PELO MUNDO, ORA ESSA
Uma cena que vi na rua. Apenas mais uns cinco passos adiante e ela encontraria um cesto de lixo. No entanto, num gesto de simples desprezo, preferiu jogar a lata vazia do refrigerante no meio da calçada mesmo, antes de entrar naquele belo carro com a filhinha, que devia ter ao redor de sete anos. Triste. Se considerarmos que os pais servem de modelo para os seus filhos, é bem provável que essa menininha já ache normal jogar lixo no meio da rua. Pra mim, o episódio da lata evidencia aquela pontinha da linha que, se puxada, traz lixos ainda maiores. Daquela mulher, eu só vi a lata rolando da calçada pro asfalto. Ainda assim, o suficiente pra revelar o quão frágeis devem ser os valores que ela passa pra filha, no dia-a-dia. Assim, daqui uns anos, a menina se tornará mulher, terá filhos, e… jogará latas de refrigerante pela calçada, na frente de sua prole. E o bastão continuará seguindo. A eternidade dos imbecis agradece.
Paralelo a isso, vejo pessoas bacanas, cientes da importância de não sacanear com o próximo - ou distante, o que for - absolutamente decididas a não terem um filho. Adoção então? Igualmente fora de questão. Servir de tutor ou padrinho pra alguma criança carente? Também não. Nada. Muitos desses alegam que o mundo já tem gente demais, que os recursos naturais estão se esgotando, blábláblá. Opinam com a nobre justificativa de estarem pensando no mundo de amanhã. O argumento Greenpeace. Considero mais convincente alguém declarar que simplesmente não gosta de crianças. Que, por nada desse mundo, abrirá mão de sua liberdade, jamais em risco por causa da fralda que encheu ou a febre que não cedeu. Que, por alguma razão genética, não acharia uma boa idéia botar um ser cheio de falhas nesse mundo árido. Tudo bem. Agora, alegar um desapego total enquanto que imbecis como a mulher do parágrafo acima continuam a se reproduzir, passando seus valores toscos pra geração seguinte? Acho injusto isso. Injusto com o mesmo mundo que tanto dizem defender.
O que fazer? Chamar o Batman? Não, o jeito é combater a patrulha medonha, sendo responsável - na medida do financeiramente possível - por pessoas mais comprometidas em fazer desse nosso planetinha besta um lugar mais agradável, em todos os sentidos. É bem mais fácil gerar uma pessoa bacana do que tentar consertar um babaca. E, francamente, já basta os Bushs da vida e seus seguidores pra percebemos o quão nociva pode ser a escassez de pessoas de cuca legal em nosso mundo. Que, enfim, daqui uns anos, pessoas como o meu filho - que nem foi concebido ainda - possam chamar a atenção da filha daquela mulher que jogou a lata na calçada, ao apontar pro lixo a apenas cinco passos dela.
Ah, sim, eu gosto de crianças.
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E que tal:
- Ler “10 motivos para ler livros clássicos“, post do Alessandro Martins?
- Ouvir o lamento agridoce de “Blue“, música da banda “The Jayhawks“?
- Ver a saudosa Aracy de Almeida no “Show de Calouros” de Sívio Santos? (como bônus, o famoso calouro atrapalhado)

June 26th, 2007 at 7:28 am
Obrigado pela referência, meu caro!
Colocamos o homem na lua, mas ainda não conseguimos colocar uma lata de refrigerante no lixo na frente de nossos filhos. Um grande passo para a humanidade e um passo de ré para a reciclagem.
Abraços!
June 26th, 2007 at 12:17 pm
A idéia de jogar a latinha de volta pra mulher não me passou à cabeça, juro.
Não gosto de crianças. Não que não goste. Apenas não quero ter. Meus genes tem defeitos pertinentes à sobrevovência humana futura
June 26th, 2007 at 1:30 pm
Rapaz… Eu passo a maior parte do tempo explicando para pessoas conhecidas que fazem isso do quanto é prejudicial para todos nós.
Sempre começo perguntando:
- Em casa você também joga lixo no chão e sai andando?
…como a resposta normalmente é negativa, a pessoa volta, recolhe e coloca o lixo no lugar certo.
Ou sou convincente, ou muito chato
June 26th, 2007 at 3:08 pm
Fofíssimo esse post. E perfeito.
Sou super a favor de que as pessoas tenham filhos, mas conscientemente, planejando bem, se preparando em todos os aspectos, mas principalmente emocionalmente. Porque são essas pessoas preparadas, conscientes, que conceberão, gerarão, parirão e criarão (credo, ficou estranho!) os indivíduos que tornarão (again!) esse mundo melhor.
Quanto aos que dizem que não querem filhos, independentemente do motivo alegado e de o mesmo ser verdadeiro ou não, acho que não devem ter mesmo, ao menos enquanto pensarem assim.
Um filho tem que ser muito desejado. Minha filha foi, e ainda assim considero que eu não estava preparada. Comecei a correr atrás do prejuízo depois - e continuo correndo - e acredito muito que ela será um desses indivíduos que fará um mundo melhor.
Assim como seus filhos!
June 27th, 2007 at 9:02 am
e a ironia da coisa é ler, de tempos em tempos, notícias sobre pessoas que jogam os filhos recém-nascidos em latas de lixo. mesmo sabendo que bebês não são recicláveis.
o mundo está todo ao contrário mesmo.
June 27th, 2007 at 9:31 am
Não precisamos esperar que nossos filhos façam o que poderíamos, com um pouco de boa vontade, fazer: se você, por exemplo, tivesse agido como Fábio (aí do comentário acima), é bastante provável que, mesmo que não surtisse efeito sobre a tal mãe, a filha aprenderia que a atitude exercida por ela é, no mínimo, falta de respeito com o próximo.
July 1st, 2007 at 1:00 pm
O problema de hoje é o egoísmo. Quem quer ter filho tem que ensinar, sair de si mesmo e educar. Se até uma samambaia precisa ser regada, imagina um ser humano!E pra educar preciso muita dedicação mesmo, tem que estar ali, pertinho, cultivando aquele ser, encaminhando, só ver no final do dia não é o suficiente, por mais que muitas mulheres se irritem com isso, mas é a verdade. Se não for assim o resultado é essa coisa horrorosa que se tem visto por aí,crianças e adolescentes que parecem saídos das cavernas, que batem nos professores e não tem nem as noções básicas de convivência social.
Gostaria de recomendar dois blogs muito interessante, o blog de arte da pintora www.JayrTherezinha.blogspot.com, e o do meninodolho que é super divertido.
Beijo. Alice