FIAPO DE JACA

June 29, 2007

PRA ONDE FOI O MEU DINHEIRO?

Trabalhamos para ganhar dinheiro, é óbvio. Concordo que, além da remuneração, muitas coisas podem estar na balança também, de forma que achemos um bom negócio continuarmos num determinado emprego ou prestação de serviços. Mesmo assim, dinheiro continua sendo o objetivo primordial, uma vez que sem ele deixamos de fazer coisas básicas nessa vida, como comprar um belo livro, jantar num bom restaurante, e - por que não? - pagar um plano de saúde decente, sem preocupações com as prestações do aluguel e do carro. Dessa forma, aquela grana que conseguimos, através de nosso esforço, torna-se fundamental. A valorizamos horrores, e com razão. É nossa, e ninguém tasca. Pois bem, tascaram de mim, no decorrer dessa semana, quando descobri que clonaram o meu cartão do banco.

Diante de uma situação dessas, há um misto de perplexidade com revolta. Afinal, aquele dinheiro, reservado pra fins nobres, obtido de forma honesta, acabou sendo utilizado pra custear o luxo de uns vagabundos. Não é justo. Ok, bem-vindo ao mundo. Não conheço ladrão desse perfil - sofisticado ao ponto de clonar cartões - que tenha utilizado a verba de seus desvios pra coisas, digamos assim, mais elevadas, de forma que sirvam como atenuantes do delito em si. Que nada. Jamais vão custear um complicado e caríssimo tratamento de quimioterapia do filho da vizinha. Comprar livros escolares para os seus filhos? Nunca. No fim, vão torrar tudo em práticas hedonistas, como farras na zona regadas a bebida e pó, viagens sem limite de quilometragem e crédito, e demais coisas no estilo living la vida loca.

Por causa disso tudo, me veio um pensamento meio bobinho enquanto eu saía do banco, que se prontificou a restituir o meu prejuízo, que, no fim das contas, não foi tão significativo assim. Quem sabe, com a minha grana, o ladrão não teria, por exemplo, comprado alguns discos dos Beatles? Uns DVDs do Seinfeld? E que tal todos os livros do Machado de Assis? Guimarães Rosa? Nelson Rodrigues? Chico Buarque? E a nova safra da literatura nacional? Legal, não? Já imaginou, eu, de alguma forma, servindo como uma espécie de mecenas de alguém que, necessitado de mais cultura na sua vidinha sem perspectivas de emprego, resolveu recorrer ao desespero de clonar cartões? Imaginem o drama, algo perto de alguma tragédia grega que talvez ele tenha comprado também. Pois é. Mas tamanho delírio durou apenas uns segundos. No fim, a cena que perdurou mesmo foi a de um cara com extremo mau gosto pra roupas e músicas, analfabeto funcional, que dançava ao som de uma canção brega qualquer, no meio de umas prostitutas tão chapadas e fúteis quanto ele.

Ser tosco, tudo bem. Mas com o meu dinheiro não, pô!

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E que tal:

June 26, 2007

PELO MUNDO, ORA ESSA

Uma cena que vi na rua. Apenas mais uns cinco passos adiante e ela encontraria um cesto de lixo. No entanto, num gesto de simples desprezo, preferiu jogar a lata vazia do refrigerante no meio da calçada mesmo, antes de entrar naquele belo carro com a filhinha, que devia ter ao redor de sete anos. Triste. Se considerarmos que os pais servem de modelo para os seus filhos, é bem provável que essa menininha já ache normal jogar lixo no meio da rua. Pra mim, o episódio da lata evidencia aquela pontinha da linha que, se puxada, traz lixos ainda maiores. Daquela mulher, eu só vi a lata rolando da calçada pro asfalto. Ainda assim, o suficiente pra revelar o quão frágeis devem ser os valores que ela passa pra filha, no dia-a-dia. Assim, daqui uns anos, a menina se tornará mulher, terá filhos, e… jogará latas de refrigerante pela calçada, na frente de sua prole. E o bastão continuará seguindo. A eternidade dos imbecis agradece.

