FIAPO DE JACA

June 29, 2008

AMOR LTDA

O fato dele chegar tarde em casa todos os dias não era a única pulga que a atormentava atrás da orelha. Além disso, depois de literalmente engolir o jantar, ele ia direto para o notebook, de onde ficava teclando durante horas. Assim, dormia pouco e acordava bem cedo. Ela ficava intrigada ao vê-lo sair de casa bem disposto, apesar das poucas horas de sono. Parecia motivado, rumo a um encontro que o animava. “Aí tem”, as pulgas atrás da orelha gritavam em coro, cada vez mais. Cansada de mal conversar com o marido, cada vez mais sentindo-se uma figurante na vida dele, viu que era hora de ter AQUELA conversa:

- Luiz Mário, a gente precisa conversar…
- Tá, tá… Mas hoje não vai dar, tenho que responder a uns e-mails do trabalho, que vão me tomar um tempo considerável. Amanhã a gente se fala, pode ser? Amanhã, não. Deixa eu ver… terça que vem, ok? - ele respondeu, ainda mastigando um resto de comida e já encaminhando-se para o notebook.
- Não, não pode ser. Tem que ser hoje!
- Hoje não vai dar, Maria Amélia, eu já falei… os e-mails…
- Sei, os e-mails… sei… Ela gosta das suas mensagens, né?
- Ela quem, Maria Amélia? -
- A sua amante, Luiz Mário. - pronto, chega de ficar calada, ela concluiu.
- Você tá maluca???
- Ah, eu tô maluca? Você não fala comigo há meses. Não comparece mais na cama. Chega tarde todos os dias. E só abre um sorriso quando sai dessa porta pra fora. Você nem se preocupa em disfarçar o seu caso e vem me dizer que estou maluca? Ah, faça-me o favor! Não sou besta, não! Chega!
- Bem, já que você tocou no assunto, é melhor eu abrir o jogo então… - ele disse, levantando-se da cadeira, desligando o notebook. Conversa séria pela frente. Tensa.
- Finalmente! Então, quem é ela? É do trabalho? Da rua?
- Bem, não é exatamente “ela” por quem ando apaixonado… - nisso, a face dela ficou branca. Com as pernas bambas. Teve que se apoiar no braço do sofá.
- Minha nossa! Tá, você é gay!!! Como eu fui burra! Burra! Tava na cara! O seu jeito de cruzar as pernas, o seu modo de pegar no garfo, o…
- Calma, calma! Não é nada disso, Maria Amélia!
- Ué, se não é “ela”, só pode ser “ele”, Luiz Mário. Se bem que existe algo intermediário… É um travesti?
- Não é uma pessoa… Bem, como eu vou explicar?
- Aiai, é um animal? Zoofilia, Luiz Mário? Faça-me o favor!!! - ela protestou, escandalizada, pegando no colo o poodle deles.
- Olha, não é um ser, entende?
- É um objeto, isso. Li dias desses uma matéria de pessoas que gostam de fazer sexo com objetos. Teve até o caso daquele ator que deu entrada no hospital com uma cenoura entalada lá atrás e…
- Não envolve sexo com nada e com ninguém, entende? É algo sublime… Que vai além da carne, sabe?
- Não, não sei.
- Como vou explicar, é difícil…
- Tente, ora essa.
- Ok, eu estou apaixonado… pelo meu trabalho. Pronto, é isso, Maria Amélia.
- Hein?
- Eu ia pensar numa maneira mais adequada de te explicar isso.
- Trabalho, Luiz Mário? Como assim?
- Eu amo o meu trabalho, de paixão. Não quero saber de mais nada.
- Nem de mim?
- De ninguém. Não quero mais perder o meu tempo com coisas irrelevantes.
- Como o nosso casamento?
- Sim.

Seguiu-se um longo discurso dele a respeito dos pontos mais interessantes de seu trabalho. Comovido, disse, entre lágrimas, que hoje mesmo tinha entregado uma planilha perfeita, que mostrava a evolução da gestão financeira do segunto trimestre, concluindo que o momento era de apostar no investment grade das filiais asiáticas da empresa. No mais, os olhos brilhavam, fascinados a cada menção de estratégia bem-sucedida que ajudara a construir nos últimos meses. “Apaixonante, não?”

