FIAPO DE JACA

September 28, 2007

JAMELÃO

Talvez eu tenha um determinado senso pra perceber o ridículo que está por vir. Caso contrário, eu não teria perguntado tanto ao eletricista sobre o material que ele me pedira:
- Jamelão???
- É, jamelão… Aqueles trocinhos pra prender o cabo da antena na parede…
- Nome estranho pra isso, hein? Tirando o cantor, tá mais pra nome de fruta… Você não tá fazendo confusão aí, não? Tem certeza que o que você quer é jamelão mesmo?
- Tenho sim, mano… Vai por mim… em qualquer loja de material de construção o pessoal sabe o que é isso. Jamelão, tá ligado?
Um pouco mais tarde, no balcão da loja, pergunto pro rapazote pré-adolescente que me atende:
- Vocês por acaso… teriam… jamelão?
O rapaz me responde entre gargalhadas:
- Pô, isso não existe… Caramba, fizeram isso com você também?
- Isso o quê???
- Mandar comprar jamelão! Sacanagem, hein?
- Como assim?
- Semana passada, me pediram pra ir comprar jamelão também, num bar perto de casa. Putz, paguei o maior mico! Que nem você, agora…
- Não é possível. O cara que me pediu isso vive prestando serviço pra minha família. Não brincaria assim comigo…
- Olha… acho que ele brincou sim, viu? Ah, brincou sim! – e tome mais risada do moleque, que parecia o espectador de alguma pegadinha.
Imaginei que, por ser novinho, ele ainda não estava íntimo dos termos complexos que usavam pra denominar certos materiais. Pedi pra ele chamar outra pessoa capaz de me auxiliar. Veio um moço mais velho, esse sim experiente no ramo, provavelmente cansado de saber que jamelão não era somente o cantor ou a fruta, pensei:
- Jamelão? Nunca ouvi falar disso… – bem, esse pelo menos deu um risinho discreto.
- Mas… o eletricista me disse exatamente esse nome. Eu até estranhei, mas ele me jurou que era isso mesmo.
- E pra que seria esse tal jamelão?
- São uns trocinhos pra prender o cabo da antena na parede…
- Ah, já sei! O que você quer, na verdade, é um miguelão!
- Miguelão???
- É, são aqueles trocinhos ali, que prendem o cabo da antena na parede, tá vendo?
Ao sair da loja, não sei se isso foi fruto de minha paranóia, mas eu poderia jurar que eu conseguia ouvir as gargalhadas do atendente mirim, sufocadas pelas paredes do escritório ao lado do balcão. Talvez eu venha a fazer parte dos assuntos dele, no recreio do colégio:
- Pô… ouve essa. Esses dias foi um cara lá na loja pedir… jamelão!!!!
- Sério??? Putz!!! Hahahahaha
Minutos depois, ao entregar os dois pacotes de jamelão, digo, miguelão, na mão do eletricista, quis alguma satisfação, é claro:
- Pôrra, eu não te disse que não existe jamelão, a não ser o cantor ou a fruta???
- Como assim? E o que é isso aqui???
- Isso é miguelão, mané! Miguelão! Até deram risada de mim lá na loja quando fui pedir jamelão…
- É mesmo??? Pô, foi mal. Jamelão, jambolão, miguelão, sempre me confundo… Então deram risada de você, é?– e ele gargalhou, também.

E você, amiguinho ou amiguinha, já conseguiu fazer alguém feliz hoje também???

(Texto escrito em 26/04/2006)

Tuca Hernandes | Comportamento | 9:00 am | Comente que eu te comento (10)

September 25, 2007

BLOGUEIRO MERCENÁRIO

- Rapaz, dei uma conferida hoje no seu blog, o “Hiato de Vaca“. Que papelão, hein?
- O que foi? Teve algum texto lá que te ofendeu?
- Não é isso, são aqueles anúncios, que não existiam até a semana passada. Ridículo. Não esperava isso de você.
- Ué, qual o problema?
- O seu blog tinha um charme, aquela aura de coisa descompromissada, sem essa de querer lucrar em cima dele. Esse aparente desinteresse financeiro era nobre, sabe? Agora, eu, como leitor, sou obrigado a ver esses anúncios horríveis do Google.
- Ah, esses anúncios, na verdade, pelo que sei, são acessados mais pelo pessoal que não é leitor do blog em si. Sabe aqueles paraquedistas do Google, que caem na sua página após uma busca qualquer e ficam lá só por alguns segundos?
- Sei…
- Então, são esses que realmente vão clicar nos anúncios. Eu, por exemplo, nunca acessei esses links. Se te incomodam, faça como eu: ignore-os, que não foram feitos pra você. Relaxa.
- Eu sei, mas, sei lá, a meu ver, atrapalham na leitura sim. Difícil não deixar de notar algumas mensagens picaretas, dessas que prometem ganhos de 50 salários mínimos trabalhando em casa. Broxante. Um conselho, meu caro: remova esses anúncios, senão você vai perder leitores, como eu.