Paralelo a isso, vejo pessoas bacanas, cientes da importância de não sacanear com o próximo - ou distante, o que for - absolutamente decididas a não terem um filho. Adoção então? Igualmente fora de questão. Servir de tutor ou padrinho pra alguma criança carente? Também não. Nada. Muitos desses alegam que o mundo já tem gente demais, que os recursos naturais estão se esgotando, blábláblá. Opinam com a nobre justificativa de estarem pensando no mundo de amanhã. O argumento Greenpeace. Considero mais convincente alguém declarar que simplesmente não gosta de crianças. Que, por nada desse mundo, abrirá mão de sua liberdade, jamais em risco por causa da fralda que encheu ou a febre que não cedeu. Que, por alguma razão genética, não acharia uma boa idéia botar um ser cheio de falhas nesse mundo árido. Tudo bem. Agora, alegar um desapego total enquanto que imbecis como a mulher do parágrafo acima continuam a se reproduzir, passando seus valores toscos pra geração seguinte? Acho injusto isso. Injusto com o mesmo mundo que tanto dizem defender.

O que fazer? Chamar o Batman? Não, o jeito é combater a patrulha medonha, sendo responsável - na medida do financeiramente possível - por pessoas mais comprometidas em fazer desse nosso planetinha besta um lugar mais agradável, em todos os sentidos. É bem mais fácil gerar uma pessoa bacana do que tentar consertar um babaca. E, francamente, já basta os Bushs da vida e seus seguidores pra percebemos o quão nociva pode ser a escassez de pessoas de cuca legal em nosso mundo. Que, enfim, daqui uns anos, pessoas como o meu filho - que nem foi concebido ainda - possam chamar a atenção da filha daquela mulher que jogou a lata na calçada, ao apontar pro lixo a apenas cinco passos dela.

Ah, sim, eu gosto de crianças.

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E que tal:

June 21, 2007

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Um simples “bibi” na buzina seria o suficiente pra avisar que o farol tinha aberto. Mas não, ele preferiu recorrer a um “Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Calma, Freitas…
- Calma, Pereira? Calma? Essa mula aí da frente parece que morreu. Que babaca.
- Mas o farol mal tinha acabado de abrir e você já começou a apertar essa buzina, pô!
- Mas esse imbecil aí da frente nem começou a andar e…

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Ô VIADO! Não sabe dar seta, não?
- Calma, calma…
- Calma? Você não viu o que esse otário fez? Viu?
- Pera lá, correndo do jeito que você está, impossível descobrir que você vem logo atrás. O pessoal é pego de surpresa e…

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Sai da frente, PÔRRA!!!
- Calma, calma…
- Calma? Esse povo parece que tá acompanhando um cortejo fúnebre. Bando de imbecis!
- Mas eles estão na velocidade normal… Você é quem está correndo, Freitas.
- É claro, ué. Tô com pressa. Você se esqueceu que a gente tem um encontro marcado com uns clientes? Os chineses? A gente tem que chegar a tempo, cacete! Sou um cidadão de bem e tenho que resolver o meu problema! O meu problema!!!
- Tá, mas os outros não têm nada a ver com isso…
- Ah, o resto que se dane!

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Freitas, Freitas… Um dia você vai acabar com calo nos dedos de tanto buzinar e dar farol alto…
- Ah, já tenho isso, olha aqui, ó. Ah, não! Mais um farol… Ah, dane-se!
- Olha aí. Você fechou o trânsito.
- Ué, o farol tava aberto quando eu segui em frente, vou fazer o quê? Tenho culpa se o trânsito não andou??? Me diz, vai! Eu tenho?
- Mas você podia esperar e…

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Ah, tão nervosinhos, é? Tá gostoso de buzinar pra mim, é? Olha aqui, eu sei buzinar também, gracinhas. – Bi! Bi! Bi! Bibi! Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! - Ah, vão tudo pro inferno! Aqui pra vocês, ó! Senta e roda nesse dedo aqui, ó!!!
- Não tiro a razão deles, Freitas. Você fechou o trânsito…
- Mas eu estou com um problema, cacete! Ninguém vê isso? Tenho que chegar a tempo pro encontro com os chineses! Esses otários que estão buzinando aí não têm idéia do que é ser o sub-gerente executivo de vendas da região sudeste. Eles, simplesmente, não têm!!!
- Freitas, todos nós temos problemas, não é só você que…
- Ah, finalmente andou essa merda! Tá, pronto, podem passar agora, bando de otários!!! OTÁRIOS! Ah, vai você! Aqui, ó! Senta e roda, sua vaca! VACA!!!
- Calma…

