O HITLER DO ASFALTO
Tarde chuvosa de sábado. Numa avenida movimentada de São Paulo, em cima de minha moto, percebo pelo espelho retrovisor que um motorista quer falar comigo. Entre faróis altos e buzinadas, ele gesticula de modo grave pra mim, claramente pedindo a minha atenção. Imaginei que ele quisesse me alertar sobre algo, quem sabe um “Ei amigo! O pneu da sua moto está murcho!”. Deixo então ele ficar emparelhado comigo, através do lado do passageiro. O cara, um fortão que devia ter lá os seus quarenta e tantos anos, tagarela freneticamente, mas não consigo ouvir uma só palavra, pois o vidro daquele corsa azul está fechado por causa da chuva. Enfim, ele abaixa o vidro e inclina-se em minha direção, deixando bem clara a intenção daquele contato, ao berrar numa selvageria de espantar:
- SEU FILHO DA PUTA!!! VOCÊ TEM QUE MORRER, SEU DESGRAÇADO! FILHO DA PUTA! EU QUERO QUE VOCÊ MORRA ATROPELADO, NA ESTRADA, NA RUA! DESGRAÇADO!!! CUZÃO! FILHO DA PUTA!!!
Bem surpreso e assustado, reduzo a velocidade de minha moto, deixando aquele carro ir adiante. Perplexo, começo a me perguntar sobre a razão daquele xingamento. Certamente, sem perceber, eu devo ter feito algo muito grave pra deixá-lo transtornado daquele jeito, concluo. Uma fechada brusca que quase o levara de encontro a um outro carro? Um poste? Não percebi. Fico chateado, pois sei que dirijo a minha moto com bastante cuidado. Falha no meu sistema? Pode ser. No entanto, inconformado e movido por uma curiosidade mórbida, quase suicida, procuro saber o que afinal eu teria feito pra despertar a ira daquele cara. Consigo alcançá-lo no farol:
- Mas, vem cá… o que eu fiz???
Ele me responde com mais ódio ainda, que nem um Hitler no clímax de seu discurso a favor do extermínio dos judeus:
- VOCÊ??? VOCÊ NÃO FEZ NADA! MAS EU QUERO QUE VOCÊS, MOTOQUEIROS, QUE SÃO UM BANDO DE FILHOS DA PUTA, MORRAM! A SUA RAÇA TEM QUE DESAPARECER DA FACE DA TERRA!!! O LUGAR DE VOCÊS É NO INFERNO! DESGRAÇADO!!! SEU FILHO DA PUTA!
Desconcertado pelo motivo da agressão gratuita, consigo ainda responder alguma coisa logo após a abertura do sinal, me defendendo pateticamente, como se fosse obrigação minha esclarecer alguma coisa ali:
- Mas, olha… eu não sou motoboy… – nisso, a mulher que o acompanhava, provavelmente a esposa dele, me olhou sorrindo piedosamente, com uma expressão de “Deixa pra lá moço… ele é assim mesmo, nervosinho, mas gente boa, acredite…”
Já matando a charada, decidi ficar longe daquele corsa, saindo da avenida na primeira rua que encontrei, a tempo de conseguir ver aquele maluco xingar um outro motoqueiro que levava a namorada na garupa. Ele queria brigar. Então era isso. Alguém numa moto tinha feito algo que o desagradara profundamente, sei lá o quê, fugindo em seguida por entre os carros. Na impossibilidade de descarregar o ódio em quem o agredira, o cara resolvera decretar pena de morte pra todo e qualquer motoqueiro que encontrasse pela frente. Ok.
O curioso é que muita gente, ao ler esse relato, vai defender a atitude desse projeto de orangotango surtado, alegando que os motoboys andam tão abusados no trânsito que só um santo pra não ficar maluco com eles. Tudo bem. Mas um momento. O que eu, em cima de uma moto, sem ter enchido o saco de ninguém, teria a ver com a porra-louquice alheia? “Ah Tuca, ele generalizou, só isso. Nessas horas o sangue ferve mesmo, viu? Não foi nada pessoal, tenha certeza disso. Coisas de cidade grande, rapaz! É assim mesmo!”
Quem vai nessa linha de pensamento, passando a mão na cabeça do agressor que revida atacando a classe do indivíduo que o contrariou, justifica toda uma gama de intolerância atuante por aí. Justifica o ódio mais imbecil que existe, aquele que age através da vingança indiscriminada. Bem, todo ódio é imbecil, pensando bem.
Dá razão pra vândalos que espancam pessoas, algumas até a morte, somente pelo fato delas estarem vestindo a camisa de um time adversário. Dá razão pra mísseis israelenses matarem civis palestinos por causa de homens-bomba. Dá razão pra terroristas que acabam matando civis israelenses. E por aí vai, numa lista interminável de exemplos, num eterno revide sem perspectiva de um cessar fogo definitivo. Nesses embates, o indivíduo é o que menos importa.
Portanto, se você tiver ódio, tendo que descarregá-lo - fazer o quê, você é assim mesmo, sangue quente, não? A vida anda difícil, não? Pois é. - que seja pelo menos sobre quem o provocou. Não em quem se parece de alguma forma com o seu algoz. Não generalize. Se um elefante escapar do circo e pisar no seu pé, não saia por aí xingando todo obeso mórbido que encontrar pela frente. Se um anão fugir com a sua mulher não vejo razão pra você odiar todas as crianças do mundo, tornando-se um Herodes contemporâneo.
Olha, tudo bem, odeie. Mas com moderação, por favor. Longe de mim querer questionar a sua natureza, um direito seu, ora essa. Mas tenha cuidado ao entregar a fatura de seu prejuízo. Os indivíduos inocentes das classes marginalizadas agradecem.
Olha aí um objetivo bacana pra 2007. Legal, não?