- Quanta sensibilidade, hein? Um quadrinho qualquer acima do texto, pra você, compromete o resto da leitura, logo abaixo?
- Sim, compromete.
- Olha, em qualquer mídia que se preze, existe propaganda. Não acha justo que o responsável pelo conteúdo não ganhe alguns centavos por aquilo que muita gente vai apreciar?
- Ih… você, falando desse jeito, parece que está se achando “o escritor”. Menos, menos, por favor… O “Hiato de Vaca” é apenas um blog mediano, com textos ora legaizinhos, ora razoáveis. Não mais que isso. Fica bom quando não envolve grana. Agora, do contrário, perde a graça.
- Bem, os anúncios continuarão lá. Quem sempre gostou dos meus textos, mesmo, vai continuar me acompanhando.
- Bem, lamento… Eu jamais colocaria textos meus no meio de coisas como “Quer ter ereções agora mesmo, em 5 vezes sem juros? Pergunte-me como!”. Jamais.
- Ah, sem problemas. Na verdade, estou curioso pra saber o quanto esse esquema de anúncios vai render em alguns meses, num blog de pouca visitação feito o meu. Do resto, nada mudará.
- Sei… vocês, blogueiros, são todos iguais. Dão uma de desinteressados quando, na verdade, gostariam mesmo é de serem entrevistados no “Programa do Jô”, pra divulgar mais um livrinho de “crônicas reunidas”. Hunf.
- Rapaz, faça o seguinte, se não quiser acessar mais o blog, não acesse, pronto.
- Sim, já não sou mais leitor. Um blog no estilo diarinho virtual, desses escritos por adolescentes miguxos, tem mais dignidade que o seu, que acabou de se integrar a classe dos vendidos. Não merece constar mais nos meus favoritos.
- Ok, ok. Vá ler então o blog da Carla Perez, vai.
- Ah, e tem outra coisa. Aquele texto engraçadinho que você escreveu, sobre dois caras discutindo o uso dos anúncios do Google, foi a coisa mais patética que já li nos últimos tempos. Num blog, pior do que usar publicidade, é recorrer a esses recursos pro aviso de certas novidades. Coisa mais manjada, hein?
- Ok, ok…
- Tsc, tsc…

Tuca Hernandes | Blogs | 1:05 pm | Comente que eu te comento (9)

September 21, 2007

AS REVISTAS DO FUNDO DO ARMÁRIO

Eles estavam na sala, concentrados, assistindo um filme iraniano com legendas em alemão. Na cena em que o mocinho contemplava o deserto em câmera lenta pela enésima vez, ela levantou-se de súbito, dirigindo-se ao quarto deles. “Só pode ter ido ao banheiro”, ele imaginou. Deu um pause no filme, apesar dela não ter pedido. Na volta, uma cena inusitada: ela ali, parada na frente dele, com aquelas revistas na mão. Sim, aquelas revistas. AQUELAS. O coração disparou. E agora?