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- É demais, viu? Quem essa mulher pensa que é? Deve ser falta de homem, só pode ser! Ou inveja por causa do meu carro zero… Ou as duas coisas! VACA!
- Calma…
- Calma, Pereira? Aquela mocréia me mostra o dedo do meio e eu tenho que ficar quieto? Ah, faça-me o favor! Francamente!
- Foi o calor do momento… Além do mais, você tinha impedido a passagem dela, lembra?
- Meu amigo, tô pouco me lixando pra essa infeliz. Eu quero que ela morra, entendeu? Eu aqui, cidadão de bem com problemas a resolver, indo ao encontro dos chineses, e tenho que aturar chilique dos outros?
- Mas…

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Sai da frente, PÔRRA!!!
- Freitas, não tem lixo aqui no carro?
- Tem sim, por quê?
- Porque você jogou o maço vazio de cigarros na rua, agora?
- Por que a pôrra do meu lixo tá cheia! Não tive tempo de esvaziá-la, cacete! E, além do mais, não é um macinho vazio que vai sujar essa cidade!
- Tá, mas…
- Mas o quê, Pereira! Mas o quê? Vai continuar me enchendo o saco ou eu posso dirigir tranqüilamente? Vai parar com a viadagem ou não? Só não peço pra você sair do carro por causa dos chineses! Só você conhece eles! Se não, eu já teria te deixado em algum ponto de ônibus. A gente tá atrasado!
- Mas por sua causa, Freitas!

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Por minha causa???
- É, fiquei a manhã inteira te avisando lá no escritório pra gente sair com bastante antecedência. Você sabe como é o trânsito dessa cidade. Mas não, preferiu ficar lá enrolando, ouvindo a imitação que o Dias faz do Lula fanho e gago. Agora, fica aí reclamando que tá atrasado, fazendo zigue-zague entre os carros, buzinando e dando farol alto pra saírem da frente. Francamente!
- Mas Pereira, entenda uma coisa, de uma vez por todas. Não é todo dia que o Dias imita o Lula gago e fanho! Será que você não compreende isso? Ah, deixa pra lá. Você não entende nada. Nada! Atende o celular aí, vai.

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

- Ô corno! Não sabe dar seta não? CORNO! Mas, e aí, Pereira, quem era?
- O representante dos chineses. Eles vão chegar atrasados pro encontro. Algo em torno de uma hora. Pronto, não precisa correr mais não. Ué, pra quem você está ligando?
- Pro Dias. Quero ver se ele faz aquela imitação do Maluf com faringite.
- Mas, Freitas, precisa parar em fila dupla pra ouvir isso?
- Ah, eu tô dando o sinal de pisca-alerta, Pereira. Pisca-alerta! Relaxa. A gente tá com tempo.
- Mas… Olha aí, parou o trânsito…
- Pereira, você não está entendendo. Quando o Dias faz o Maluf com faringite, é preciso concentração total pra ouvi-lo. Concentração total! Deixa essas bichinhas buzinarem aí atrás. Esse pessoal não tem idéia do que é ouvir o Maluf com faringite.
- …
- Alô, Dias? Freitas falando. Belezinha pura? Então…

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E que tal:

 

Tuca Hernandes | Comportamento | 11:20 am | Comente que eu te comento (8)

June 19, 2007

O GORDINHO ATENTO

Aos doze anos, eu já gostava de bolar umas estorinhas. Sendo assim, nada mais natural que eu me incubisse da tarefa de fazer o roteiro daquele trabalho de educação artística. Simples, bastaria inventar um enredo qualquer pra um teatro de marionetes. A meu ver, o mais difícil seria comprar os bonecos. Ah, mas isso ficaria com o resto do pessoal do meu grupo. Pros não-criativos. No entanto, dias depois, haviam os atores em forma de pano, mas não um enredo pra eles. Sim, eu me revelei um fiasco como roteirista de marionetes, zero de idéias. Como eu tinha um nome a zelar, resolvi recorrer a uma fonte certa: antigos gibis da Turma da Mônica. A minha estorinha estaria ali. Dito e feito.

