FIAPO DE JACA

December 30, 2006

O HITLER DO ASFALTO

Tarde chuvosa de sábado. Numa avenida movimentada de São Paulo, em cima de minha moto, percebo pelo espelho retrovisor que um motorista quer falar comigo. Entre faróis altos e buzinadas, ele gesticula de modo grave pra mim, claramente pedindo a minha atenção. Imaginei que ele quisesse me alertar sobre algo, quem sabe um “Ei amigo! O pneu da sua moto está murcho!”. Deixo então ele ficar emparelhado comigo, através do lado do passageiro. O cara, um fortão que devia ter lá os seus quarenta e tantos anos, tagarela freneticamente, mas não consigo ouvir uma só palavra, pois o vidro daquele corsa azul está fechado por causa da chuva. Enfim, ele abaixa o vidro e inclina-se em minha direção, deixando bem clara a intenção daquele contato, ao berrar numa selvageria de espantar:

- SEU FILHO DA PUTA!!! VOCÊ TEM QUE MORRER, SEU DESGRAÇADO! FILHO DA PUTA! EU QUERO QUE VOCÊ MORRA ATROPELADO, NA ESTRADA, NA RUA! DESGRAÇADO!!! CUZÃO! FILHO DA PUTA!!!

Bem surpreso e assustado, reduzo a velocidade de minha moto, deixando aquele carro ir adiante. Perplexo, começo a me perguntar sobre a razão daquele xingamento. Certamente, sem perceber, eu devo ter feito algo muito grave pra deixá-lo transtornado daquele jeito, concluo. Uma fechada brusca que quase o levara de encontro a um outro carro? Um poste? Não percebi. Fico chateado, pois sei que dirijo a minha moto com bastante cuidado. Falha no meu sistema? Pode ser. No entanto, inconformado e movido por uma curiosidade mórbida, quase suicida, procuro saber o que afinal eu teria feito pra despertar a ira daquele cara. Consigo alcançá-lo no farol:

- Mas, vem cá… o que eu fiz???

Ele me responde com mais ódio ainda, que nem um Hitler no clímax de seu discurso a favor do extermínio dos judeus:

- VOCÊ??? VOCÊ NÃO FEZ NADA! MAS EU QUERO QUE VOCÊS, MOTOQUEIROS, QUE SÃO UM BANDO DE FILHOS DA PUTA, MORRAM! A SUA RAÇA TEM QUE DESAPARECER DA FACE DA TERRA!!! O LUGAR DE VOCÊS É NO INFERNO! DESGRAÇADO!!! SEU FILHO DA PUTA!

Desconcertado pelo motivo da agressão gratuita, consigo ainda responder alguma coisa logo após a abertura do sinal, me defendendo pateticamente, como se fosse obrigação minha esclarecer alguma coisa ali:

- Mas, olha… eu não sou motoboy… – nisso, a mulher que o acompanhava, provavelmente a esposa dele, me olhou sorrindo piedosamente, com uma expressão de “Deixa pra lá moço… ele é assim mesmo, nervosinho, mas gente boa, acredite…”

Já matando a charada, decidi ficar longe daquele corsa, saindo da avenida na primeira rua que encontrei, a tempo de conseguir ver aquele maluco xingar um outro motoqueiro que levava a namorada na garupa. Ele queria brigar. Então era isso. Alguém numa moto tinha feito algo que o desagradara profundamente, sei lá o quê, fugindo em seguida por entre os carros. Na impossibilidade de descarregar o ódio em quem o agredira, o cara resolvera decretar pena de morte pra todo e qualquer motoqueiro que encontrasse pela frente. Ok.

O curioso é que muita gente, ao ler esse relato, vai defender a atitude desse projeto de orangotango surtado, alegando que os motoboys andam tão abusados no trânsito que só um santo pra não ficar maluco com eles. Tudo bem. Mas um momento. O que eu, em cima de uma moto, sem ter enchido o saco de ninguém, teria a ver com a porra-louquice alheia? “Ah Tuca, ele generalizou, só isso. Nessas horas o sangue ferve mesmo, viu? Não foi nada pessoal, tenha certeza disso. Coisas de cidade grande, rapaz! É assim mesmo!”

Quem vai nessa linha de pensamento, passando a mão na cabeça do agressor que revida atacando a classe do indivíduo que o contrariou, justifica toda uma gama de intolerância atuante por aí. Justifica o ódio mais imbecil que existe, aquele que age através da vingança indiscriminada. Bem, todo ódio é imbecil, pensando bem.