- Plínio Ricardo, você pode me explicar o que essas revistas faziam no fundo falso de seu armário? - ele deu um stop no DVD, já preparando-se para tentar explicar a situação. Tentar, ora essa.
- Olha, Célia Regina… eu… eu… bem, é isso aí…
- Isso aí o quê? Você vem acompanhando tudo isso escondido de mim, é? - ela joga todas as revistas na cara dele, inconformada, espumando de raiva.
- Bem, é isso, eu costumo ver esse tipo de coisa também, como muita gente… Eu sabia que você não aprovaria.
- Patético… patético… e eu pensando que você fosse diferente. Mas não, é como qualquer um. As mesmas carências de um típico homem de classe média. Tosco!
- Ah, também não é o fim do mundo, né? São só umas revistinhas no fim das contas… E como você as descobriu? Deu pra ficar revirando as minhas coisas agora, é?
- Descobri por acaso, Plínio Ricardo. Por acaso! Hoje de manhã, eu tinha perdido a chave do carro, e queria ver se achava a cópia, nas suas coisas. Aí, eu encontro esse monte de porcaria… 
- Não é porcaria assim, vai. Tem muita coisa aqui, nessas revistas, que dá pra se aproveitar. Você mesma pode tirar proveito.
- Eu não estou ouvindo isso! Eu não estou ouvindo isso! Você, tão culto, tão bem informado, tão… Como pode?
- Nada a ver uma coisa com a outra, Célia Regina. Posso continuar sendo tudo isso ainda. Uma coisa não anula a outra. Entenda uma coisa, eu tenho necessidade de acompanhar tudo que está nessas revistas. É meu instinto, sabe? Preciso!
- Pra quê? Pra quê? 
- Você não vê a vida que eu levo? Você acha que estou feliz com tudo isso? Não!
- Bem, não dá pra querer tudo nessa vida… E onde fica aquela sua idéia de sempre ir atrás de coisas mais elevadas, culturalmente falando?
- Não basta a gente ficar discutindo filosofia na hora da janta. É preciso ir além, ambicionar algo mais.
- Ah, e você acha que essas revistas vão servir a esse propósito? Tá bom…
- Acho! Quero ser mais prático e direto, é isso aí!
- Que ridículo, Plíno Ricardo - ela começa a folhear uma das revistas - olha isso aqui, uma matéria que dá conselhos sobre networking, de acordo com o job, tendo em vista uma gestão focada em business corporation de forma que haja um choque de gestão que resultará num upgrade da carreira!? Cruz credo! Você, lendo esse tipo de coisa???
- Ótima matéria, dicas valiosas aí.
- Não quero acreditar que você tem colecionado edições da Você S.A., Plínio Ricardo! Isso, o sistema, não tem nada a ver com você! Você é um artista. Um poeta, que tinha resolvido viver com a venda de seus livros nas filas dos teatros e dos cinemas de arte! Lembra? E isso é lindo!
- Lindo é ter dinheiro no bolso, Célia Regina… Muito dinheiro.
- Você não era assim…
- Não era, não era. Mas agora eu quero aprender coisas diferentes, sabe? Quero me libertar dessa vida de… poeta. De ficar só contemplando a beleza das coisas, aplaudindo todo pôr-de-sol bonito. Isso tem me sufocado. Eu quero mais. Quero desafios, pressões no dia-a-dia, fechar negócios, negociar comissões, traçar estratégias de marketing pra atender da melhor forma os meus clientes, aprender a trabalhar em equipe. Enfim, um target novo a cada dia. É isso aí, uma nova vida. Apertar a gravata com gosto! Liberdade!
- Mas… e os seus livros? Aquele projeto de contar a estória de Lampião e Maria Bonita através de sonetos…
- Isso é passado, baby. Resquício desse sistema poético que me oprimiu durante anos. Nunca mais. Now, I’m free. Do you know what I mean?
- Mas… e essas Caras que você coleciona também? - nessa hora, as lágrimas já eram de luto.
- Preciso de uma referência. Um padrão de vida a ambicionar. Você não tem idéia como essa revista me motiva, Célia Regina! E tem outra.
- O quê?
- Não acho justo que só você leve uma vida de executiva. Que fique me sustentando aqui. Eu também quero um MBA!
- Mas esse tinha sido o nosso acordo, Plínio Ricardo. Eu seria a provedora do lar e você, o meu poeta em tempo integral, sempre disposto a complementar a minha vida cheia de atribulações. A minha válvula de escape. O meu Fernando Pessoa.
- Poesia, poesia… cansei.
- Bem, sendo assim, perdeu o sentido o nosso relacionamento. Você tem até amanhã pra levar as suas coisas daqui.
- Peraí, também não é assim, Célia Regina. A gente pode se entender ainda e…
- É assim, sim senhor. Se não tem mais poesia, não tem mais casa, nem mesada.
- Nem mesada???
- Nem um centavo…
-…
-…
- Oh, minha musa, permita-me jogar essas revistas no lixo, pois teu amor tem um vértice de capricho, cujos lírios florescem em meu sentimento, tão inebriado quanto o mais nobre ser em seu alento.
- Ai, que liiiiindo! Amei!