Logo depois dos aplausos na apresentação na escola, um gordinho loiro e com jeito de nerd veio falar comigo, me dando os parabéns. Mas pelo plágio, muito mal disfarçado, segundo ele. Assim, fui desmascarado, com direito a um inesquecível sorriso irônico por parte do meu acusador. Eu, uma farsa. Criativo? Uma ova! Putz.

Desde então, a imagem do gordinho me acompanha toda vez que me disponho a criar algo. Como se ele ficasse em cima dos meus ombros, feito o grilo da consciência, lendo cada palavra que digito aqui, por exemplo. E, de alguma forma, é bom sentir essa espécie de paranóia, pois me mantém longe de reproduzir algo que alguém já criou. Ajuda a manter o que sou, sem a tentação de aditivar o meu ego através de frases ou idéias que não são minhas. Do que aparece aqui, bom ou ruim, não importa, é coisa minha e assino embaixo. E isso me faz bem, ao saber que não dou motivos pro gordinho esboçar aquele mesmo sorriso irônico de “arrá, te peguei!”.

Logicamente que muito dos temas que aparecem por aqui já foram abordados mídia afora, nos jornais, revistas, blogs, etc. É raro desenvolvermos algo que tenha uma essência totalmente original. Eu ainda acho que a idéia do Miojo Coreano foi a única coisa realmente original que desenvolvi desde quando percebi que poderia brincar de cronista. Seja lá como for, tenho a consciência de que não inventei a roda, mas posso tentar girá-la de formas diferentes. Se não costumo ser Einstein na idéia em si, que pelo menos eu possa ser um bom funcionário no desenvolvimento dessa. Nem que eu tenha que apelar pra analogias medonhas, como as que eu acabei de fazer. Mas tem quem goste, ainda bem. Como você, desconfio eu, que acabou de chegar ao fim do quarto parágrafo desse texto. Parabéns.

Enfim, o que eu quero dizer é que às vezes dá um trabalho danado bolar algo que seja 100% nosso. Mas vale a pena, pois no fim, as pessoas reagiram a mim, pai daquelas frases. Não para aquela citação que pouca gente conhece, vinda de outro autor. Por isso que eu não entendo o prazer que muita gente sente ao plagiar textos por aí, no todo ou parcialmente, assinando-os como se fossem seus. Que graça essas pessoas vêem ao receber os parabéns por algo que não fizeram? Isso, pra mim, é mais ou menos como alguém deixar que a mulher transe algumas noites de olhos vendados com um garanhão qualquer, pensando que é o marido. No fim, pra agradecer os orgasmos múltiplos, ela cobre de beijos o corno, que fica todo orgulhoso ao receber os créditos daquilo que não fez. Eu, hein? Tô fora.

Pros crescidinhos que ainda brincam de xerox ambulante pelo mundão da internet, colocando seus nomes no lugar do autor original, resta lamentar. Talvez tenha faltado um gordinho atencioso em algum ponto da infância desse pessoal, enquanto recebiam, injustamente, mais uma salva de palmas. Agora, já é tarde demais. Afinal, ao que parece, vergonha é coisa de criança.

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E que tal:

June 15, 2007

A PEDRA DO REINO

Há alguns anos, eu e meus pais resolvemos dar uma conferida na Expoflora, uma exposição que acontece todo ano na cidade de Holambra, conhecida pelos arranjos de flores acima da média. Chegando lá, ficamos surpresos com os valores cobrados, tanto pro estacionamento, quanto pra entrada que dava acesso aos pavilhões. Bem alto, até mesmo pros padrões de quem estava mais do que acostumado com os preços inflacionados da capital. Na fila pra se pagar o ingresso, meu pai comentou com a gente sobre o absurdo daqueles valores. Nisso, um dos organizadores ouviu o lamento do velho. Indignado, o cara veio nos dar uma espécie de palestra sobre as dificuldades de se montar um evento feito aquele. Que era muito fácil reclamar de valores sem conhecer todo o processo que resultou numa exposição de alto padrão como aquela. Concluiu que era muito desanimador se esforçar tanto assim pra depois só criticarem. Dali em diante, por mim, eu iria embora. Mas, como a curiosidade de meus pais era maior do que tudo, acabamos entrando.