Dá razão pra vândalos que espancam pessoas, algumas até a morte, somente pelo fato delas estarem vestindo a camisa de um time adversário. Dá razão pra mísseis israelenses matarem civis palestinos por causa de homens-bomba. Dá razão pra terroristas que acabam matando civis israelenses. E por aí vai, numa lista interminável de exemplos, num eterno revide sem perspectiva de um cessar fogo definitivo. Nesses embates, o indivíduo é o que menos importa.

Portanto, se você tiver ódio, tendo que descarregá-lo - fazer o quê, você é assim mesmo, sangue quente, não? A vida anda difícil, não? Pois é. - que seja pelo menos sobre quem o provocou. Não em quem se parece de alguma forma com o seu algoz. Não generalize. Se um elefante escapar do circo e pisar no seu pé, não saia por aí xingando todo obeso mórbido que encontrar pela frente. Se um anão fugir com a sua mulher não vejo razão pra você odiar todas as crianças do mundo, tornando-se um Herodes contemporâneo.

Olha, tudo bem, odeie. Mas com moderação, por favor. Longe de mim querer questionar a sua natureza, um direito seu, ora essa. Mas tenha cuidado ao entregar a fatura de seu prejuízo. Os indivíduos inocentes das classes marginalizadas agradecem.

Olha aí um objetivo bacana pra 2007. Legal, não?

Feliz ano novo!

Tuca Hernandes | Comportamento | 5:37 pm | Comente que eu te comento (9)

December 20, 2006

CONTINUE LENDO? SIM OU NÃO?

Estou numa dúvida aqui, coisa bem particular. Bem, talvez nem tão particular assim se você for desses que estão habituados a acompanhar o “Fiapo de Jaca” numa regularidade razoável. É o seguinte: estou pensando seriamente em remover esse “Continue lendo” que acompanha os textos aqui. Ou seja, na página inicial, os posts voltariam a ser exibidos na íntegra, como era feito nos meus tempos de hospedagem no zipnet. A motivação desse questionamento veio após a leitura de um post do blog Liberal Libertário Libertino, onde Alex Castro, o autor, procura saber a opinião de seus leitores a respeito desse recurso.

 Dos que comentaram ali, a grande maioria revelou odiar o “Continue lendo”, chegando ao ponto de nem ler textos com isso, seja lá o quão interessante pudesse ser o conteúdo ali escondido. Antipatizam de imediato ao encontrarem esse famigerado link, desconsiderando futuras visitas ao blog. Ódio mesmo. Pelo que senti, se pudessem, mandariam pro autor um sinal de “fuck you” com os dedos junto com uma escarrada antes de caírem fora. Será que muita gente bacana, mas sensível demais, mas demais mesmo, vixe Maria, deixou de me ler por causa disso? Só por causa disso???

Na minha ingenuidade, caminhando por campos floridos, dando bom dia pra esquilos e sabiás, imaginava que o leitor, ao ver de cara apenas o início dos textos, poderia ter uma facilidade maior para escolher o que ele gostaria de acompanhar ou não, sem precisar executar longas descidas de página para se ter uma idéia do que os outros posts abordariam. Quem visitasse o “Fiapo de Jaca” pela primeira vez teria um belo panorama sobre o universo daqui, rapidamente, simpatizando ou ignorando de imediato. Se o trecho inicial interessasse, bastaria um clique pra se acompanhar o resto. Simples. Além disso, a página inicial seria carregada com mais rapidez, privilegiando aqueles com internet discada, pensei. Tudo pelo leitor, essa entidade que ama ou odeia em questão de poucas palavras e cliques. Só faltou eu oferecer cafezinho, de tão preocupado que fiquei com o bem estar desse pessoal.

A se julgar pelos comentários no post do Alex, me enganei feio. Mas, e ao se julgar pelos comentários que você, caro leitor, fará aqui? Continuo me enganando feio? Vamos interagir. Tiro ou não o “Continue lendo”? Desse striptease virtual, gostaria de saber a opinião de você, que sempre lê a bagunça de palavras e idéias daqui, ou que só chegou ao fim desse texto por causa de um detalhezinho: a ausência do “Continue lendo…”

Tuca Hernandes | Blogs | 1:11 pm | Comente que eu te comento (24)

December 15, 2006

DEPOIS DOS NOVENTA E UM POR CENTO

Um deputado reeleito encontra outro deputado reeleito, num restaurante chique de Brasília:

