FIAPO DE JACA

September 29, 2006

CURTINDO O VOTO ADOIDADO!

- Nossa amor, o que aconteceu pra você ter acordado tão animado assim?
- Ora essa, hoje é dia de eleição, querida! É a festa da democracia! Me dá um tesão danado só de pensar que votarei daqui a pouco! Uhuuu!!! Bota a mão aqui… tá sentindo? Durão, né?
- Que maravilha… Então é hoje!!! É hoje que usaremos a ferramenta perfeita pra exercermos a nossa cidadania: o voto!!!
- Meu bem, hoje escolheremos os governantes que trabalharão pelos nossos interesses. Por causa disso, muita coisa boa pode vir por aí. Renovação! Não é lindo isso?
- Sim, sim! Hummm… Você vai votar mesmo na oposição?
- Ah, dessa vez sim, viu? O governo que está aí tem feito um belo trabalho, com uma ou outra coisinha que não me agrada. Mas tudo bem, ninguém é perfeito. Não se pode agradar a todos, a todo momento. Mas, seja lá como for, eu acho que é hora de coisas novas. Evolução, sempre. O que é bom sempre pode ficar melhor, concorda?
- Tem razão. Além do mais, me alivia saber que depois da eleição, todos, dos deputados ao presidente, trabalharão juntos pelo nosso país, como sempre, sem essas intriguinhas de oposição e governo. Tudo pelo bem comum.
- É isso mesmo. Por isso que eu amo esse país. Depois de você e das crianças, o que eu mais amo é a nossa pátria.
- Eu também.
- Então… viva a Suécia!
- Viva!!! Uhuuu!!!

Tuca Hernandes | Política | 7:01 pm | Comente que eu te comento (4)

September 26, 2006

MIOJO COREANO

Autocensura por suposta falta de originalidade. Se você tem o costume de escrever, é bem provável que isso já tenha lhe ocorrido. Você deixa de publicar ou desenvolver algo pela certeza daquilo não ser lá tão original assim, apesar de não conhecer fontes que venham a comprovar a sua suspeita. A idéia pode ser ótima, mas temos certeza que muitos já pensaram exatamente naquilo. Se bobear, o assunto rendeu até comunidades no Orkut. No entanto, para sabermos se aquela idéia ou termo é realmente original, recorremos à esfinge dos novos tempos: o Google. E foi o que eu acabei fazendo. Pra ver se alguém havia desenvolvido a bobagem que eu tinha em mente, digitei “coréia miojo sabor cachorro”. Ninguém. Portanto, segundo padrões googleanos, a idéia desse texto é inédita. Sei não… Ok, vamos lá.

Mas ainda estranho que ninguém, em alguns dos milhões de textos inúteis largados na internet, tenha especulado sobre como seriam os sabores do miojo na Coréia. Pra horror das associações de defesa aos animais fofinhos e desamparados, é sabido que muitos coreanos reservam aos cachorros o mesmo carinho com o qual tratamos uma boa picanha por aqui. Nós, na suposta normalidade da cultura ocidental, ao termos ciência disso, tendemos a ficar tão horrorizados quanto um indiano qualquer num rodízio de carnes. Descontando preconceitos do lado de cá, não seria estranho vermos nas prateleiras dos mercados coreanos uma série de miojos no sabor “cachorro”.

Assim como temos aqui os sabores carne nas variações “carne”, “picanha” e “churrasco”, a “linha cachorro” teria inúmeras opções conforme a raça de preferência do consumidor. Dessa forma, as crianças teriam o sabor “Poodle Toy” para matar a fome. Pro público marombado, que não sai da academia, porque não um miojinho sabor “Pittbull”? O coreano refém de regime não ficaria de fora dessa, tendo a sua disposição uma versão light, devidamente representada por um gostinho de “Pequinês”. Na embalagem de todos, talvez os publicitários não resistiriam, colocando mensagens “geniais” do tipo “Miojo Pet - O melhor amigo do seu estômago!”