Me lembrei desse episódio ao assistir alguns capítulos de “A Pedra do Reino“, a nova microssérie da Rede Globo. Há meses que eu venho acompanhando a produção da mesma, através de notas e reportagens mídia afora. Por aí, vi que, culturamente, a obra tem uma intenção impecável, de resgate de valores regionais, e até mesmo universais, há muitos esquecidos pelos meios de comunicação, tão reféns atualmente de uma massa cinzenta muito da raquítica. A direção de arte então, nem se fala. Tudo produzido com muito esmero, em detalhes que deixam qualquer cenógrafo boquiaberto. A interpretação, prima pela ousadia, de não se deixar entregar ao convencional dos folhetins das novelas, procurando optar por uma estética mais regionalista, calcada na raiz da cultura sertaneja nordestina. Enfim, tudo conspira pra aquilo que muitos críticos chamam de “iniciativa louvável”. “Obra-prima”. No entanto, ao conferir o resultado de tudo isso, nessa semana, eu achei a minissérie irremediavelmente chata.

Aí, volto ao que senti no episódio de Holambra. Fica até, de certa forma, desagradável não ter aprovado algo que levou tanto tempo e paixão de seus realizadores, exímios experts de nossa cultura, gente séria e comprometida com aquilo que faz e defende. Fazer o quê, né? Eu tentei e não entendi nada. Talvez eu tenha andado insensível demais, sem capacidade pra absorver tudo aquilo que os críticos adoram chamar de genial. Nessas horas, me sinto fora de um clubinho, de sócios que reconhecem uma espécie de tridimensionalidade escondida frente uma paisagem que quase ninguém percebe. Dos que amam filme iraniano, por exemplo.

Sim, é duro de admitir, mas eu achei um pé no saco “A Pedra do Reino”, com todos aqueles cacoetes de cultura regional que transbordam ali, ininteligíveis pro tosquinho aqui. Sim, sou um monstro, um insensível. Mesmo assim, aplausos pra iniciativa, pelo duro danado ali. Muita gente há de concordar: é obra-prima mesmo. Talvez você seja um desses. Viva a diversidade! Quem sabe, um dia, eu reveja a microssérie com mais calma, no DVD, com outros olhos e gabaritos presenteados pelos críticos dos cadernos culturais. Mas, hoje, não passa de algo digno de ser decapitado pelo meu controle remoto.

Enfim, aplausos pras nobres iniciativas. Só não me peçam pra achá-las geniais também, condenando o meu bocejo.

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Momento “Meu Umbigo, Minha Vida, Meu Ego”: saiu uma matéria no site “Guia da Semana” em que eu apareço opinando sobre a relação entre animais de estimação e crianças. Estou lá, na dupla condição de veterinário e Marcelo.

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E que tal:

Tuca Hernandes | Cultura | 12:32 pm | Comente que eu te comento (10)

June 11, 2007

REVELAÇÕES

Como sempre, eram o pai, a mãe, e o filho na mesa de jantar. E era agora ou nunca. Respirou fundo e mandou ver:

- Pai… mãe… tenho algo a dizer… – a voz trêmula já denunciava um assunto grave.
- Fala, lindo… - responde a mãe, seguida pelo olhar de concordância do pai.
- É sobre ontem… Eu não fui a um churrasco, como eu tinha dito. Eu fui na… Parada Gay.
- Tá, e daí? - reage o pai, tranqüilamente, enquanto corta o bife.
- Como e daí? O que eu quero dizer é que eu sou… sou…
- … gay? - perguntam os dois, ao mesmo tempo, sem sobressaltos.
- Isso, papai e mamãe, sou gay! GAY!
- Ah, tá… Filhão, me passa o sal? - pede o pai. A mãe continua a mastigar o arroz e feijão, enquanto assiste a novela.
- Ei, vocês não me ouviram? Eu acabo de confessar a minha sexualidade e vocês reagem dessa forma, como se eu tivesse dito uma coisa qualquer?
- Mas, Júnior - interrompe a mãe - como você queria que a gente reagisse?
- Ah, sei lá. Eu esperava que, no mínimo, a senhora desmaiasse e o papai me expulsasse de casa. Ou vice-versa. Me preparei durante meses pra esse momento. Eu até fiz as minhas malas. E tá vendo aquela ambulância ali fora? – ele aponta pra janela – Eu pedi pro pessoal ficar de prontidão , no caso de um de vocês ter um troço. Ou os dois, sei lá.
- Credo, Júnior. Que idéia você tem da gente, hein? Francamente…
- Já sei, vocês já sabiam de tudo! É isso!
- Sabíamos nada. - estranha o pai - Até ontem, eu e sua mãe estávamos conversando sobre a nossa suspeita de você estar namorando a vizinha lá do fim da rua…
- A Regina é minha amiga, papai, nada mais. Mas, posso saber a razão de tanta naturalidade? Tanta compreensão?
- Filhote, - começa a falar a mãe, segurando a mão trêmula dele - os tempos mudaram. A gente tem consciência de que, hoje em dia, o que é importa é ser feliz, independente da opção sexual do indivíduo.
- Concordo plenamente. - sorri o pai, afetuosamente.
- Mas, saiba que vocês jamais terão netos. Sou o filho único de vocês!
- Júnior, esse mundo já tem gente demais. - avisa o pai, com um ar professoral - A sua opção, além de dizer respeito somente a você, é ecologicamente correta. De quê adianta termos uma pessoa a mais entre nós se os recursos naturais não acompanham esse crescimento? Isso sem falar na questão da violência, escassez de empregos, etc… Em prol do planeta, eu e sua mãe dispensamos um neto.
- Pôxa… Então eu posso trazer pra jantar com a gente o Miro, meu namorado?
- O Miro, filho do nosso mecânico, o Tonhão?
- Sim…
- Há quanto tempo vocês namoram? – pergunta o pai, curiosíssimo.
- Uns dois anos já…
- Mas olha só como vocês dois são danadinhos, hein? – ri o pai, dando um leve tabefe no braço do filho.- Veja só, nêga, os dois pombinhos, namorando escondidos da gente durante todo esse tempo! E a gente, sem desconfiar de nada! Da-na-di-nhos! – completa o pai amistosamente, rindo ainda mais, antes de pegar mais um pedaço de bife.
- Pois é, papai… A gente tem tudo a ver. Tudo! Temos o mesmo gosto pra comida, música, cinema, teatro, dança, artesanato, política… Na última eleição, pra se ter uma idéia, votamos no mesmo candidato, sem que tivéssemos combinado coisa alguma. No dia seguinte é que fomos descobrir que ajudamos a eleger o Maluf! Uma coisa cósmica!
- COMO? – reage o pai, largando os talheres.
- É, hoje em dia, a gente até faz parte da ala gay da Juventude Malufista! Arrasamos lá!
- Peraí, Júnior, você tá brincando com a gente, né? MALUF? Você tá de sacanagem com a gente. Diz que é mentira, DIZ!!!– Se desespera o pai. A mãe, já prevendo o pior, sai correndo da mesa direto pra cozinha, onde estava o remédio anti-hipertensivo do marido.
- Ué, papai? O Maluf fez o metrô de São Paulo, o Minhocão, o Projeto Cingapura, o Leve-Leite, a Avenida Águas Espraiadas, a Rodovia Ayrton Senna, a…
- CALA A BOCA, JÚNIOR!!! CALE A BOCA, MOLEQUE!!!! – levanta o pai da mesa, berrando com os punhos cerrados em direção ao filho.
- Olha, papai… ele rouba, mas faz, tá?
- QUE MALUF O QUÊ, SEU… SEU… REACIONÁRIO! ALIENADO! SUMA DESSA CASA! AGORA!

A mãe volta da cozinha, com os comprimidos na mão, praticamente despejando-os na boca do companheiro, que já ia perdendo os sentidos. Ela não se conforma também:

- Olha aí! Tá feliz agora? Olha só o que você fez com o seu pai! Ele é cardíaco, lembra? Cinco pontes de safena! CINCO!
- Mas, mamãe…
- QUIETO! Onde já se viu, ajudar a eleger aquele filhote da ditadura? Francamente, Júnior. Francamente!!!

Pra sorte do pai, a ambulância continuava ali, pronta pra levá-lo pra colocação da sexta ponte de safena. No dia seguinte, enquanto carregava a última mala, Júnior ainda tentou argumentar com a mãe, sem sucesso, ao dizer que caras como ele terão mais respeito da sociedade no dia em que as novelas e os filmes começarem a retratar os malufistas como pessoas normais. Sem estereótipos.

