ZEZECO E PILIQUINHA
Causava impressão o tamanho daquela mulher, horizontalmente falando. Decerto que ela era mais uma paciente destinada a uma cirurgia de redução de estômago, como as outras duas que estavam na sala de espera daquele consultório. Dos pacientes que iriam se consultar com o hepatologista que atendia no mesmo lugar, parece que só havia ele mesmo, que estava aguardando por um transplante de fígado há meses. Mesmo sentindo-se péssimo pelo estado avançado de sua cirrose, conseguiu ter pena daquela mulher enorme que acabara de ver. E que parecia ter algo familiar na fisionomia poluída de gordura, lembrar alguém, sabe-se lá quem. “Ela me lembra a… não, não pode ser… impossível…” O mesmo ela parecia sentir em relação a ele, enquanto o encarava com a mesma indagação, desconcertada: “Ele me lembra o… não, não pode ser… impossível…”
Durante longos minutos, um ia medindo o outro, timidamente, tomando o cuidado para que os olhares não se encontrassem por muitos segundos. Um festival de canto de olhos e “não, não pode ser… impossível…” Até que um médico apareceu na entrada do corredor, anunciando o próximo paciente:
- José Carlos Pinheiros Verter!
A mulher encarou de vez aquele homem de aparência acabada, desconcertada:
- Zezeco! É você!!!
- Piliquinha! É você!!!
Zezeco e Piliquinha. Há trinta anos, o casal mais popular de Mequetrefe da Conceição, cidadezinha ao norte do Mato Grosso. Lindos e promissores, apaixonadíssimos um pelo outro, pareciam um desses casais de novela das oito. Ela, filha do homem mais rico da cidade. Ele, filho do prefeito, sucessor natural do pai. Encaixe perfeito. Quando faltava uma semana para o casamento, veio a notícia: a Piliquinha fora vista só de calcinha, entrando num canavial com mais três homens. Claro que, de papo em papo, toda a cidadezinha ficou sabendo do caso, inclusive o Zezeco, perplexo, que pensou estar de casório marcado com uma virgem. No segundo dia do escândalo, os dois, cada qual em horários e destinos diferentes, fugiram daquela cidade pra nunca mais voltarem. Ele não queria ser o corno da cidade. E ela, a vagabunda.
E assim, os dois foram se reencontrar trinta anos depois, naquela sala de espera de um consultório, irreconhecíveis. Ele pediu pro médico aguardar um pouco, pois ele tinha muito o que conversar com aquela mulher. Sentou-se ao lado dela, para que pudesse ver mais de perto aquele olhar que continuava o mesmo:
- Zezeco… mas… o que aconteceu com você? Olha o seu estado…
- É… meu fígado… Olha, eu comecei a beber pra te esquecer, sabe? Trinta anos bebendo, porre todos os dias, até chegar nesse ponto… cirrose… transplante de fígado… Por sua culpa.
- Meu Deus…
- E você?
- Comecei a comer toda vez que a saudade de você me apertava. Toda hora, quase todos os minutos do dia. Trinta anos nesse ritmo, Zezeco… Por sua culpa.
- Meu Deus…
- E Mequetrefe, como anda?
- E eu sei lá, Piliquinha? Fui embora pra nunca mais voltar. Naquela semana mesmo.
- Ah, é? Eu também. Que coisa… E você, se casou?
- Imagina… Tem como? Cada vez mais gorda e pensando numa só pessoa? Impossível. E você?
- Tá brincando, né? Que mulher iria querer um homem que fica de porre todas as noites, gritando “Piliquinha” sem parar?
Conversaram por mais uma meia hora, até que os médicos de ambos dessem um ultimato, pois não poderiam mais esperar. Nesse tempo, ela jurou que nunca entrou num canavial, ainda mais só de calcinha e com três homens. Se ele quisesse, poderia acompanhá-la num médico, de forma que se comprovasse a virgindade dela, ainda lá. Aquilo fora boato de gente invejosa, que queria vê-los separados, ela disse, entre lágrimas. Coisa de novela das oito. Não conseguiram chegar a uma conclusão sobre o porquê de nenhum ter procurado o outro nesses anos todos. Orgulho demais, decerto. Decidiram que não se encontrariam na saída e despediram-se trocando telefones.
Ela preferiu esperar por uma ligação dele. Pra espantar a tentação, jogou fora aquele papelzinho com o número. Se ele a amasse ainda, apesar de tudo, ligaria, ora essa. Ele considerou o mesmo, quando atirou no lixo o papel com o número dela, ainda na volta da consulta. Assim, por causa do orgulho mútuo, nunca mais souberam notícias um do outro. Ela conseguira emagrecer bem depois da cirurgia? Ele tinha conseguido um fígado novo? Não se conformavam com a dúvida, tomados por uma ansiedade absurda. Ele, de fígado novo, comendo feito um vira-lata esfomeado, sem parar, o dia inteiro. E ela, magrinha, tomando todas, enquanto berrava “Zezeco! Zezeco!”

June 23rd, 2008 at 4:19 pm
Putz, Tuca! Bom demais, como sempre. E de onde você tira esses nomes, hein? Huahuahuauaua…
June 24th, 2008 at 3:23 am
Você escreveu uma pérola…
Esse encontro no consultório foi demais. Típico caso de “paixão recolhida” x “orgulho ferido”.