September 19, 2007

UMA OPORTUNIDADE ÚNICA PRA ALGUÉM ESPECIAL

“Você foi selecionado para conhecer um novo produto”, me disseram ao telefone, numa tarde qualquer, coisa de uns cinco anos atrás. Perguntei do que se tratava, como tinham conseguido meu telefone, essas coisas. Secamente, o homem disse que não poderia revelar maiores detalhes, por questões estratégicas. Pessoas do meu perfil, segundo ele, seriam fundamentais para a avaliação desse produto especial, que ocorreria no próximo sábado. Para isso, ele me passou o endereço e o horário do evento, ressaltando que, no fim, eu ganharia um brinde. Opa, brinde? Confirmei minha presença no ato. Afinal, eu não teria nada pra fazer no próximo sábado de tarde mesmo. Lucro certo.

Tá com paciência e curiosidade pra acompanhar o resto desse texto, inédito, que escrevi pra série “Colônia de Férias“, lá no blog do Marmota? Dê uma conferida então. Além de mim, outros autores foram também gentilmente convidados a preencherem com textos bacanas o espaço por lá, uma vez que o Marmota anda misteriosamente sem tempo para escrever todos os dias.

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E que tal:

Tuca Hernandes | Blogs, Memórias | 6:30 pm | Comente que eu te comento (4)

September 17, 2007

IGREJA DA GRAÇA MONETÁRIA

Nesse fim de semana vi uma das declarações de amor mais desconcertantes que alguém pode fazer por meio de uma tatuagem. Rapaz de coragem esse. Se ele trazia na pele um desses desenhos onde o nome da amada fica dentro de um coração? Que nada. Nenhuma referência à Fulana alguma. Como assim? O amor dele mirava outra coisa: dinheiro. O cara tinha um baita cifrão ($) tatuado nele. Em uma das bochechas. O que pode levar uma pessoa a esse ponto?

Fiquei imaginando se ele fazia parte de algum culto neo-liberal, onde o Deus Dinheiro, por intermédio de seus apóstolos do mercado financeiro, orientava seus seguidores a sempre realizarem boas ações. Ações essas que, uma vez valorizadas, seriam revendidas por, no mínimo, o triplo do preço. Aqui, “Deus lhe pague” teria um sentido mais amplo ainda. E os mais fanáticos seriam capazes de atos extremos pra demonstrarem ao mundo a sua devoção, como o rapaz que tatuou o cifrão na bochecha, símbolo aqui equivalente a cruz no cristianismo.

Caso a Igreja da Graça Monetária existisse mesmo, seria uma das mais sinceras. Afinal, a maioria das religiões que surgem por aí têm na verdade o dinheiro como razão pra captar fiéis. Falta de grana figura dentre as 3 principais razões pra pessoa virar religiosa, do nada. As outras duas são doença grave e dor-de-corno. Grande parte dos fiéis enxerga Deus como uma espécie de agiota que vai liberar aquele dinheirinho em troca de uma promessinha aqui ou ali. Não têm coragem de ir direto ao ponto, adorando o que de fato interessa – dinheiro – ao invés de deixarem a religião somente pra quem tem espiritualidade mesmo.

Mas quanto ao rapaz da bochecha tatuada com o cifrão, talvez ele tenha que usar um pouco mais de fé pra ser uma ovelha privilegiada do rebanho. Pois, ao se julgar pelas roupas dele, deitado em cima de um papelão na calçada, devia ser um mendigo ou algo parecido com isso. Uma imagem que não agradaria nem um pouco ao papa dele, Bill Gates.

(Texto escrito em 12/02/2006)

Tuca Hernandes | Curiosidade, Religião | 8:00 am | Comente que eu te comento (6)

September 12, 2007

CIDADÃO VET

Sou formado em Medicina Veterinária e gosto de escrever. Durante alguns anos, eu conjuguei esses dois elementos prestando serviços pra uma editora que publicava guias com produtos para animais, sobretudo rações e medicamentos. O meu papel era, basicamente, resumir o texto das bulas e rótulos, tornando-os inteligíveis sem a perda da, digamos assim, mensagem que o produto passava. Apesar desse perfil tedioso, esse trabalho, de alguma forma, me ajudou a ativar algumas regiões do meu cérebro esquisitinho, sobretudo aquelas relacionadas à escrita. Um belo exercício de gramática aplicada à veterinária.

