ALGO ERRADO
Noite de sábado. A filha única, de quinze anos, já está na porta, pronta para encontrar as suas amigas. O pai ronca e baba profundamente no sofá. A mãe, que estava assistindo Zorra Total, resolve conversar com ela:
- Filha, vai com cuidado, hein?
- Pode deixar, mãe. Qualquer coisa, você liga no meu celular, ok?
- Mesmo quando você estiver… ocupada? – ela dá uma piscadinha.
- Como assim, “ocupada”?
- Ah, Lelê… Sejamos francas, vai… Hoje é sábado, você está de rolo com um rapaz fantástico, que eu sei… Então, nada mais natural que vocês aproveitem essa noite linda pra certas intimidades, certo? – outra piscadinha.
- Errado, mãe. Eu e o Ricardo só estamos ficando, nada mais. E garanto que hoje será da mesma maneira.
- Nossa, Lelê… Não precisa mentir pra mim, não. Confia na mãezona aqui. Eu nunca te proibi de nada, você sabe. Por que essa vergonha agora?
- Não é vergonha, mãe. Eu e o Ricardo não transamos ainda, só isso.
- Como não? Como não? Ele, lindo daquele jeito, um deus grego, disputadíssimo pelas garotas. Você, com esse corpão maravilhoso, um mulherão de quinze anos e… nada? Ah, conta outra, Lelê…
- É sério, mãe. Eu apenas… Bem, não acho que é o momento certo pra começar a transar. Preciso de um tempo, conhecer melhor a pessoa, sabe?
- Sei… mas… e com os outros rapazes?
- Mãe, não houve “outros rapazes”…
- Lelê, não me diga que você ainda é…
- Virgem?
- Isso…
- Sim, sou. Virgem! - ela confessa, num tom desafiante, desses que muitos adolescentes recorrem pra enfrentar os pais. De imediato, a mãe começa a chorar e andar desorientada pela sala, num vai e vem angustiante.
- Nossa, mãe. O que foi?
- Você ainda me pergunta, Letícia Perez dos Santos? Você é virgem! VIRGEM!
- Mas… e daí???
- Poxa vida, com essa idade? Onde eu errei? Onde eu errei? Tantos anos de educação sexual, procurando entregar pra sociedade uma moça sem tabus, pra nada? Quinze anos jogados no lixo!
- Mas mãe, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Encaro o sexo com a mesma naturalidade de sempre. Fica tranqüila que minha vida sexual será uma maravilha.
- Olha aí! Olha aí! Você disse “será”, não “está sendo”, Lelê! Como você pode achar sexo algo natural se você nem transou ainda? Qual o problema?
- Nenhum. Como eu disse, pelo menos na minha primeira vez, eu quero que seja com alguém que eu goste e confie. Bastante. Só isso…
- Aiai… Lá vem você com desculpas… Vem cá, e aquelas camisinhas que te dou toda semana? Todas guardadas então?
- Não. Todas foram usadas.
- Como assim? Você acabou de me dizer que é virgem… Você não ficou fazendo balão com elas, não?
- Não mãe… eu as repassei pras minhas amigas. Tiveram bom uso, garanto.
- Ai, que vergonha, Lelê. Que vergonha! Suas amigas já têm vida sexual… e só você que não.
- Não é bem assim, algumas são virgens, como eu. Sabe a Carlinha? Então. É virgem também.
- Ah, mas essa Carlinha não serve como parâmetro. Você mesmo fala que ela é a CDF da turma. Mulher assim, que gosta de papos complicados, cultura, essas coisas, fica sempre pra titia. Fique longe dela, Lelê! Péssima influência pra você. Você está proibida de ter amizade com ela!
- Mas mãe…
- Quieta! É uma ordem! E não vá embora ainda, me espera aí…
A mãe se dirige a despensa. Volta de lá com uma cartela de seis camisinhas.
- Toma! Usa tudo! Hoje!
- Mas…
- Quieta! Não quero ver filha minha mal falada pela vizinhança. “Olha ali a filha da Clara, a virgem! Quinze anos e VIRGEM!!!” Comigo, não!
- Mas mãe, seis camisinhas? Numa noite? Não há homem que agüente…
- O Ricardo deve agüentar sim. Ele é forte, ora essa. Imagina se aquele deus grego não agüenta, ora essa. Ah, e outra coisa. Pra entrar no motel, usa aquele RG falso que fiz pra você, no ano passado. Tá aí com você, não? Então, não há desculpas…
- Mas mãe… o Ricardo…
- O que foi? Não me diga que ele é gay.
- Não… ele acha super bonito essa coisa de eu me guardar pro momento certo… E…
- Ah minha filha, isso é papo pra ganhar a sua confiança. Balela. Esse aí tá louquinho pra transar com você. Aproveita!
- Ok, ok…
- Então vai, minha filha, que o pessoal já está buzinando lá fora, esperando você. Vai… E ó, não se esqueça, hein? É hoje! É HOJE!!!
- Tá bom…
Na porta de casa, ao ver a sua Lelê entrando no carro dos amigos - “tão linda! uma flor!” -, ela ainda consegue soltar um suspiro, desses sofridos que só uma mãe é capaz de emitir, ao zelar pelo bem de sua cria:
- Filhos… Só trabalho, problemas, complicações… Aiai…

February 8th, 2007 at 1:53 pm
Oi, gostei dos seus textos.
Pois é, mãe é mãe… Não interessa se é liberal ou careta, mãe gosta mesmo é de encher o saco…
Abraço
February 8th, 2007 at 11:45 pm
Muito engraçado!!! Hahahaha… tudo bem que pode ser até que esteja meio exagerado, mas a coisa é quase assim mesmo. Vai entender…
February 9th, 2007 at 9:30 am
kkkkkk … mãe é tudo igual, mesmo pro bem ou pro mal (sem maniqueismos).
Legal esta forma de colocar as neuras das mães com as filhas adolescentes … eu me sinto assim, só que ao contrário … rs
(gosto das estórias que vc conta, sempre comento qdo tem, mas qdo entro e tem filminho, fico calada, não tenho paciência de esperar carregar … rs)
bjs!
;-)
February 9th, 2007 at 4:08 pm
Gostei da parte das 6 camisinhas… Não sei pq… Mas gostei!!!
Bjos!
February 10th, 2007 at 11:32 am
É Tuca, os valores estão subvertidos. Sexo não é mais algo premeditado, mas o texto enfatiza o quanto o supervalorizamos.
February 13th, 2007 at 8:13 am
Afe! “quinze anos jogados no lixo”, isso é que é uma mãe exagerada. E se o Ricardão aguentar… é… taí algo que não vemos todo dia.
February 13th, 2007 at 5:11 pm
Caray, pior é que a coisa está meio que indo por esse caminho. Bom, tem o lado bom. Como quase todo mundo é gay, não tem muito risco de gravidez, né?
(péssimo essa).
T§
February 14th, 2007 at 6:36 pm
Genial, Tuca, genial.
Abraços
February 15th, 2007 at 6:00 pm
cara, só 4 palavras: queria uma mãe assim
March 5th, 2007 at 2:25 pm
Rapaz… Já tem algum tempo que não visito o blog, e esse texto foi simplesmente memorável.
Parabéns pelo talento