- Tá, e agora, o que fazemos? - ela perguntou, ainda desconcertada.
- Você fica aqui, levando a sua vida. E eu, no escritório.
- Você vai dormir lá?
- Ué, porque não? É lá que vejo a minha vida fazer sentido. É lá que tenho vivido os momentos mais felizes da minha existência. - ele admitiu, enquanto lançava um olhar terno para o seu notebook.
- Eu quero o divórcio! Chega!
- Tudo bem. - concordou, impassível.
- Olha, pra mim, você não existe mais. Se quiser, pode ir agora mesmo pro escritório. - ela disse, com um ar de desprezo.
- Hum… Não seria má idéia… Eu já tenho a chave de lá…
- Então vai, Luiz Mário! VAI!
- Putz… hoje não vai dar.
- O que foi?
- Os e-mails, lembra? É muita coisa. Vou perder muito tempo daqui até a empresa. Bem, com licença.

E lá foi ele para o notebook, com aquele olhar de colegial fascinado pelo primeiro amor.

June 25, 2008

SÉRIES? HOJE NÃO, OBRIGADO

Em termos de cultura pop, dizem por aí o melhor da vida está nos seriados. Do roteiro ao tratamento da imagem, muitas séries alcançaram um nível de excelência que em nada fica devendo aos filmes mais decentes lá de Hollywood. Bem, pode ser, quem sabe. Confesso que não tenho acompanhado série alguma, mesmo sabendo que estou perdendo momentos preciosos da minha vida ao ignorar aquela história genial que - cá entre nós- em nada vai mudar a minha existência. A todo momento, os antenados de plantão dizem coisas como:

- CARACA! Eu hoje vi o quinto episódio da sétima temporada de “Desperate Lost Houses”!!! Teve uma reviravolta, onde o pai da amante do John, após ser torturado pelo presidente dos EUA, revelou ser uma entidade asteca disfarçada de humano, só pra roubar os códigos que vão abrir pra um outro portal que…
- … que o quê?
- Putz, então… só no próximo episódio é que vão revelar o mistério.

Muitos amigos com os quais me identifico pelas idéias adoram esse mundo. Mesmo assim, eu prefiro continuar de fora, por uma razão muito simples: receio de viciar. Mesmo sabendo que isso me custará falta de assunto em algumas rodas de conversa, melhor assim. Afinal, quero continuar reservando meu limitado tempo livre pra coisas mais interessantes, a meu ver. Como sexo, por exemplo.

Ps: ok, a exceção, como sempre, fica pro meu São Seinfeld de Todas as Noites. Todas as temporadas, em DVDs originaizinhos da silva, aqui em casa. Yeah!

Tuca Hernandes | Meu Umbigo, Cultura Pop | 11:54 pm | Comente que eu te comento (2)

June 23, 2008

ZEZECO E PILIQUINHA

Causava impressão o tamanho daquela mulher, horizontalmente falando. Decerto que ela era mais uma paciente destinada a uma cirurgia de redução de estômago, como as outras duas que estavam na sala de espera daquele consultório. Dos pacientes que iriam se consultar com o hepatologista que atendia no mesmo lugar, parece que só havia ele mesmo, que estava aguardando por um transplante de fígado há meses. Mesmo sentindo-se péssimo pelo estado avançado de sua cirrose, conseguiu ter pena daquela mulher enorme que acabara de ver. E que parecia ter algo familiar na fisionomia poluída de gordura, lembrar alguém, sabe-se lá quem. “Ela me lembra a… não, não pode ser… impossível…” O mesmo ela parecia sentir em relação a ele, enquanto o encarava com a mesma indagação, desconcertada: “Ele me lembra o… não, não pode ser… impossível…”

Durante longos minutos, um ia medindo o outro, timidamente, tomando o cuidado para que os olhares não se encontrassem por muitos segundos. Um festival de canto de olhos e “não, não pode ser… impossível…” Até que um médico apareceu na entrada do corredor, anunciando o próximo paciente:

- José Carlos Pinheiros Verter!

A mulher encarou de vez aquele homem de aparência acabada, desconcertada:

- Zezeco! É você!!!
- Piliquinha! É você!!!

Zezeco e Piliquinha. Há trinta anos, o casal mais popular de Mequetrefe da Conceição, cidadezinha ao norte do Mato Grosso. Lindos e promissores, apaixonadíssimos um pelo outro, pareciam um desses casais de novela das oito. Ela, filha do homem mais rico da cidade. Ele, filho do prefeito, sucessor natural do pai. Encaixe perfeito. Quando faltava uma semana para o casamento, veio a notícia: a Piliquinha fora vista só de calcinha, entrando num canavial com mais três homens. Claro que, de papo em papo, toda a cidadezinha ficou sabendo do caso, inclusive o Zezeco, perplexo, que pensou estar de casório marcado com uma virgem. No segundo dia do escândalo, os dois, cada qual em horários e destinos diferentes, fugiram daquela cidade pra nunca mais voltarem. Ele não queria ser o corno da cidade. E ela, a vagabunda.