- Olha aí rapaz, noventa e um por cento! Noventa e um! Eu não disse que conseguiríamos? É só ter fé! Muita fé e trabalho!
- Confesso que cheguei a duvidar que esse aumento fosse aprovado, afinal a opinião pública…
- Ah, dane-se a opinião pública! Você ainda se importa com isso? Tanto eu como você fomos reeleitos apesar das provas que tinham contra a gente nas últimas CPIs. Se o Congresso nos absolveu e o povo nos reelegeu, isso é sinal de que podemos fazer o que bem quisermos.
- Como nos dar aumento de 91%…
- Sim, isso mesmo! O céu é o limite, rapaz! Aproveitemos! Depois de tudo isso, finalmente criei coragem pra apresentar a proposta da minha vida.
- Qual é?
- A criação de um novo imposto, o CUSPE.
- O que significa isso?
- Contribuição Unificada Salvadora do Parlamentar Emérito. Todo o dinheiro arrecadado por esse será repassado para a conta dos parlamentares.
- Interessante. Gostei. E como seriam as regras de arrecadação?
- Ele incidirá diretamente sobre o salário do trabalhador. Começaremos com uma taxa de 35,7% sobre o salário mínimo. Desconto na fonte.
- Peraí. Pára tudo. Você está maluco. Se começa com 35,7% sobre o salário mínimo, nem quero imaginar a porcentagem sobre quem ganha R$ 10.000, por exemplo.
- Aí é que está a novidade. A incidência do CUSPE decairá conforme o salário do trabalhador. Ou seja, quanto mais a pessoa ganhar, menos CUSPE nela.
- Ah, aí sim…
- Dessa forma, no outro extremo, quem ganha R$ 5.000,00 terá apenas 0,01% de incidência. Desse valor em diante, o trabalhador fica isento.
- Maravilha. Nada mais justo. O sistema CUSPE seria também uma forma de premiação pra quem venceu na vida.
- Pois é, quanto mais pobre for o trabalhador, maior o CUSPE sobre ele. Dessa forma, o cidadão ficaria motivado a subir na vida, de forma que ele tivesse menos CUSPE do governo nos seus rendimentos.
- É mesmo. Tudo pelo social. Mesmo assim, desconfio que a opinião pública vai pegar no pé da gente. Sabe como é, essa mania besta de ficar defendendo os mais pobres…
- Ah, já disse rapaz, deixa a opinião pública pra lá! Nos demos aumento de 91% e continuamos aqui, reeleitos e vivinhos da silva. Vivinhos!
- Ô! Vivíssimos!
- A vida continua, ao trabalho então!
- É isso aí, CUSPE neles!

Tuca Hernandes | Política | 10:55 am | Comente que eu te comento (10)

December 13, 2006

CINCO DICAS PRA TORNAR O SEU BLOG POPULAR


Diz a manjada idéia maquiavelista que os fins justificam os meios. Pensando nisso, inebriado pelo espírito solidário do Natal, resolvi elaborar um mini-manual composto por cinco sugestões pra fazer o seu blog disparar imediatamente no ranking de popularidade. Se você tem um blog prestes a ser abandonado por falta de visitação ou não cria um por medo de não ser lido por ninguém, leia com carinho e atenção as dicas abaixo. Ainda mais se você for daqueles que acham uma tremenda bobagem essa história de privilegiar mais a qualidade dos leitores, não a quantidade. Pronto pra se tornar uma celebridade? Então vamos lá:

- Blog psicografado: textos psicografados são garantia de popularidade no ramo editorial. Por que o mesmo não ocorreria na blogosfera? Vamos lá, crie o seu autor do além e comece a interagir com o público sedento de respostas que não existem aqui na Terra. Fale que você é apenas uma espécie de interlocutor, uma ponte, que não se lembra de nada no espaço do tempo dispensado para a redação do texto. Um branco total. Sinta-se livre para teclar o que bem quiser. Qualquer coisa, a culpa não é sua. Algo assim na base do “não fui eu, foi meu eu lírico.” De preferência, use como tema o aprendizado através do amor em várias encarnações. Sucesso garantido.

- Seja ultra-polêmico: não basta ser polêmico, tem que escandalizar. Defenda idéias politicamente incorretas e arme um barraco virtual toda vez que encontrar alguém que discorde de você. Seja sempre mal educado, usando e abusando do sarcasmo, inclusive quando concordarem com você também. Diga, por exemplo, que mundo está divido entre “imbecis” e “canalhas”. Nessa linha, procure sempre criar frases de efeito, afirmando algo, como “Mulher só faz sentido quando nua e de pernas abertas.” Mesmo assim, saiba ter bom senso, evitando propagandear idéias que fariam o partido nazista corar de constrangimento. Quando o vilão é bem construído, sucesso na certa. Que o digam Odete Roithman e Caco Antibes.