Sim, pra muitos tudo isso pode soar tão engraçado quanto uma piadinha suja sobre a senhora sua mãe. Sim, eu sei. Muitos que adoram cachorros, jamais vivendo sem um ao lado, dificilmente sorriem pra esse tipo de especulação. Alguns, sentem-se tão indignados quanto um muçulmano radical vendo uma charge sobre Maomé. “Que mau gosto… Com isso não se brinca, rapaz! Tá doido?” Sensibilidades à parte, de qualquer forma, se eu fosse passar uns tempos na Coréia, eu jamais experimentaria um miojo da linha cachorro. Por razões sentimentais da alma tipicamente ocidental. Preferiria qualquer outra iguaria que dizem existir no Oriente. Sei lá, quem sabe um miojo sabor gafanhoto…

Tuca Hernandes | Bichos | 7:20 pm | Comente que eu te comento (13)

September 21, 2006

PARENTES DE CELEBRIDADES

Não deve ser fácil ter um parente famoso, ainda mais se o mesmo é querido, desses que não fizeram questão de ignorar a família depois do estrelato. Decerto que existem momentos de orgulho, quando o parente-celebridade possui uma imagem fofinha perante a mídia que até a TFP chamaria pra fazer propaganda. Mas, quando tornam-se públicas notícias de caráter constrangedor, do tal foro íntimo em forma de flagra, como o ocorrido com a ex-Ronaldinha nessa semana, ouve-se de tudo pelas ruas. Com esse episódio, muitos parentes que gostam da moça já devem ter ouvido uns e outros se referirem a ela como “vagabunda”, “piranha”, “vadia”, e demais gentilezas vindas do julgamento machista. E não deve ser fácil presenciar tudo isso. Não mesmo.

Lembrei de um episódio que aconteceu comigo, quando eu era moleque. Era festa de aniversário de um amigo meu, onde a grande atração seria a apresentação de um grupo musical relativamente famoso na época, composto por duas moças e um rapaz. Uma delas era prima do aniversariante. Momentos antes do início da apresentação, por playback, um amigo veio conversar comigo:

- Que grupo é esse que nunca ouvi falar? Você já viu?
- Sim, você já deve ter visto também. É um grupinho bem tosco que vive se apresentando no SBT. Cantam e dançam umas músicas bem chatinhas.
- Não lembro…
- Lembra sim… É formado por duas gostosinhas e um bichinha. O cara que canta tem um jeitinho de quem dá a bunda… Gayzinho demais! Lembrou agora?
- Ah… sim, sim…

Nisso, percebi que uma mulher escutava a nossa conversa, me encarando como se quisesse uma morte lenta e dolorosa pra mim. Até então, não havia recebido na vida um olhar carregado de tanto ódio como aquele. Assustador. Minutos depois, vim a descobrir que ela era mãe do tal rapaz que supostamente dava a bunda…

Portanto, não estranhe se você levar de alguém um peteleco aparentemente inexplicável depois de malhar a judas do momento, a Cicarelli. Afinal, parente não anda por aí com um crachá no estilo “Irmão do Leão Lobo”, “Pai do Felipe Dylon”, etc. E, cá entre nós, deixemos a coitadinha da ex-Ronaldinha ter lá os momentos de paixão-caliente-atoladinha ao lado do mauricinho dela, ora essa! Se for pra falar mal de alguém, que continue sendo da Suzane Von Ritchtofen, por exemplo. Aí sim.

Tuca Hernandes | Comunicação | 11:30 am | Comente que eu te comento (7)

September 19, 2006

OITO COISAS AO REDOR DO MEU UMBIGO – parte 2 de 2

5 - Estômago ET
Sobretudo pelas manhãs, desconfio que o meu estômago é na verdade um alienígena que habita o meu corpo. Uma das provas disso é a mania dele de só acordar horas depois que saio da cama. Preguiçoso, ele nunca me acompanha, fazendo com que eu jamais tenha aquela fome matinal tão comum aos cerumanos. Breakfast majestoso de um belo hotel? Saio de lá apenas com um cafezinho e algumas bolachas magrinhas, enjoado ao encarar tudo aquilo que o alienígena não quis. Por mais que os olhos se animem pela perspectiva de um desjejum em grande estilo, mesa colorida, não adianta, o bicho só teima em acordar mesmo lá pela hora do almoço. Se tiver feijoada na mesa, melhor ainda. Tanto que, anos atrás, ele já traçou um prato disso lá pelas sete da manhã, com farofa e couve. Só faltou a caipirinha pra completar. Vai entender…