E assim, os dois foram se reencontrar trinta anos depois, naquela sala de espera de um consultório, irreconhecíveis. Ele pediu pro médico aguardar um pouco, pois ele tinha muito o que conversar com aquela mulher. Sentou-se ao lado dela, para que pudesse ver mais de perto aquele olhar que continuava o mesmo:

- Zezeco… mas… o que aconteceu com você? Olha o seu estado…
- É… meu fígado… Olha, eu comecei a beber pra te esquecer, sabe? Trinta anos bebendo, porre todos os dias, até chegar nesse ponto… cirrose… transplante de fígado… Por sua culpa.
- Meu Deus…
- E você?
- Comecei a comer toda vez que a saudade de você me apertava. Toda hora, quase todos os minutos do dia. Trinta anos nesse ritmo, Zezeco… Por sua culpa.
- Meu Deus…
- E Mequetrefe, como anda?
- E eu sei lá, Piliquinha? Fui embora pra nunca mais voltar. Naquela semana mesmo.
- Ah, é? Eu também. Que coisa… E você, se casou?
- Imagina… Tem como? Cada vez mais gorda e pensando numa só pessoa? Impossível. E você?
- Tá brincando, né? Que mulher iria querer um homem que fica de porre todas as noites, gritando “Piliquinha” sem parar?

Conversaram por mais uma meia hora, até que os médicos de ambos dessem um ultimato, pois não poderiam mais esperar. Nesse tempo, ela jurou que nunca entrou num canavial, ainda mais só de calcinha e com três homens. Se ele quisesse, poderia acompanhá-la num médico, de forma que se comprovasse a virgindade dela, ainda lá. Aquilo fora boato de gente invejosa, que queria vê-los separados, ela disse, entre lágrimas. Coisa de novela das oito. Não conseguiram chegar a uma conclusão sobre o porquê de nenhum ter procurado o outro nesses anos todos. Orgulho demais, decerto. Decidiram que não se encontrariam na saída e despediram-se trocando telefones.

Ela preferiu esperar por uma ligação dele. Pra espantar a tentação, jogou fora aquele papelzinho com o número. Se ele a amasse ainda, apesar de tudo, ligaria, ora essa. Ele considerou o mesmo, quando atirou no lixo o papel com o número dela, ainda na volta da consulta. Assim, por causa do orgulho mútuo, nunca mais souberam notícias um do outro. Ela conseguira emagrecer bem depois da cirurgia? Ele tinha conseguido um fígado novo? Não se conformavam com a dúvida, tomados por uma ansiedade absurda. Ele, de fígado novo, comendo feito um vira-lata esfomeado, sem parar, o dia inteiro. E ela, magrinha, tomando todas, enquanto berrava “Zezeco! Zezeco!”

Tuca Hernandes | Relacionamentos | 12:42 am | Comente que eu te comento (2)

June 18, 2008

ESTÉTICA NEO-BUSÓFILA

Quando percebi que começaria a andar de ônibus todos os dias, procurei encarar a situação de forma positiva, sob vários pontos de vista. O principal deles era que finalmente eu voltaria a entrar em contato com o povão, tirando de minhas observações inspirações para textos e mais textos. Seria o meu início tardio numa espécie de realismo? Naturalismo? Bem, nada disso aconteceu, pois vejo que continuo no tô-nem-aísmo, percebendo que minha antena fica desligada nessas viagens. Ao invés de colecionar eurekas que me inspirem parágrafos de observações sociológicas, prefiro brincar de diretor de videoclipes meio bizarros.

Como assim?

Descobri que pode ser interessantíssimo ouvir as músicas de meu MP3 player observando o pessoal no ônibus. Ao temperar imagens banais com uma música de meu gosto, fica a impressão de que aquelas pessoas fazem parte de algo maior. “Isso! Continuem assim, com esse ar cansado, bocejando. Perfeito pra esse solo do Miles Davis que estou ouvindo agora! Com as luzes do congestionamento da Marginal Pinheiros ao fundo então, melhor ainda! Oh, yeah!” E assim, tudo fica mais bonito, palatável. Do rock ao jazz nos ouvidos. Do velho à criança nos olhos.

