A alimentação do Grande Crítico era composta basicamente de fígado de romancistas fracassados e cérebro de cronistas melancólicos. Pra acompanhar, apreciava um cálice com lágrimas de poetas humilhados, cujo estoque era feito em galões. Figura mais do que temida no meio literário, só ele, diante de seu currículo de incontáveis resenhas - milhões desfavoráveis e uma dezena elogiando, mas com ressalvas - poderia dizer o que era literatura e o que não era. Um indivíduo só poderia se apresentar oficialmente como “escritor” mediante a aprovação dele, ninguém mais. O Aspirante a Escritor acreditava piamente nisso, razão pela qual resolveu encarar o desafio: iria publicar uma obra somente se a mesma caísse no gosto do Grande Crítico, se Zeus quissesse.
Material ele já tinha. Pegou algumas crônicas que estavam na gaveta e as reuniu numa coletânea. Mostrou para os amigos, que adoraram. A parentada amou. Até o cachorro abanou o rabo ao ver aqueles papéis. Maravilha. Agora, só faltava levá-los ao Grande Crítico, para que pudessem receber o selo definitivo de qualidade, o último passo antes da publicação. Depois de meses de espera, finalmente o Grande Crítico resolveu recebê-lo, com a condição de que fosse breve o encontro, na sala-biblioteca dele. No entanto, mal entrou no recinto, foi convidado a se retirar, aos gritos. Perplexo, o Aspirante a Escritor pediu ao menos alguma explicação para aquela reação. O Grande Crítico o pegou pelo colarinho:
- Sinto cheiro de crônicas aí nesses papéis debaixo do seu braço! E isso não é literatura! É lixo! Você não é escritor! Suma daqui!!! Volte com literatura! Com LITERATURA!!! Chispa! - dito isso, antes de bater a porta, jogou um copo inteiro de lágrimas de poetas humilhados na cara do Aspirante a Escritor.
Apesar desse início desastroso, ele não desistiria. O Grande Crítico um dia haveria de reconhecê-lo como escritor. Ponto de honra. Ele tinha certeza que nascera pra isso. Tudo o que ele precisava era se exercitar no ofício, lapidando o estilo. Dessa forma, decretou o fim das crônicas em sua vida, anunciando que se tornaria romancista. Durante cinco anos, leu sem interrupções os maiores romances que a humanidade já produzira, dos russos aos finlandeses, dos clássicos aos contemporâneos, do naturalismo ao realismo fantástico. Releu tudo, inúmeras vezes. Sim, agora sabia o que era literatura.
Depois, por mais cinco anos, dedicou-se a escrever a sua obra-prima, diariamente, em turnos que mais pareciam uma maratona literária, tamanho o tempo dedicado ao preenchimento de seus capítulos. Depois de mais cinco anos de revisão, julgou que o trabalho estava pronto, irretocável. Mais de 500 páginas da mais genuína literatura. Mostrou o material para os amigos, que adoraram. “Gênio”, saudavam os mais exaltados. Alguns da família choraram de orgulho por ter um verdadeiro escritor entre eles. O cachorro já era outro, mas a animação era maior ainda que a do anterior, como provava aquele rabo que ia pra lá e pra cá, freneticamente, quando via aquele calhamaço.
Agora só faltava a opinião do Grande Crítico.
Dessa vez, esperou um pouco mais ainda pra ser atendido. Dois anos. Um pouco mais receptivo, dessa vez o Grande Crítico deixou que ele ficasse na sala, oferecendo até um pouco do cérebro de cronista melancólico que estava comendo. Pediu para que o Aspirante a Escritor deixasse os originais do romance em cima da mesa. Disse que, quando terminasse a leitura, entraria em contato, o que só foi acontecer depois de três anos. Ao responder a pergunta sobre o que ele enfim tinha achado daquela obra, o Grande Crítico foi direto:
- Bem, eu li apenas o primeiro capítulo e a metade do segundo. Lixo. Puro lixo. Não consegui ir adiante. Percebi que se tratava de mais uma subliteratura de um pseudo-escritor metido a moderninho. Olha, pra não dizer que seu material não teve utilidade nenhuma, eu usei parte dele como papel higiênico, já que o estoque daqui tinha acabado. O resto, foi pro lugar de onde merece não sair, nunca: o lixo. Você não faz literatura. Você não é escritor. Desista. Agora, queira se retirar.
Apesar de transtornado com aquele desdobramento, o Aspirante a Escritor não desistiria. Não era da índole dele fazer isso. Tudo bem, era preciso escrever mais. Ler mais, essas coisas. E lá foi ele lapidar o seu ofício, mais uma vez. Dez anos depois, nascia a sua obra definitiva. Que, como sempre, teve aprovação irrestrita dos amigos e parentes. E do cachorro do momento também. Um épico de 830 páginas, que o Grande Crítico finalmente aceitaria. Ledo engano:
- Fraquinho, fraquinho. Isso não é literatura. Logo, você não é escritor - sentenciou o Grande Crítico.
Bem, estava melhorando, pelo menos, dessa vez, deu a entender que lera a sua obra por inteiro. Estava no caminho certo. Ao trabalho então. O tempo foi passando, e o Grande Crítico ali, derrubando obra por obra: “Uma lástima”, “Patético”, “Constrangedor”, “Ruinzinho”. Pois é, parecia que o Aspirante a Escritor não sabia produzir literatura mesmo. Segundo o Grande Crítico, ele não era escritor.
No entanto, num belo dia, o Grande Crítico - que já estava bem velhinho, mas lúcido - , o recebeu com um sorriso radiante:
- Parabéns, você produziu literatura. Você é um escritor.
Finalmente, ele sentia-se à vontade para publicar o seu livro, agora um sofisticado romance de 1225 páginas. Tinha a aprovação daquele semideus do mundo literário. Resenhas elogiosas sobre a obra-prima dele, todas baseadas na opinião definitiva do Grande Crítico, invadiram os jornais e revistas. Gênio. No entanto, ao chegar na primeira prestação de contas junto a editora, teve uma surpresa. Não haveria uma segunda edição. Como a obra encalhara nas livrarias, ela entraria num pacote de livros a serem vendidos por R$ 1,99. Queima de estoque.
Afinal, os pontos de vendas tinham que ter espaço suficiente nas prateleiras para a exposição de livros que vinham sendo um sucesso de vendas, como a “altobiografia” da Carla Perez, que já estava na 322ª edição.
E o Grande Crítico não achou lá essas coisas o fígado do romancista fracassado. Uma pena.