- Coloque fotos de mulheres peladas: de todas as dicas, certamente essa é a mais eficiente e manjada. Afinal, usa uma linguagem que dialoga direto com o instinto do internauta macho, que em sua maioria não quer perder tempo com leituras de opiniões sobre o sentido da vida. Se você não se importar de ter um público majoritariamente composto por adolescentes com hormônios em descontrole e adultos com sociopatias, desses que mal conseguem dar bom dia pra uma mulher, essa sugestão é garantia de popularidade imediata.

- Invente uma promoção: avise seus visitantes que a cada comentário feito eles estarão concorrendo ao sorteio de um carro de luxo zero quilômetro. Diga que isso foi possível através de uma parceria inédita que você fechou com a BMW, numa clara evolução do mundo dos blogs para a área corporativa. Com isso, o seu assunto pode ser o mais desinteressante do universo, desenvolvido da forma mais tosca possível, que sem problemas, a sua caixa de comentários estará sempre bombando. Avise sempre que o sorteio do BMW será no dia 31 de fevereiro. Muita gente cairá nessa, acredite.

- Seja um garoto / garota de programa: pare com essa mania de se questionar se você está sendo original ou não. Mesmo depois da Bruna Surfistinha, o público continua interessadíssimo em saber o que se passa no dia-a-dia de um profissional do séquiço. Mudam os personagens, mas continua o interesse do povão, doido pra dar uma espiadinha, como diria o neo-filósofo Bial. E já está mais do que na hora de surgir um blog popular de um garoto de programa. Um alguém chamado Bruno Skatista, por exemplo. Nesse, o cara relataria em detalhes os seus serviços para todos os tipos de mulheres. De modelos internacionais a velhinhas na UTI. Quanto mais bizarras forem as transas, melhor.

Então é isso. Agora é só postar. Boa sorte!

Tuca Hernandes | Comunicação, Blogs | 12:11 pm | Comente que eu te comento (14)

December 8, 2006

TAPA NA CARA DA CLASSE MÉDIA

Num boteco, um cineasta brasileiro começa a falar animado sobre o seu novo projeto pra um amigo-fã-incondicional:

- Rapaz, o meu próximo filme será um tapa na cara da classe média.
- Como os anteriores?
- Exatamente. Só que um pouco mais contundente. Na verdade, além do tapa na cara, será também um soco no estômago da classe média!
- Interessante. Como será a história?
- Falarei sobre uma família de anões albinos retirantes da seca que obriga a filha do meio a se prostituir para que assim possam comprar uma TV de plasma de 90 polegadas. Crítica ao consumismo, sacou?
- Genial.
- Acredito que o cinema nacional deva assumir a sua função de instigar o povo a pensar sobre a temática social.
- Entendi. E concordo plenamente!
- Pra isso, colocarei algumas cenas estrategicamente boladas pra acordar o cidadão comum, de forma que ele tenha consciência de toda a verdade que o cerca.
- Dá um exemplo aí.
- Lá pelo meio do filme, o tio-avô da protagonista pede uma sopa de cuspe de virgens acreanas num restaurante grã fino. Atendem ao pedido depois de muita insistência dele, que não pára de falar arrotando “Eu tenho dólar, porra! Dólar, porraaaa!!!”.
- Putz, que interessante!
- E, enquanto ele vai tomando a sopa, gritando sem parar “Eu sou o Brasil!!! Eu tô no cio!!!”, todos ao redor começam a tirar a roupa, sambando ao som de Saudosa Maloca tocada de trás pra frente. A cena termina com todos se masturbando, uns aos outros.
- Genial! Crítica social pra abrir os olhos do cidadão comum mesmo!
- Tenho certeza que o povo precisa de um choque. A verdadeira missão do cineasta brasileiro é essa: preparar a revolução através do questionamento da mediocridade vigente.
- Concordo!
- E pra isso, é preciso a utilização de novas linguagens que atinjam o inconsciente coletivo. Por isso que optei de 90% de todas as falas serem ditas na língua do P, no formato de cordel, em versos decassílabos.
- Bela sacada! Rapaz, o Brasil não te merece! Gênio!
- O povo oprimido vai se identificar com todo esse universo. A classe média vai cair em si ao perceber que está só, num sistema capitalista desumano.
- Nossa, vão perceber isso na hora, sem dúvida alguma!
- E, pra aumentar ainda mais o envolvimento do espectador com o filme, vou colocar um pessoal na saída do cinema pra interagir com os espectadores.
- Ah é? Como vai ser isso?
- Todo mundo levará um murro no estômago de alguém de nossa equipe, composta por pit boys. Tudo isso pra aumentar ainda mais a sensação de caos e desesperança, entende? Não bastam imagens. A coisa tem que ser mais na carne.
- GENIALl!!!
- E quem ficar chocado demais, querendo sair antes do filme acabar, vai receber uma dedada bem forte, dessas de deixar o indivíduo incapacitado de sentar por uma semana. Uma espécie de toque, meio que falando: “Cuidado amigo, quem foge da realidade, toma naquele lugar.”
- Perfeito! Agora sim que o povo vai te compreender.
- Sim. Dessa vez deixei tudo claro.
- Claríssimo!!! Mais didático que isso só cartilha de escolinha. Mas você não tem medo que dessa forma você possa ficar popular demais?
- Popular? Vira essa boca pra lá, rapaz!!! Eu hein?