6 - Seletividade no amor
Muitos confundem seletividade com medo de amar. Alegam que quem escolhe muito, na verdade, tem pavor de compartilhar a vida com uma outra pessoa. Cagaço brabo. Por isso, complica tanto as coisas, deixando qualquer relacionamento naturalmente inviável. Ao meu ver, tudo isso não passa de um raciocínio manco de quem tenta aliviar a decepção por ter sido rejeitado, funcionando feito um analgésico na auto-estima em frangalhos. Em um relacionamento, não creio que a pessoa tenha que se adaptar tanto assim a outra. É preciso que haja um encaixe evidente, com uma ou outra aresta a ser tolerada, já que nada é perfeito nesse departamento. Casais que vivem brigando, mas que se dão bem na cama, fossem sinceros, tornariam-se apenas grandes amantes, nada mais. Casais que possuem afinidade intelectual imensa, mas que não se dão bem na cama, fossem sinceros, tornariam-se apenas grandes amigos, nada mais. Sorte daqueles que, como eu, tem o melhor dos dois mundos em uma só pessoa. Um brinde à minha seletividade. Sem ela, talvez eu estivesse casado com alguém por caridade. Sem ela, eu não teria a minha Patrícia.

7 - Parabéns pra você, nessa data querida.
Não me levem a mal, mas eu não gosto dessa música. Não tenho razões traumáticas pra alegar essa antipatia. Enjoei dela apenas. Quando criança, adorava ouvir e cantá-la, da mesma forma que aceitava sorridente outras tantas canções de infância. Mas, pra mim, tudo tem seu tempo. Se até alguns clássicos dos Beatles cansaram meus ouvidos, porque não essa canção, que ouço desde o tempo das fraldas? Sabe aquela musiquinha chata da novela das oito que somos obrigados a ouvir durante meses? Isso pra mim é o “Parabéns pra Você”, com a desvantagem de nunca sair de moda, uma vez que não depende de jabá da Globo pra ser veiculada. Nem as inserções engraçadinhas - como o “É pica! É pica! É rola! É rola!” - funcionam mais. Piada velha, fonte de sorrisos amarelos. Se bem que no meu último aniversário, os meus sobrinhos - pivetada de 2 a 7 anos - resolveram inovar, cantando no fim: “ARRÁ! URRÚ!!! Ô Tio, eu vou comer o seu bolo!!!”. E que continuem assim, sem noção alguma de rima.

8 – Médico Veterinário
A principal razão de eu ter escolhido e concluído o curso de medicina veterinária foi a possibilidade de morar e trabalhar no interior. Hoje em dia, não cogito mais sair de São Paulo, capital. Só saio daqui se for rumo à outro país. Não pretendo abrir clínica alguma, destino mais do que comum dos veterinários que ficam na cidade grande. Gosto de animais, não tecnicamente, mas sim afetivamente. Trabalhei durante cinco anos com avestruzes, período no qual simpatizei bastante com esses bichos, feito um paizão. Pena que os criadores, pra gerenciarem seus negócios, revelavam-se ora picaretas, ora incompetentes. Desmotivado por isso, caí fora. Ainda posso dizer que sou veterinário, uma vez que presto serviços pra uma editora que publica guias de produtos para animais. Opção bem alternativa para o que se espera de um profissional da minha área. Garante um dinheirinho aqui e acolá, vez ou outra. No mais, quem me acompanha por aqui, percebe que o que eu gosto mesmo de fazer é escrever. Venho tentando inaugurar um novo tipo de profissão, a do redator veterinário. No que isso vai dar? Veremos… No mais, alguém com alguma outra sugestão aí?