Tudo bem, isso não me tornou um Machado de Assis na versão veterinária, é claro. Mesmo assim, ficou uma vontade de, um dia, criar algo mais autoral referente aos principais protagonistas de minha profissão: os animais. Assim, depois de um belo tempo mantendo o Fiapo de Jaca, comecei a considerar a existência de um blog onde eu escrevesse apenas sobre animais. Mas eu não pretendia fazer um estilo fofinho, cheio de fotos engraçadinhas de cãezinhos e gatinhos, com legendas açucaradas. Tampouco era a minha intenção posar de especialista do copy and paste, aquele que apenas vai publicando informações e textos técnicos encontrados por aí, caoticamente.

A minha intenção era fazer um meio termo, algo parecido com uma conversa despretensiosa, como se eu tivesse falando com meus melhores amigos a respeito de fatos sobre animais, seja lá de que espécie forem esses. Bem, um pouco sobre a minha profissão também. Sem frescura, sem empolação, como nos melhores bate-papos.

Bem, um dia eu teria que sair de toda essa teoria, afinal, quem não publica se complica, certo? Então, esse dia é hoje, em que começo a deixar público esse meu outro blog: Cidadão Vet. Sim, tá no comecinho, e muita coisa lá vai mudar ao longo do tempo, pra melhor. Não estranhem, pois lá eu assino como Marcelo, justamente o nome que está na inscrição do meu CRMV. Se o assunto não interessar pra você, bem como a forma de abordagem do mesmo, tudo bem, o Fiapo de Jaca continua por aqui, como sempre.

Então já sabe, estou lá também: Cidadão Vet.

September 10, 2007

DEIXA DE FRESCURA!

Às vezes tenho dó dos que têm muita sensibilidade. Pois, em muitos casos, pode ser muito chato perceber certos detalhes mais do que os outros. A pessoa fica no isolamento dos que enxergam demais, quase sem ninguém pra compartilhar aquilo que é tão óbvio, pra ela. Uma cegueira às avessas: incomunicável por ver demais. É como gritar gol sem ter alguém ao lado pra comemorar. Ou então, vaiar numa voz só. Descobertas e contemplações quase sempre solitárias. Essas pessoas, no caso de protestarem contra aquilo que só elas perceberam, recusando-se a entrar no mesmo tom da maioria que não viu nada, ouvem quase sempre a mesma resposta:

- Deixa de frescura!

Veja o caso dos que têm paladar apurado, por exemplo. Percebem temperos imperceptíveis pra maioria dos mortais. Sim, têm o privilégio de aproveitarem cada centímetro de uma boa comida. Ponto pra eles. Mas, e quando são obrigados a encararem aqueles pratos destinados a forrar o estômago de um batalhão, nada mais? Aí, são obrigados a suportarem cada centímetro de uma gororoba indigesta - pra eles - enquanto o pessoal ao redor, do paladar manco, engole tudo sem cerimônia, sorrindo. Bandejões de restaurantes universitários tão aí pra ilustrar bem essa situação.

Ainda no departamento dos sentidos, conheci tempos atrás uma pessoa que não suporta, no cinema, barulho de gente mastigando pipoca. E não é vindo somente daquelas figuras que mastigam feito um cachorro babão, bocão aberto, como se estivessem encarando um chiclete gigante. Por ouvir demais, ela confessou ter antipatia até pelo som do mais discreto comedor de pipoca. E, por reconhecer que qualquer protesto contra a entrada de pipoca nos cinemas seria algo tão solitário e bizarro quanto promover uma campanha pela absolvição da Suzane Ritchtoffen, ela prefere assistir filmes em casa mesmo. E sem boca alguma comendo pipoca ao lado, é claro.

Eu ia listar mais exemplos aqui, até além dos cinco sentidos, como no caso das pessoas que têm sensibilidade exagerada pra perceber o quão chatos certos indivíduos são, sofrendo mais do que a maioria na hora de suportar os mesmos. Mas paro por aqui, por não estar mais com a mínima paciência pra comentar sobre esse assunto. E pra você, que não gostou desse texto, principalmente da maneira como ele terminou, deixa de frescura, vai…

(Texto escrito em 12/04/2006)

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E que tal:

  • Ler ”As Fotos Vazaram, e Agora?”, partes 1 e 2, posts do Doda, autor do blog Bloda?
  • Ouvir o apelo de “Act Nice and Gentle“, uma interessante regravação que o duo “The Black Keys” fez de uma música do “The Kinks“? (bem melhor que a versão original, na minha opinião)
  • Conferir alguns contatos infames realizados com o atendimento online do Speedy, no blog “Saiu Gosminha“?