E dessa maneira, desço do ônibus balançando a cabeça no ritmo do momento, certo de que assisti a um videoclipe bacana. E que ninguém nunca viu ou verá.

June 10, 2008

CINCO RAZÕES QUE LEVAM AO ABANDONO DO BLOG

Teste de Popularidade

Já conheci pessoas que somem apenas para provocar saudade nos outros. Quanto mais gente cobra a volta, a auto-estima esquisitona agradece. “Ufa, eu continuo fazendo falta, ainda bem.” Como blogs ainda são escritos por seres humanos - sei lá, eu acho, né? -, esse fenômeno vez ou outra pode acontecer na bobosfera. Nesses casos, a manobra pode ser arriscada: o coitado do autor, depois de meses sem atualizações de conteúdo, pode perceber que a presença dele nesse meio é tão imprescindível quanto nevascas numa plantação de cactos. Ou seja, ninguém se interessou em participar de um suicídio em massa para que os posts voltassem ali. Ninguém percebeu que ele deixou de escrever. Aliás, ele quem? Hein?

O Fantasma do Emprego

Definitivamente, esse é o maior responsável pela morte súbita de muitos blogs. Pouco antes de aceitar aquela proposta de trabalho, o cara tava lá, sossegadinho o dia inteiro, pensando nas melhores idéias que tomariam a forma de um post. Era possível fazer uma lista de espera de temas e assuntos a serem abordados no blog. Ou então, dos dois, três ou quatro blogs, cada qual com atualizações diárias, sem perda alguma de qualidade. Mas, a partir do momento em que é preciso acordar cedinho pra não perder o horário do trabalho,voltando tarde da noite pra casa, com um ânimo digno de quem acabou de freqüentar um velório, o tempo livre passa a ser gasto única exclusivamente com as necessidades primitivas do ser humano, como comer, beber e dormir. O blog, enfim, passa a configurar como prioridade cada vez menos fundamental. Bem, quem sabe nas próximas férias. Ou então, depois daquela temida reestruturação da empresa…

Desilusão com a Blogosfera

Pois é, havia um tempo em que as pessoas escreviam em seus blogs única e exclusivamente pelo prazer de compartilhar idéias, sem o mínimo interesse de capitalizar uma vírgula sequer. No entanto, alguns seres impuros passaram a considerar que, sim, poderiam ganhar alguns trocadinhos através de posts pagos e publicidade entre um texto e outro. Mercenários! Assim, os mais sensíveis ficaram tão enojados com essa postura, mas tão enojados que, como protesto, desistiram de seus blogs. Pronto, não se misturariam mais com essa gentalha. Mas, cá entre nós, o que os leitores fiéis do blog teriam a ver com tudo aquilo? Bem, pessoas sensíveis, pessoas sensíveis, vai entender…

Falta de Inspiração

Tudo parecia ir tão bem. Os assuntos, eram abundantes. O estilo, cada vez mais afiado. De criatividade então, nem se fala. Parecia que o cara tinha nascido para escrever, de tão natural que era esse dom nele. No entanto, quase sem perceber, tudo vai ficando um pouco mais difícil, sem um porquê definitivo. Aquela frase que sintetiza a sacada genial passa a demorar horas para ser finalizada, até chegar num ponto em que bem, não tem ponto… final… Apenas reticências… um monte de rascunhos e idéia nenhuma na cabeça… E… assim… Bem… É… olha, amanhã eu termino isso aqui… poder ser? Ou não…

“Eu só consigo escrever no meu PC”

Assim como existem aqueles que só conseguem usar o banheiro de casa, algumas pessoas só ficam à vontade pra escrever quando diante do seu próprio PC. Questão de hábito, sabe? Veja o meu caso. Eu, desde que arranjei um emprego há um mês atrás, quase não sento diante do meu PC. Durante o dia, fico usando o computador do trabalho. À noite, vou pra casa de minha namorada, onde, mesmo com outro computador ao meu dispor, não consigo escrever coisa alguma para o blog. É isso, quase todos os dias sem o meu pc - nada tendo a ver com falta de inspiração, teste de popularidade ou desilusão com a blogosfera -, caí no lugar comum do blogueiro que perdeu o fôlego e o ritmo pra atualizar uma linha sequer. Mas, como sou teimoso, olha eu aqui, finalmente, direto do teclado estranho, chegando à conclusão de mais um post. Interessante, não?

Tuca Hernandes | Blogs, Meu Umbigo | 11:56 pm | Comente que eu te comento (8)