Tuca Hernandes | Meu Umbigo | 12:08 pm | Comente que eu te comento (7)

September 15, 2006

OITO COISAS AO REDOR DO MEU UMBIGO – parte 1 de 2

Normalmente, esses eventos virtuais de blogueiros costumam me causar tanto interesse quanto uma apresentação cover do Kenny G. Ignoro sem pensar muito. A bola da vez é uma espécie de desafio propagado em forma de corrente, no qual a pessoa tem que escrever oito coisas sobre ela. Pra variar, eu ia ficar fora disso, novamente. No entanto, percebi que não importa a proposta, mas sim como você a desenvolve. Por isso, resolvi acatar a intimação feita pelo meu amigo Ian, no blog dele. Pra não ficar muito grande, de forma a poupar sua vista e paciência, resolvi publicar o meu momento eu-mesmo-mais-ninguém em duas partes. Lá vai a primeira:

1 – Queijo Ralado
Pra mim, o mundo seria um pouco melhor se não existisse queijo ralado. Sou desses que sente gosto de vômito toda vez que esse negócio, escondido na comida, toca a minha língua. Nada mais broxante que um saquinho de queijo ralado aberto na mesa, na minha frente, exalando aquele odor de quem não lava os pés há meses. O curioso é que quase todo mundo adora isso. Esses, se pudessem, levariam pra uma ilha deserta, além da pessoa amada, um carregamento com 100 toneladas de vômito, digo, queijo ralado. Se existe mesmo um inferno reservado pra cada um de nós, creio que no meu toda e qualquer comida virá coberta por queijo ralado. Bebida também. E, de sobremesa, sorvete de queijo ralado.

2 – Rir Sozinho
Quando sozinho no meio do público, muitas vezes enfrento um drama curioso: tentar segurar uma gargalhada, ao lembrar de um fato engraçado lá do passado. Fico com aquele sorriso de quem está bochechando a própria saliva, olhando pra cima, censurando a gargalhada como quem tenta segurar um espirro. A última vez em que isso me aconteceu foi dias atrás, quando eu estava no metrô lotado (ops, pleonasmo) aqui de São Paulo. Me lembrei, sei lá porque, de uma passagem ocorrida no início de meu primeiro emprego como veterinário de avestruzes. Na criação onde eu trabalhava, um dos amigos do meu patrão ficou surpreso ao ver, pela primeira vez na vida, alguns filhotes de avestruz:

- O quê? Você está me dizendo que esses bichos aí, do tamanho de um franguinho, têm só 15 dias de idade?
- Sim. Esses aí sãos os pintos.
- Peraí… Você tá brincando, né? Vocês chamam esses bichos aí de “pinto”?
- Sim. Nessa idade é tudo pinto.
- Desse tamanhão??? Rapaz, isso não é um pinto. Tá mais pra um caralho!!!

3 - Falar sozinho
Costumo falar sozinho. Mas antes que você venha a imaginar que sou desses louquinhos que vivem a discutir com amigos imaginários no meio da rua, enganou-se. Faço isso quando tenho a certeza absoluta de que não há ninguém por perto, protegido pela porta trancada de casa ou do carro. Ninguém me vê, ninguém me ouve. Já devo ter descoberto umas cinco vezes o sentido da vida nessas conversas comigo mesmo. Mas sempre esqueço o gabarito horas depois, ao papear com outras pessoas. Já houve ocasiões em que fui pego pelos meus pais fazendo o meu monólogo, surpreendido por eles ao chegarem em casa, bem na hora em que eu passava ao lado da porta, discutindo a relação com as paredes. Nesses flagras, pra não dar a entender que eu estou falando sozinho, começo a cantarolar meio alto uma canção qualquer. Uma mensagem do tipo: “Olha, eu não estava falando sozinho, viu? Eu estava cantando. Olha só, cantando!!! Lá-lá-lá…” Patético. Violação involuntária de privacidade pior do que essa, só aquela onde o rapaz é pego pela mãe em pleno ato de homenagem à capa da Playboy do mês. Nesses casos, o coitado nem pode cantarolar pra tentar remediar…

4 – Drogas
Cocaína? Tive mais de uma oportunidade pra experimentar. Não aproveitei nenhuma. E não me importo nem um pouco em continuar pelo resto da vida virgem nesse departamento. Não quero depender de um pozinho mágico pra simular felicidade. Já me bastam os inúmeros exemplos de pessoas bacanas que foram ralo abaixo por conta disso. Maconha? Já experimentei algumas vezes. Não me disse nada de nada. Não me comoveu. Deve ser pelo fato de eu ser naturalmente uma pessoa zen, sem necessidade da erva encantada pra chegar perto disso. Quanto ao cheiro do baseado, acho uma merda. Mas, independente de eu ser consumidor ou não, por mim, ele seria legalizado. No mais, a única droga que consumo mesmo é bebida alcoólica. Chopp no topo do hit parade. Mas pouco, muito pouco, pois acho um porre ficar de porre.