Gente como a gente, sabe?

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E que tal:

Tuca Hernandes | Política, Família | 12:30 am | Comente que eu te comento (5)

June 6, 2007

SKABROSA!

- Alô?
- Jet, o mundo é dos Jets, boa tarde. Com quem falo?
- Com Zé Mané.
- Senhor Zé Mané, poderia me falar o código Jet de 72 números que está em sua fatura?
- Ué, de novo? Eu digitei ele antes de falar com você.
- Compreendo, senhor, mas é um procedimento padrão nosso.
- Ok, ok… - e ele fala o código de 72 números.
- O endereço também, por favor… - ele fala o endereço.
- O CPF, por favor - e ele passa o CPF.
- Ok, senhor, obrigado por passar as informações de identificação. Em que posso ajudá-lo?
- Seguinte. Eu queria pedir o cancelamento do meu Jet Fone.
- Um momento, que eu vou transferir a sua ligação pro departamento responsável…

Cinco minutos depois, um outro atendente:

- Jet, o mundo é dos Jets, boa tarde. Com quem falo?
- Com Zé Mané.
- Senhor Zé Mané, poderia me falar o código Jet de 72 números que está em sua fatura?
- Ué, de novo? Eu já tinha falado ele pra atendente antes de você…
- Compreendo, senhor, mas é um procedimento padrão nosso.
- Ok, ok… - e ele fala o código de 72 números.
- O endereço também, por favor… - ele fala o endereço.
- O CPF, por favor - e ele passa o CPF.
- Ok, senhor, obrigado por passar as informações de identificação. Em que posso ajudá-lo?
- Seguinte. Eu queria pedir o cancelamento do meu Jet Fone.
- Entendo… Mas qual seria a razão pra esse cancelamento?
- É simples. Eu não uso o Jet Fone. Nunca me interessou. Na verdade, eu adquiri o Combo Jet mais por causa da internet e a televisão a cabo. Agora, seis meses depois, vejo que o telefone começou a ser cobrado na minha fatura. E, pelo que me lembro, eu teria direito a cancelar o Jet Fone após seis meses de contrato, sem problema algum.
- Correto, senhor Zé Mané, nos primeiros seis meses o cliente Jet Combo tem a cortesia de desfrutar o Jet Fone sem custo algum, só pagando pelo que fala. É a Jet pensando no melhor pra você!
- Sim, mas, como eu praticamente não usei o Jet Fone nesse tempo, dispenso esse serviço. E, além do mais, telefone mesmo, eu uso pouco por aqui. Não vejo sentido algum em pagar por mais uma linha aqui, pra ficar parada…
- Entendo, senhor Zé Mané… Mas, veja bem, saiba que o Jet Fone possui muitas vantagens em relação a linha telefônica convencional. Permita-me explicar essas vantagens. - e segue um monólogo de quinze minutos a respeito das vantagens.
- Ok, ok… eu sei de tudo isso. Mas não quero me desfazer da linha que tenho há mais de cinco anos. Afinal, é um número que já está na agenda de meus amigos, parentes e conhecidos.
- Mas senhor Zé Mané, veja bem, eu não estou dizendo pro senhor se desfazer da outra linha.
- Ué, eu ficaria com dois telefones aqui pra quê?
- O que eu estou tentando dizer, senhor Zé Mané, é que o senhor só tem a ganhar se continuar com o Jet Fone. Vou enumerar pro senhor aí mais vantagens.- e segue mais um monólogo de quinze minutos sobre as inúmeras vantagens do Jet Fone.
- Olha, cancele o Jet Fone pra mim, ok? Eu só peço isso. Mais nada.
- Mesmo depois de tudo isso que falei, o senhor vai cancelar mesmo?
- VOU!!! VOU, VOU E VOU!!!
- Ok, um momento então, que vou iniciar o processo de cancelamento do Jet Fone. Aviso ao senhor que isso pode demorar um pouco…
- Ok, eu espero…
- Aguarde um momento, por favor. - e entra a musiquinha da campanha do combo da Jet, onde uma voz gravada fala sobre as vantagens de ser um cliente Combo Jet.

Dez minutos depois:

- Aguarde mais um pouco, senhor Zé Mané… - e, novamente, entra a musiquinha.