Tuca Hernandes | Comportamento | 8:40 pm | Comente que eu te comento (6)

September 5, 2007

A FAMÍLIA CALOTE

Você é mais uma dessas pessoas que trabalham adoidado para garantir um padrão de vida minimamente decente? Caso positivo, desconfio que grande parte de seus rendimentos sejam direcionados para o quesito moradia. Talvez você esteja fazendo uma economia heróica, seja para comprar o seu espaço à vista, seja para dar uma bela entrada naquele financiamento que vai lhe acompanhar por anos a se perder de vista. Quem sabe você já tenha feito tudo isso. Ou está no meio de alguns desses processos que relatei. Acho louvável tudo isso, mas, pra muita gente, você não passa de um trouxa. Isso mesmo, um completo otário. Explico. Descobri que existe um atalho pra se morar muito bem em um apartamento de três dormitórios, praticamente sem custos. Para tanto, basta seguir as instruções abaixo:

1 - Compre o apartamento através de um financiamento camarada, desses em que você pode dar uma entrada bem pequena. Comece pagando normalmente as primeiras prestações.

2 - Ao se mudar para o seu novo lar, deixe de pagar as prestações do financiamento. Paralelo a isso, ignore também todos os boletos do condomínio. Arranje um advogado que possa orientá-lo o máximo possível quanto aos seus direitos de permanecer no imóvel, mesmo depois de cinco anos de calotes sucessivos.

3- Parabéns, com a grana que seria perdida no condomínio e financiamento, você pode ter um padrão de vida bacana debaixo do teto que você não pagou, com todos os luxos que a classe média tanto persegue. Como um carro zero na garagem.

Essas dicas não saíram de minha imaginação. Eu apenas estou relatando exatamente o que meus vizinhos fazem. Vizinhos mesmo, no meu andar, colados ao meu apartamento. Quando me mudei pra cá, há cinco anos, eles já eram caloteiros. Na linha do “devo, não nego, mas foda-se, a justiça me protege”, continuam por aqui. Por não pagarem o condomínio, o custo disso acaba sendo repassado para o resto dos moradores, encarecendo um bocado a fatura mensal.

Tudo bem, eu sei que a inadimplência, muitas vezes, tem causas que fogem ao nosso controle. No caso de alguém que foi demitido, por exemplo. Se depois de um tempo não foi possível arranjar um emprego que possa manter aquele padrão de vida de antes, paciência. Vende-se o carro, muda-se pra um local que exija menos do bolso, essas coisas. E bola pra frente, como as pessoas íntegras fazem. Agora, ficar mais de cinco anos dando um calote que prejudica tantos outros, sem vergonha de exibir um padrão de vida invejável? Aí é falta de caráter mesmo.

Em cinco anos de convivência, porta ao lado, é impossível não reparar na vida boa que esses meus vizinhos levam. Os dois filhos vão de perua escolar para o colégio particular em que estudam. O mais velho, que deve ter uns dez anos, adora se exibir. Vive comentando comigo sobre o novo videogame que ele tem, bem como alguns recursos do computador dele, um bocado melhor que o meu, pelo jeito. Até celular, dos bons, o moleque já tem. Mais de uma vez o surpreendi ligando para a empregada, do elevador, apenas para avisar que ele já estava chegando. Um verdadeiro pequeno príncipe.

A mãe está com um corpinho enxuto, devidamente moldado na academia que ela freqüenta quase todas as tardes. A TV a cabo deles é via gato, obviamente. Em quase todo fim-de-semana a Família Calote curte uma prainha, agora com todos devidamente acomodados no amplo e confortável carro zero-quilômetro adquirido semanas atrás.

O apartamento em que moram já não é mais deles, por causa das dívidas contraídas pela inadimplência do condomínio e do financiamento. Mas, e daí? Como bizarrices jurídicas os protegem, vão ficando. Quem sabe, estão agindo com os filhos da mesma forma que o pai fez no filme “Vida é Bela“, em que ele criava um mundo de fantasia para o seu menino, de forma que o coitadinho não percebesse os horrores de um campo de concentração nazista:

- Papai, o que é isso aqui, escrito “boleto de condomínio”?
- Então, filho, é um convite pro papai participar de uma gincana, onde as pessoas legais têm que encontrar um prêmio especial. Sabe esse vídeogame de última geração que você tem? Então, eu consegui dessa maneira. O nosso carro novo também. O mesmo pro silicone da mamãe.
- É verdade, papai?
- Sim, filhão.
- Legal!!!