E, como é regra, repasso a bola pras nobres figuras aqui: Kandy, Rodrigo Ghedin, Selph, Gláucia, Nata e Rafael.

Tuca Hernandes | Meu Umbigo | 12:03 pm | Comente que eu te comento (13)

September 12, 2006

AS CADELAS DA MINHA VIDA

Eu já tive duas cadelas. E antes que você venha a pensar que farei um ensaio rancoroso sobre romances fracassados, esclareço que as cachorras aqui são aquelas no sentido animal do termo, caninamente falando. Em fases distintas, elas participaram da minha vida universitária lá do século passado, morando comigo e mais três amigos de curso numa república em Jaboticabal. Bem mais do que o comportamento, o maior diferencial delas, razão desse texto existir, residia no nome de cada uma: Rogéria e Bunda.

A primeira foi a Rogéria, uma pastora alemã estabanada, cuja característica mais marcante era a de possuir um rabo com vida própria, numa constante epilepsia localizada. Desconfio que aquele rabo impaciente fora o maior culpado pelas duas fugas dela. Ele queria passear e, como não havia maneira de fazer isso sozinho, era obrigado a levar a dona junto, fazer o quê. Na primeira fuga, eu e meus amigos saímos pela noite de Jaboticabal, espremidos em um fusquinha velho, gritando sem sucesso em decibéis aditivados:

- Rogériaaaaaaa…… ROGÉRIAAAAAA!!! - a vizinhança não deve ter entendido nada. Aqueles quatro marmanjos berrando por uma tal de Rogéria…

A reencontramos após alguns dias, depois de anunciarmos a perda em uma rádio da cidade. Adotada por uma família bem miserável, quase uma cópia daquela retratada em “Vidas Secas”, ela havia ganho até um novo nome, mais previsível pra uma cadela normal: Lilica. De volta pra casa, com aquele rabo que girava feito hélice de ventilador, derrubando tudo ao redor, percebemos que não se tratava de uma cadela normal. Sendo assim, Rogéria continuava o nome ideal pra ela. Talvez tenha ganho um outro no ano seguinte, quando encontrou o portão aberto mais uma vez, fugindo pra nunca mais ser encontrada. De qualquer forma, não deve ter recebido um nome tão original quanto a filhote de vira-lata que deixaram na porta da república, pouco tempo depois: a Bunda.

É bem provável que estivéssemos bêbados ao decidirmos por esse nome. Talvez tenha sido por causa da sonoridade da palavra, sem nos importar com a controvérsia moralista em torno dela, naquela cidadezinha do interior. Sei lá. Não me lembro direito. Só sei que era uma delícia ficar chamando a Bunda, várias vezes por dia:

- Bunda, vem!!! Vem cá, Bundinha… – e lá vinha ela, na sua vira-latice toda meiga, esfregando-se em nossa mão. Até o fim da faculdade, passei muito a mão na Bunda.

Ela sempre teve a companhia de um outro cachorrinho nosso, Bilu, cujo nome não fora escolhido por nós, uma vez que o ganhamos de um vizinho, já grandinho. Estivesse ele com a gente desde o início, o teríamos batizado como “Bilau” ou algo parecido. Bilau e Bunda, seria perfeito. Pensando bem, não. Seria bem estranho e suspeito falarmos que passamos a mão no Bilau, direto.

O Bilu era fujão. Quando conseguia alcançar a rua, voltava horas depois, fedendo carniça por brincar em algum lixão. Numa das fugas, levou a Bunda junto. Passou um dia, e nada dos dois voltarem. Preocupados, decidimos espalhar cartazes com a foto dos dois pela cidade. Mas nos vimos diante de um impasse: como mencionaríamos a Bunda nos cartazes? “Procura-se a Bunda”? Não, iriam pensar que se trataria de uma seleção pra dançarinas de algum novo grupo de axé ou algo do gênero. Conseguimos um meio-termo. Abaixo das fotos, colocamos a seguinte chamada: “Procuram-se esses dois cachorros. Atendem por Bilu e Bumbum”. No fim, os cartazes revelaram-se inúteis, uma vez que os dois voltaram por conta própria no dia seguinte. E com a Bunda exalando um cheiro insuportável de carniça, toda feliz.

