essa, hein? - ele gritou pro grupo de veteranos que estava contando o dinheiro até então arrecadado.
- Calma, tio! - um deles respondeu, assustado.
- Calma o cacete! Podem parar com isso, já!!!
- Mas é só um pedágio… Ninguém tá batendo em ninguém aqui, relaxa. Tá tudo na maior normalidade e…
- Como normalidade? E aquilo ali, no meio dos calouros? - ele apontou pra um pessoal que estava colado na janela de um carro, implorando por alguns trocados.
- Ah, o senhor deve estar falando do Zezé…
- Zezé?
- É, um dos calouros.
- Não, meu filho, eu estou falando daquele chimpanzé ali, que está no meio dos calouros!
- Então, o Zezé, que é um dos nossos calouros, lá da UNIGRANA.
- Olha aqui, seus moleques, não tem graça essa brincadeira! Usar um bicho indefeso pra ficar andando no meio do trânsito… Olha lá, todo pintado, com metade do pêlo raspado e… - nisso chegou um homem mais velho, interrompendo a discussão:
- Olá, tudo bem? Vejo que está acontecendo um mal-entendido aqui.
- Não tem nenhum mal-entendido aqui, meu senhor. Tem sim um caso de maus-tratos com um animal. Quem é você???
- Sou o dono do Zezé.
- Ótimo, então já sei a quem responsabilizar quando a polícia chegar aqui. - ele começa a discar no celular.
- Calma, calma… vou explicar tudo.
- Não tem explicação! E esses imbecis aí - ele aponta pro grupo de veteranos - vieram tirar uma com a minha cara, ao falarem que o seu chimpanzé é calouro da universidade deles!
- Ué, e é a mais pura verdade!
- Como assim?
- Meu senhor, o Zezé fez um vestibular, passou nele, e agora está aqui, comemorando o feito com os novos colegas.
- Ah, isso é impossível. Nem vem!
- Olha, eu confesso que, até uns anos atrás, eu também achava essa possibilidade bem remota. Mas, depois que vi passarem no vestibular um analfabeto e um menino de oito anos, eu perguntei a mim mesmo: porque não o Zezé? Ele é tão esperto, aprende com tanta facilidade os truques que ensino…
- E como a universidade permitiu isso?
- Ah, não sei, mas o fato é que, da inscrição para o vestibular até a matrícula, ninguém lá da UNIGRANA se opôs ao fato do Zezé se tornar mais um aluno deles.
- Que coisa… Mas… como ele conseguiu fazer a prova?
- Ah, foi mole. Ele ia apontando pra todas as alternativas que ele achava que estavam certas.
- E como foi o desempenho dele?
- Não sei, não teve como avaliar isso.
- Como assim?
- Ah, brincalhão e impaciente do jeito que é, o Zezé acabou comendo o cartão de respostas. De qualquer forma, ele teria que sair lá da sala da prova mesmo, já que não parava de jogar cocô nos outros concorrentes.
- Bem, mesmo assim, ele foi aprovado?
- Ah, sim. Viram potencial nele, apesar de tudo. Bem, foi o que disseram pra mim, quando fui levar o cheque da matrícula lá na UNIGRANA, semana passada. Olha ele vindo aí… Vem cá cumprimentar o moço, Zezé. Vem! - andando no típico passo da espécie, ele se aproximou, evidenciando um “Direito - UNIGRANA” pintado na testa.
- Oi Zezé, tudo bem? Parabéns pela sua conquista, viu? - felicitou o homem.
- Uh, uh, uh… ah, ah, ah!!! - respondeu o calouro, mostrando os beiços e coçando o rabo - bem ali -, enquanto aguardava por uma banana do dono. Ao pegar o que queria, voltou pra junto dos novos colegas, todo animado.
- Olha, desculpe aí pela minha reação do início, eu não sabia… - ele disse para o dono.
- Ah, imagina. O senhor não é o primeiro e nem será o último a estranhar… Com o tempo, o pessoal acostuma.
- Pois é… Bem, vou voltar pro meu carro, sucesso aí pra vocês!
- Opa, obrigado! Tenha um bom dia!
- Igualmente!
Mal voltou para o carro, ele viu um início de confusão mais na frente, com todo mundo correndo pra longe dali, calouros e veteranos. Estavam fugindo do novo aluno que, irritado com um motorista que se recusou a dar uma moedinha sequer, resolveu arremesar cocô pra tudo quanto é lado, surtadíssimo.
Coisas da integração. Numa UNIGRANA da vida, normal.