Tuca Hernandes | Cinema | 11:34 am | Comente que eu te comento (6)

December 5, 2006

O CARRO E A LOIRA

Pode ser coincidência em minhas observações. Ou então, que o meu olhar esteja filtrando coisas demais. Mas tenho notado no trânsito que grande parte dos carros mais sofisticados - desses que os novos ricos adoram - tem uma loira no banco do acompanhante. Não tenho muitas lembranças de morenas, negras, cafuzas, ruivas, japonesas, etc. Intrigante.

Será que na compra de um carro desses o indivíduo leva de brinde uma loira, cortesia do fabricante ou concessionária? É o que parece ser. Tudo pelo cliente. Talvez seja uma jogada de marketing das empresas, fruto de uma análise de perfil do típico consumidor desses carrões. Devem ter concluído que o cara sente-se mais dono do mundo ainda com uma loira ao lado, fator motivador de mais aceleradas. Mas, o que fazer quando o indivíduo em questão é um pacato senhor casado? O quê o pobre coitado iria fazer com a loira?

- Benhê!!! Venha ver o novo carro… – ele chega em casa, com aquele sorriso triunfante dos que venceram na vida, segundo os manuais de auto-ajuda.
- Nossa, amor… é lindo, maravilhoso… Exatamente como a gente queria… Um sonho! – ela admira, enquanto enxuga as lágrimas ao perceber mais um objetivo de vida cumprido.
- Tá vendo? Eu não disse que valeria a pena nos sacrificarmos um pouquinho pra darmos entrada numa maravilha como essa?
- Pois é, passamos fome, colocamos nossos filhos no colégio público, ficamos sem viajar durante dez anos, perdemos a conta dos despejos que sofremos… Mas enfim, olha aí, que lindo! Agora só falta pagarmos as 700 prestações que restam… Mas Deus há de nos ajudar nisso também… Ei… mas quem é essa mulher aí dentro?
- Ah… é a loira… Ela sempre vem junto com um carro desses. Segundo o manual aqui, depois do motor, é a peça mais importante…
- Sério? Como a gente vai sustentá-la? O quê ela come?
- Sei lá… qualquer coisa do Mc Donald’s, eu acho… Tem que ver no manual.
- E… vamos ter que andar sempre com ela?
- É o que parece… Quer dar uma volta comigo para sentir melhor o carro?
- Vou, mas sem ela… Imagine…
- Hummm… Eu acho que vai dar problema, pois o carro não está adaptado… Em todo o caso… Ei, mocinha, pode sair um pouquinho? Isso… fique aí na frente de casa que a gente já volta, viu? Pronto, pode entrar, amor…
- Ei! Mas que barulho de alarme é esse? As portas estão fechadas, coloquei o cinto… O quê será?
- Eu te falei… tem que ter a loira…
- Que absurdo! Imagina! Tá… tá bom…Ei, psiu! Senta aí atrás, mocinha… Ué… Esse barulho ainda…
- Benzinho… a loira tem que ir na frente. Troque de lugar com ela. Isso… Viu como parou? Paciência, benzinho… paciência…
- Ei… e essa mão na coxa dela?
- Calma, benzinho… calma… o manual explica tudo…

Tuca Hernandes | Comportamento | 10:56 am | Comente que eu te comento (8)