Hoje ela vive longe de mim, velhinha, na casa dos pais de um dos meus amigos. Talvez tenha até morrido, não sei. Atualmente morando aqui em São Paulo, num apartamento sem bicho algum – ok, reconheço, peixes são bichos também -, sinto saudades dela, mais até do que a Rogéria Rabo de Ventilador. Meiguinha, meiguinha…

Pois é, Bunda como aquela, nunca mais…

Tuca Hernandes | Bichos | 12:22 am | Comente que eu te comento (9)

September 6, 2006

FOTOGRAFIA DE UM FRIO SEM NEVE E PINGÜINS

Um texto pode ser uma foto expressa em palavras. Muitas vezes, funciona até melhor do que uma fotografia, dependendo de como certas sensações são descritas. Portanto, nem sempre uma imagem vale mais do que mil palavras. Decerto que palavras, quando bem empregadas, podem valer mais do que mil imagens. No momento em que escrevo este texto, por exemplo. O frio é grande, desses de cutucar a medula dos ossos, dando a sensação de que a qualquer momento encontrarei pingüins atravessando os faróis daqui. Não há imagens convincentes que revelem o gelo desse momento. Não está nevando, tampouco um iceberg surgiu no meio de uma avenida. Dessa maneira, resta tentar provar pelas palavras o quão chato deu pra esse inverno ser, perto do seu fim.

Como a sensação é recente, desconfio que não causará muita comoção a leitura desse texto, logo após a sua publicação. Muita gente, ao conferir essas palavras, simplesmente dirá: “E daí? Eu também estou com frio… Grande novidade! Ô falta de assunto!” Como fotos tiradas no dia anterior, no máximo isso aqui merecerá uma olhada pra ver se tudo está de acordo com o esperado. Se os verbos continuam sendo conjugados como devem ser, se as crases foram bem colocadas, essas coisas. No entanto, tempo passando, calor voltando, texto largado por aqui, sem atualização automática conforme o clima, a leitura disso aqui pode provocar outras sensações. Aí sim, se torna recordação, pose em palavras lembrando que na primeira semana de setembro de 2006 fez um frio de desvirginar termômetros aqui em São Paulo.

No momento em que você lê essas palavras, talvez a sua testa esteja cheia de suor, tamanho o calor que vem fazendo aí do outro lado do monitor. Se for assim, das duas, uma. Ou você está numa região que não é o sul e sudeste do Brasil, ou então, encontrou este post bem depois dele ter sido publicado. Talvez estas linhas possam servir de consolo pra você, que pode estar reclamando do forno daí. Sendo assim, saiba que o coitado aqui está nesse momento tentando usar seus dedos gelados pra finalizar este texto, desconfiado de que ainda tropeçará em alguns pingüins lá na calçada.

Fui convincente na fotografia?

Ps: link para a Central da Esperança.

Tuca Hernandes | Clima | 11:44 am | Comente que eu te comento (9)