Sim, a vida pode ser bela. Principalmente pra Família Calote.

Tuca Hernandes | Comportamento | 6:34 pm | Comente que eu te comento (12)

September 3, 2007

FINAL FELIZ

- Ué, então é isso? Acabou o filme?
- Ah, não me diga que você não gostou do fim.
- Odiei. Horrível! Não é possível! Se houver um mínimo de bom senso nesse mundo, as luzes aqui desse cinema voltarão a se apagar, e o filme vai continuar, acabando decentemente!
- Deixa de ser radical. Eu achei bem original a forma como ele terminou… Ousada! Genial! Vocês, mulheres, hein? Sempre com essa mania romântica de exigir final feliz pra tudo…
- Não acredito que você gostou dessa porcaria. Tô pasma! Você achou legal que no fim o mocinho tenha morrido e a mocinha tenha acabado sozinha, num hospício, sem ninguém??? Ridículo!
- Mas entenda algo. Filme pode ser uma obra de arte também. E como tal, pode nos levar à reflexão. Nem todo filme tem a obrigação de mostrar uma história onde o amor e o bem sempre vencem. Você sabe que na vida real nem sempre é assim.
- Mas acontece que me disponho a assistir um filme justamente pra fugir da vida real. Pelo menos naquelas duas horas, quero que o mocinho e a mocinha terminem felizes para sempre! Quero não, exijo! Ah, e que o vilão tenha uma morte bem merecida!
- Tá bom, raciocinando por aí, você deve adorar filme pornô então…
- Por quê?
- Ora essa, em qualquer pornozão os finais sempre são felizes. Até demais. Eu, pelo menos até hoje, nunca vi um pornô onde o mocinho termina broxa, sentado na cama, ao lado da mocinha desapontada, dizendo, como última fala, “Meu bem, isso nunca me aconteceu antes…”
- Mas que comparação grosseira, hein? Isso é só mais uma prova do quão insensível você é. Romantismo tá em falta aí…
- Insensível? E se eu tivesse torcido pelo casal nesse filme que a gente acabou de ver? A sua opinião sobre mim seria diferente?
- Completamente. Onde já se viu? Achar o máximo a morte de um cara tão bonito e inteligente como aquele, deixando solitária e louca aquela mocinha tão doce e delicada?
- Ah, ok. Então quer dizer que se eles fossem feios, a coisa mudaria de figura?
- Tolinho. Gente feia não forma casal principal em filmes. Gente feia, no máximo, ganha destaque como vilão.
- Engano seu, já vi muito casal feio formar o par principal do filme. E filme romântico ainda!
- Ok, me dá um exemplo então…
- Dias desses eu vi um filme tchecoslovaco sobre um filósofo angustiado e banguela que acaba se envolvendo com uma prostituta careca vinte anos mais velha que ele. E foi uma das histórias mais lindas de amor que já vi, impressionante. Ganhou prêmios em tudo quanto é festival de cinema.
- Credo. Aposto que no fim um dos dois morre, pra você ter gostado tanto.
- Que nada. O filme termina com os dois adotando cinco porquinhos órfãos, pra todos viverem felizes no apartamento filosófico do mocinho, provando, de maneira bem sutil e genial, que o amor não tem barreiras até entre espécies animais. Maravilhoso…
- Típica história de filminho europeu pra arrancar aplauso de pseudo-intelectual da USP… Típico…
- Bem melhor que esses filmecos de Hollywood que você tanto adora. Tudo a mesma coisa, previsível.
- Fazer o quê, né? Eu gosto de ver gente bonita e se dando bem. De realidade, já basta a sua companhia.
- O que você quer dizer com isso???
- Nada, esquece… Vem cá, me dá um beijo daqueles, vai. Pelo menos um final feliz pra esse papo chato.
- Um beijo hollywoodiano?
- Isso!!! Que nem aquele beijão entre o Rhett Butler e a Scarlett O’Hara em “E O Vento Levou”…
- Mas eles não tiveram um final feliz…
- Cala a boca e beija logo!!!

(Texto escrito em 19/03/2006)