Quinze minutos depois:

- Só mais um pouco, senhor Zé Mané… - e mais musiquinha.

Mais quinze minutos:

- Só mais um pouquinho, senhor Zé Mané, que eu estou finalizando o processo aqui. - e, de novo, a musiquinha.

Dez minutos depois, surge uma atendente:

- Jet, o mundo é dos Jets, boa noite. Com quem falo?
- Ué, cadê o rapaz que estava me atendendo?
- Que rapaz, senhor?
- O que estava fazendo o cancelamento do meu Jet Fone.
- Ah, o senhor quer cancelar o Jet Fone? Pode falar comigo mesmo. Aqui é da Central de Cancelamentos.
- Mas… ok, ok… se você der uma olhada no sistema aí, verá que eu pedi o cancelamento do Jet Fone. Um rapaz estava vendo isso pra mim há meia hora atrás…
- Um momento, senhor, que o sistema está com lentidão…

Passam-se doze minutos.

- Pronto, senhor, sistema reestabelecido. Com quem falo?
- Com Zé Mané.
- Senhor Zé Mané, poderia me falar o código Jet de 72 números que está em sua fatura?
- Ué, de novo? Eu já falei esse tal código umas cinco vezes hoje.
- Compreendo, senhor, mas é um procedimento padrão nosso.
- Ok, ok… - e ele fala o código de 72 números.
- O endereço também, por favor… - ele fala o endereço.
- O CPF, por favor - e ele passa o CPF.
- Ok, senhor Zé Mané. Cancelamento do Jet Fone, correto?
- Isso, isso! - lágrimas de desespero começam a escorrer no rosto dele.
- Mas, afinal, qual a razão do senhor estar cancelando o Jet Fone?
- Olha, quer saber? Eu quero cancelar e ponto final. Pronto.
- Mas, senhor Zé Mané, saiba que, com o Jet Fone, o assinante tem vantagens em relação ao telefone convencional que…
- CANCELE!!!!! CANCELE!!! EU NÃO QUERO O JET FONE! EU SOU BURRO! BURRO! É ISSO! CONFESSO! RESPEITE A MINHA IGNORÂNCIA!
- Ok, senhor Zé Mané. Mas o senhor deve estar ciente do seguinte: segundo o contrato, se o assinante cancelar o Jet Fone, o mesmo estará sujeito a cumprir um ano de trabalhos forçados em uma de nossas fazendas, lá em Roraima. O senhor deseja isso mesmo?
- CANCELE!!!
- Ok, como quiser, senhor. Olha, pensa bem… Quem avisa amigo é… O Jet Fone, em relação ao telefone convencional, apresenta vantag…
- CANCELE!!!
- Um momento então, que vou transferi-lo pro Departamento de Atendimento ao Cliente Teimoso e Nervosinho. - e, mais uma vez, entra a musiquinha da promoção Combo Jet, agora com o personagem principal da propaganda deles, um general moldaviano bêbado, berrando “Skabrosa!!!” sem parar.

Caro leitor, a partir daqui, você escolhe o final que mais lhe agradar. Dou três opções:

1 - O Zé Mané morre: o corpo é encontrado no dia seguinte, pela empregada, ao lado do telefone fora do gancho e com uma conta da Jet em uma das mãos. Segundo os legistas, teve um infarto fulminante, por estresse contínuo.

2 - O Zé Mané enlouquece: após quebrar toda a casa, incluindo aí o aparelhinho do Jet Fone, ele dá entrada no hospício gritando “Skabrosa!” sem parar, dizendo que é um general moldaviano. Caso irrecuperável, lamentam os médicos.

3 - O Zé Mané continua com o Jet Fone: após oito horas no telefone, quase desmaiando de cansaço, ele aceita que tudo continue como está. E ainda acaba comprando um pacote completo de pay-per-view do campeonato boliviano de golfe.

Skabrosa!

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Ps: Já está nas bancas a segunda edição da revista Petworld, onde, mais uma vez, você encontrará uma crônica minha, lá na última página. Nela, eu defendo que toda criança deve ter um bicho. Simples assim.

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E que tal:

Ouvir a interessante “Dirty Lives“, da banda “Love as Laughter“?

Tuca Hernandes | Comunicação | 8:40 pm | Comente que eu te comento (13)