September 3, 2006

COISAS DO MERCADO

- Em seis meses, é a quinta vez que o senhor vem aqui, correto?
- Exato.
- Bem, senhor Carlos, vejo que o senhor teve um desempenho excepcional em nosso processo de seleção. Currículo, testes de aptidão, psicotécnico, dinâmica de grupo, tudo. Saiu-se muito bem nas entrevistas, tanto no departamento técnico quanto no de recursos humanos.
- Fico feliz em saber que correspondo à expectativa da empresa.
- Esse seu currículo, rapaz, que maravilha! Uma curiosidade: você demorou muito para ter fluência em alemão?
- Eu já dominava alguma coisinha, mas meus dois anos de mestrado em Berlim foram fundamentais. Diríamos que foi um pouquinho mais difícil do que o francês aprendido quando fui gerente comercial da multinacional onde eu trabalhava.
- Essas notas durante a faculdade, nunca vi nada igual! Realmente estupendo, senhor Carlos.
- Nem tanto, nem tanto…
- Como assim?
- Se o senhor olhar melhor, vai encontrar um nove e meio… Tive uma gripe forte dois dias antes da prova…
- Sei… sei…
- E então?
- Então o quê?
- A minha situação? Serei contratado?
- Hmmm, veja bem… temos aqui um probleminha…
- O que seria?
- Por onde começaremos… Bem, você se recorda de seu ginásio, mais especificamente sexta série?
- Mas… mas… desculpe a curiosidade, qual seria a importância do que eu fiz naquela época?
- Senhor Carlos, limite-se a responder… e verá onde chegaremos.
- Sexta série? Eu devia ter uns doze anos, nossa, tanto tempo. Eu fazia parte do time de futebol da escola…
- O senhor chegou exatamente no ponto…
- O quê?
- O time de futebol, senhor Carlos. Vamos ao dia, vejamos… oito de outubro daquele ano. Essa data significa algo para o senhor?
- Deixe-me ver… Que eu me lembre, não. Sinceramente, não.
- Forçe um pouquinho mais a memória, senhor Carlos. Dia oito de outubro, mais precisamente às duas e quarenta e três da tarde. Melhorou?
- Olhe, realmente não me lembro… O que deveria ter acontecido de tão importante nesse dia? Time de futebol? Ganhamos o campeonato? Não, não ganhamos… Chegamos à final, mas não ganhamos…
- E, porque não ganharam?
- Se não me engano, empatamos no tempo normal e prorrogação. Fomos para os pênaltis. Isso! Perdemos nos pênaltis.
- E quem deu o último chute, aquele que o goleiro pegou?
- Fui eu…
- Isso mesmo, conforme o relatório que tenho em mãos, exatamente às duas e quarenta e três do dia oito de outubro daquele ano, o atacante Carlos Ferreira, vulgo Carlinhos, teve seu pênalti defendido por João Pedro da Silva, vulgo Zaroio. Dessa forma, mais uma vez o seu colégio ficou na fila pelo título de campeão do bairro, jejum que só seria quebrado cinco anos depois.
- Mas…, o que isso tem a ver com essa entrevista?!
- Tem tudo a ver, senhor Carlos! Tudo a ver! O senhor perdeu um pênalti decisivo! Prejudicou uma equipe inteira! Um colégio inteiro! O senhor acha que temos condições de admitir em nossa empresa ISO 14000 alguém com um histórico desse? Isso aqui não é brincadeira não, todos trabalham em equipe. Se um falha, todos falham! Prejuízo de todos!
- Mas aquilo faz tanto tempo…
- Senhor Carlos, não renegue o passado, encare os fatos. Encare os fatos…
- Mas… eu… eu… chutei no cantinho, o Zaroio é que pegou muito bem. Era uma bola indefensável…
- Indefensável, mas ele defendeu. É o que importa e ponto final. O que conta é o resultado, não a intenção.
- Mas, como vocês conseguiram essa informação? Como?
- Conforme eu havia esclarecido o senhor logo na primeira entrevista, somos muito eficientes naquilo que fazemos. Ao contrário de certos batedores de pênalti…
- Eu era uma criança…
- Mas com idade o suficiente para responder pelos seus atos. Sabia muito bem o que estava fazendo…
- Fui o artilheiro isolado daquele campeonato…
- Mas não conseguiu o título, perdeu o pênalti.
- Ganhei o troféu de melhor jogador do campeonato…
- Mas perdeu o pênalti! Senhor Carlos, em nossa empresa só admitimos pessoas com histórico de vencedor! De vencedor! O mercado aí fora está cada vez mais competitivo! O senhor sabe o significado disso? Sabe?
- Pôxa vida…
- Sei que é duro. Sinto não poder fazer nada pelo senhor. Não sou eu quem faz as regras, mas o mercado. O mercado!
- Espere! Olha, eu posso trazer aqui o troféu de melhor jogador. E também a medalha pela conquista do campeonato intermunicipal, no terceiro colegial, onde fui artilheiro também!!!
- Senhor Carlos, lamento muito. Coisas do mercado… coisas do mercado…

Tuca Hernandes | Trabalho | 2:49 am | Comente que eu te comento (6)